Ortografia: «afro-descendente»

Analogia


      «Os habitantes são de várias raças: os manabitas, vindos da província de Manabi, os afrodescendentes, os mestiços e os oriundos da serra», alguém escreveu. Faz lembrar a infeliz grafia *lusodescendente usada no Diário de Notícias. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomendou o uso de hífen nos «compostos em que entram, morfologicamente individualizados e formando uma aderência de sentidos, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva». Exemplos? Físico-químico, póstero-palatal, trágico-marítimo, ântero-inferior; latino-cristão, grego-latino, afro-negro.

[Post 3273]

«Torção/torsão»

Torcer


      «Aproveito, já agora, para lhe pedir a opinião sobre o seguinte. É correcto grafar “torsão” ou terá de ser, sob pena de erro ortográfico, “torção”? Ou pode ser escrito das duas maneiras?»
      No âmbito da Matemática, basta pesquisar no Google para o comprovar, usa-se muito mais a grafia torsão do que torção. Todavia, só esta se encontra dicionarizada. Os dicionários dão como étimo de torção o vocábulo latino tortĭo,ōnis, pelo que nunca poderia ser grafado com s. Se supusermos que o étimo de torsão é o inglês torsion, então já estará correcto, pois este vem do latim tardio torsio, alteração de tortĭo,ōnis.

[Post 3272]

Superior/superiora

O mundo é dos homens?


      «Pouco depois desta descida pelo rio Cayapas e primeiro contacto com esta etnia negra do Equador, as minhas superiores enviaram-me para Muisne, uma ilha no oceano Pacífico», escreveu a missionária. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, superiora é a religiosa que dirige um convento; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a religiosa que governa uma comunidade ou instituto de mulheres; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Houaiss, é a religiosa que dirige um convento ou mosteiro; abadessa; priora. (Sim, priora ou prioresa é o mesmo.) Julgo que a melhor definição é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e, por isso, creio que a missionária deveria ter escrito «as minhas superioras».

[Post 3271]

Léxico: «miau-miau»

Agora com fertilizante


      «É que esta droga, conhecida como “miau-miau”, entre outros nomes, é um fertilizante de plantas, pelo que não é uma substância ilegal e pode ser adquirida com grande facilidade através da Internet. Esta facilidade de comprar e o preço (uma grama ronda os onze euros) são algumas das principais preocupações» («Autoridades em alerta com nova droga», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 14).
      Talvez 605 Forte fosse mais eficaz... e ainda estaríamos na mesma área: fertilizantes, pesticidas. O artigo menciona os outros nomes por que é conhecida esta nova droga: M-Cat, MC, 4MMC.
      E é claro que grama, na acepção usada, é do género masculino. A jornalista lembrou-se da erva rasteira, rizomatosa, prejudicial às culturas, pertencente à família das Gramíneas, espontânea em Portugal, e também conhecida por gramão, porque o miau-miau é um fertilizante...

[Post 3270]

Ranking/escalafón/classificação

Mais português


      «Rivera Ordoñez é considerado um dos artistas mais bonitos e elegantes de Espanha a par do seu irmão, o também matador de touros Cayetano. Há vários anos que o seu nome é presença assídua no escalafón dos melhores matadores de touros e, no ano passado, recebeu a medalha de ouro das Belas Artes pelos reis de Espanha» («Vai ouvir-se guapo! no Campo Pequeno», 24 Horas, 19.3.2010, p. 30).
      Em Portugal, talvez só um amante da tauromaquia saiba o que é o escalafón. É verdade que o contexto é quase auto-explicativo, mas não chega. Escalafón é qualquer tabela classificativa. («Lista de los individuos de una corporación, clasificados según su grado, antigüedad, méritos, etc.», define o DRAE.) Em Espanha, qualquer falante sabe o que é o escalafón — apesar de, em todos os contextos não relacionados com a tauromaquia, ter vindo estupidamente a ser substituído pelo anglicismo ranking, que também tomou conta da cabeça dos Portugueses. No ténis, por exemplo: algum jornalista se atreve a escrever «tabela classificativa [ou classificação] da ATP»? Não, tem de ser «ranking ATP»: «O francês Jo-Wilfried Tsonga fecha os primeiros 10 jogadores do ranking ATP, por troca com o chileno Fernando Gonzalez, que baixou para o 11.º lugar» («Nadal baixa para o 4.º lugar do ranking ATP», Diário de Notícias, 22.3.2010).
      Ah, sim: escreve-se Belas-Artes (Bellas Artes em espanhol), erro já aqui referido.

[Post 3269]

«Desenvergonhado/desavergonhado»

Não é o mesmo


      A propósito da destelemovelfobia do leitor R. A., lembrei-me de citar aqui este trecho de uma composição de uma aluna de 11 anos: «E assim foi: começaram a jogar e não foi que a pouco e pouco as outras crianças se desintimidaram e se juntaram ao jogo?!»
      O sufixo des- (que nem se sabe se deriva do latino dis- se de de ex) com o sentido de oposição, negação ou falta é o mais produtivo da língua portuguesa. No entanto, há centenas de vocábulos formados com este sufixo que o falante comum desconhece. Um deles é precisamente o verbo desintimidar: acabar com timidez ou constrangimento de. Mas não são apenas os falantes comuns a ignorá-los, também os dicionários. Assim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «desintimidar». Tal como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Ora, a aluna também usou o popular desenvergonhado. E que acontece neste caso? Só o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o adjectivo, mas remete para o verbete desavergonhado. Ora, as acepções não são totalmente sobreponíveis, não são coincidentes, pelo que desenvergonhado merecia um verbete com a definição completa.

[Post 3268]

Léxico: «enguia-de-vidro» e «angula»

Tudo na mesma


      «“A enguia-de-vidro (meixão) é muito apreciada na região de Espanha. Daí ter de existir captura suficiente para servir os imensos restaurantes e o apetite voraz em relação ao petisco que eles fazem com a angula”, disse ao DN José Eduardo Rebelo, doutorado em Biologia e docente na Universidade de Aveiro» («Enguia bebé que vale ouro», Joana Capucho, Diário de Notícias, 28.2.2010, p. 66).
      Há dois anos, escrevia aqui que os dicionários não registam o vocábulo meixão. Tudo continua na mesma. E todos os anos são publicados vários artigos na imprensa sobre o meixão. Aliás, os dicionários também não registam angula nem enguia-de-vidro. No DRAE, lê-se que angula vem do basco angula, alteração do vocábulo latino anguilla. O que é já nós sabemos: «cría de la anguila, de seis a ocho centímetros de largo, muy apreciada en gastronomía».

[Post 3267]

«Alma», uma acepção

Está bem


      A alma não é apenas o princípio da vida e do pensamento. Este vocábulo tem mais de uma dúzia de acepções. Entre elas, a de superfície interior do cano de uma arma de fogo que pode ser lisa ou estriada. É uma extensão do sentido desta acepção que foi usada no seguinte texto: «Instalada num parque industrial com 23 hectares, a Prebesan é a única empresa em Portugal a fabricar tubagens para redes de água sob pressão, emissários submarinos ou estruturas de regadio com ‘alma’ de aço, o que a diferencia da concorrência» («Duplicou negócios apesar do ano de crise», João Nuno Pepino, Revista do Aniversário CM/Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 24). Nestes casos, sim, justificam-se as aspas.

[Post 3266]

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