Uso das aspas

Imagem do jornal Público

Não perdem mesmo a pancada


      «Foi ao som forte de palmas e do barulho ensurdecedor de motos a acelerar que a urna de Nuno Rodrigues — o cantor rap ‘MC Snake’ morto a tiro pela PSP na madrugada de segunda-feira — chegou ontem ao Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa» («“Snake, estaremos contigo eternamente”», Helder Almeida, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 18). Agora, até já os pseudónimos merecem aspas! Mas não são todos os pseudónimos, atenção. «Boss AC e Sam The Kid foram apenas dois dos cantores de rap mais conhecidos a acompanhar o cortejo fúnebre de ‘MC Snake’.» Como são conhecidos, não ficam de quarentena entalados nas aspas.

[Post 3265]

Como se escreve nos jornais

Um génio de barrete


      Um chefe de cozinha britânico, natural da Cidade dos Pináculos Sonhadores (exactamente: mais um prosónimo), Geoffrey Brown, a viver em Vilamoura foi assaltado em casa. O Correio da Manhã fala também em sequestro, mas tenho sérias dúvidas que estejam preenchidos os requisitos deste crime tipificado no Código Penal. Mas adiante. «A vítima disse-lhe então que tinha dinheiro no quarto e ouviu os três homens, num dialecto que julgou ser africano, falarem entre si» («“Pensei que me queriam matar”», Teixeira Marques, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 16). Um homem de insuspeitas aptidões: não apenas saberá empratar na perfeição as suas criações gastronómicas, como ainda sabe distinguir, e logo num momento particularmente tenso e violento, em que se urinou pelas pernas abaixo, entre dialecto e língua. Vocações perdidas.

[Post 3264]

Uso das aspas

Não perdem a pancada


      Um espanhol de 40 anos foi detido pela Polícia Judiciária no Aeroporto de Faro com 800 gramas de cocaína no estômago. Título do Correio da Manhã? «Trazia ‘coca’ no estômago» (R. P. G., Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 13). Só uma perguntinha: para que servem as aspas? Sim, senhor: é uma redução do vocábulo «cocaína» de uso informal. E depois? As aspas não estão lá a fazer nada.

[Post 3263]

«Congelar», uma acepção

Petrificado

      «Na conta bancária, que foi congelada, tinha 355 mil euros» («Idosa emprestava com 30% de juro», A. S. C., Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 51).
      A melhor definição é a do Dicionário Houaiss: «tornar momentânea ou definitivamente indisponível (dinheiro, bens, etc.); bloquear, imobilizar». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem sequer regista o vocábulo (vejam lá isso, meus senhores). É, como regista aquele dicionário, uma derivação por metáfora. E se é mais vulgar referir-se a dinheiro, também se vê aplicado (e a definição reflecte-o) a bens: «As casas, os carros e as contas bancárias da família (excluindo o património do filho, José Augusto de Oliveira e Costa) estão congelados com o objectivo de compensar o buraco de quatro mil milhões de euros que Oliveira e Costa deixou no BPN» («Retiram bens a clã Oliveira e Costa», Miguel Alexandre Ganhão, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 10).

[Post 3262]

«Executar», uma acepção

De evitar


      «Ainda para mais, tem chovido na região, o que facilita o desaparecimento de quaisquer vestígios deixados pelos dois criminosos de rosto coberto que executaram o agricultor de Ponte de Sor com dois tiros quando este entrou em casa acompanhado da namorada, Ana Maria Brito, 22 anos, que nada sofreu» («Perícias atrasam investigação», Domingos Grilo Serrinha, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 15).
      Nem todos os dicionários registam esta acepção informal (tirar a vida a alguém; matar; assassinar) do verbo executar, motivo mais do que suficiente para o jornalista não o ter usado. Só por curiosidade, consultei o Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nada. Executar é somente, na acepção mais próxima, aplicar a pena de morte.

[Post 3261]

De torque a Trocado

Correio da Manhã trocado


      «O debate sobre o Estatuto do aluno ficou ainda marcado pela intervenção do secretário de Estado da Educação, João Torcato da Mata, que se dirigiu à Assembleia sem usar a fórmula regimental» («Lello censura fotos no Parlamento», Teresa Oliveira, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 31).
      Uma humilhação. Com um nome assim mais invulgar, convinha perder cinco minutos e verificá-lo. Bastava ir ao portal do Governo. está: o secretário de Estado da Educação chama-se João José Trocado da Mata. Neste caso pelo menos, está tudo ligado: Torquato, Torcato e Trocado. Torquato ou torcato era o nome que os Romanos davam ao soldado que, pelos seus feitos bélicos assinaláveis, tinha sido agraciado com o torque. (E agora vejo: nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que vergonha, registam o vocábulo.) O torque é um bracelete, corrente ou colar de metal usado pelos antigos Gregos, Romanos, Gauleses, Persas, Bretões, entre outros povos. Trocado, finalmente, deriva, por via popular, daqueles. Lembro-me de uma vez ter lido numa obra (qual?) de Álvaro Carmo Vaz que, num piquenique em Coimbra com ex-condiscípulos e respectivas famílias, a mulher de um deles chamou o marido assim: «Tor-qu-a-to!»

[Post 3260]

Ortografia: «parassónia»

Não percebo


      «Carlos, nome fictício, agrediu a mulher enquanto dormia. Estava a sonhar que alguém a atacava e ele era o salvador. Um outro homem caiu de um quinto andar porque abriu a janela quando estava a dormir. A parassónia é um distúrbio do sono» («Quando o sonho se torna realidade», Ana Maia, 24 Horas, 20.3.2010, p. 58).
      Os dicionários gerais não registam o vocábulo. Só o Dicionário de Termos Médicos, de Manuel Freitas e Costa, da Porto Editora, regista o termo — mas com a grafia parassómnia. Contudo, nas faculdades de Medicina e nos jornais usa-se a grafia parassónia, que reputo mais correcta. Ora, se escrevemos insónia e não insómnia, porque havemos de escrever parassómnia em vez de parassónia?

[Post 3259]

Léxico: «estrangeirinha»

Ficam algumas

      «Não é só no reino animal que a fronteira entre a vida e a morte pode ser assim tão lenta e porosa. No final do séc. XVI, no triste e breve reinado de D. Sebastião, o Império Português já estava morto, mas os seus inimigos ainda não tinham reparado e receavam-no ao ponto de lhe terem oferecido Larache (a praça que ele queria conquistar quando foi travado em Alcácer Quibir). O palerma não quis, achou que oferecida não tinha piada nenhum, e armou a estrangeirinha que se conhece» («O PSD e o caso da galinha decapitada», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 7).
      Paula Moura Pinheiro diria que é refrescante. Também o digo: é refrescante, nestes tempos de discurso vigiado, ler vocábulos como este, estrangeirinha, expressão de toda a difidência pelo que é estranho, estrangeiro. É isso mesmo, arguto leitor: os vocábulos estranho e estrangeiro têm o mesmo étimo latino: extranĕus,a,um, «que é de fora». Não, calma!, que acolha na minha alma qualquer sentimento xenófobo (mas não contem que vos revele a minha vida), mas porque não devemos descartar vocábulos só por causa dessas remotas associações. Ah, sim: estrangeirinha é a artimanha para enganar alguém, a falcatrua, mesmo a velhacaria. Eu nunca aqui referi alguns dos substantivos ligados ao engano? Devia tê-lo feito, mencionando termos como aldrabice, alicantina, ardil, artimanha, baldoméria, cambalacho, cambão, cilada, codilho, combine (que li pela primeira vez em 1983 numa obra de Jorge de Sena), comedela, conchavo, conluio, embuste, engrimança, escatima, falcatrua, galazia, garatusa, guilha, magicatura, marosca, moscambilha (que li pela primeira vez numa crónica de Miguel Esteves Cardoso), rusto (um brasileirismo para homenagear os meus leitores brasileiros), sofisma, tramóia, trica e muitas, muitas outras. Mas não tive tempo, nem o tenho agora.

[Post 3258]

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