Léxico: «samo»

Outra lacuna


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Confraria Gastronómica do Bacalhau, com sede na Capital do Bacalhau, Ílhavo. Entre as várias especialidades, os confrades (e a indumentária e os títulos, grão-mestre, vice-grão-mestre, mestre chanceler, mestre cerimonial, mestre ecónomo e mestre conselheiro, fazem-me sempre rir) levaram uma feijoada de samos. Sónia Araújo quis saber do que se tratava. Um dos confrades disse que era uma membrana do bacalhau. Outro corrigiu: é a bexiga-natatória (órgão existente em alguns peixes que contém gases e regula a sua subida e descida na água e ainda, em alguns deles, auxilia a respiração) do bacalhau. Tal como ontem perguntei em relação a «melário», pergunto hoje em relação a samo (ou same, como vejo numa pesquisa na Internet): e que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3146]

Sobre «bidão»

Sempre atrasados


      «Se há coisa que nos lembramos desse dia, além da lição magistral dada pelo norte-americano — não foi por acaso que a 17.ª etapa da 93.ª edição da Grande Boucle foi considerada por muitos como um dos momentos altos da era moderna do ciclismo —, é da quantidade indescritível de água que o fugitivo bebeu. Será difícil encontrar uma imagem do dia em que Landis não tenha um bidão ou uma garrafa de água na mão» («Floyd Landis, o batoteiro também é hacker», Ana Marques Gonçalves, Público, 16.2.2010, p. 28).
      Pois é, mas os dicionaristas não têm dúvidas: bidão é a vasilha metálica, em regra cilíndrica, de grande capacidade. Mudamos o verbete ou a realidade?

[Post 3145]

Acordo Ortográfico

Primeira defecção?


      «Contrariamente ao que se escreveu entre nós sobre a nova Constituição angolana, nem o Presidente da República deixou de ser eleito diretamente nem a democracia ficou defunta naquele País. Todavia, a Constituição concentra tantos poderes nas mãos do Presidente, que o regime nela estabelecido só pode qualificar-se como superpresidencialismo, com os riscos que isso comporta.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de 9 do corrente.
      «Entre os aspectos basilares do Estado de Direito contam-se inegavelmente a inviolabilidade das comunicações privadas e o respeito da independência e autoridade dos tribunais. Apesar de constitucionalmente protegidos, ambos, porém, estão em causa entre nós neste momento, mercê da irresponsabilidade e impunidade dos media.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de hoje.
      O que se passou entre uma semana e outra, entre uma crónica e outra? Talvez nada de especial, talvez se tenha simplesmente esquecido de clicar no botão Converter para do FLIP. Mas há mais diferenças: na crónica da semana passada, assinava o texto como deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. Na crónica de hoje, identifica-se como professor universitário e deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. É Carnaval, ninguém leva a mal. Para a semana falamos.

[Post 3144]

Confusões: «extracto» e «estrato» II

Substância extraída de outra


      O jornal i propôs-se, através de um texto do jornalista Luís Leal Miranda, dizer-nos «Tudo o que precisa de saber sobre Tchekov em 5 minutos». Se o leitor fica a conhecer mais sobre este autor russo, também corre o risco de desaprender alguma coisa sobre a língua portuguesa. Leiam: «A profissão de médico foi o ganha-pão do escritor durante toda a sua vida. Nem quando as suas peças eram aplaudidas pela Rússia Tchekov deixou de exercer. A profissão permitiu-lhe viajar e conhecer gente de vários extractos sociais, que o ajudaria a compor personagens. Esta formação não o impediu, no entanto, de sucumbir à tuberculose, a mesma doença que lhe levara o irmão» (28.1.2010, p. 42). Nada de novo, para nem por isso menos lamentável, esta confusão entre extracto e estrato.

[Post 3143]

Tradução: «nobody»

Ninguém e toda a gente


      O original dizia que era «a nobody whom everybody could blame». Um ninguém? Um zé-ninguém? Pois é, podia ser, mas a coisinha insignificante era uma rapariga. E depois? Pode ser um ninguém. O tradutor foi criativo: «uma maria-ninguém que toda a gente podia censurar». Já conhecíamos maria-mijona, maria-rapaz, maria-vai-com-as-outras...

[Post 3142]

Como se escreve nos jornais

Tomem sentido


      Enquanto os apicultores fazem a língua, os jornalistas desfazem-na: «O Marítimo teve o jogo nas mãos, mas a equipa de Domingos Paciência somou mais três pontos e voltou a colocar o Benfica em sentido» («Vitória do Sporting de Braga com um golo que vai dar que falar», Luís Octávio Costa, Público, 15.2.2010, p. 24).

[Post 3141]

Léxico: «melário»



Menos uma


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Associação dos Apicultores de Terras do Antuã. Entre os vários objectos e produtos que levaram, estavam várias colmeias, em corte e inteiras — e melários, os quadros onde as abelhas depositam o mel. E que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3140]

Definição de «batata»

No entanto...


      «“Vocês sabem o que é isto?”, pergunta Jamie aos alunos de Huntington sentados no refeitório, apontando para um cacho de tomates vermelhos. “São batatas!”, respondem as crianças em uníssono. Mas não são só as crianças que desconhecem os ingredientes daquilo que comem. A responsável da escola desmentiu que os alunos não tivessem acesso a vegetais, alegando que estes comiam batatas todos os dias. Fritas, claro» («Jamie Oliver quer levar a revolução aos Estados Unidos», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 17).
      Decerto que batatas não são pedras, mas quando se fala de vegetais, verdura ou hortaliça, não me vem à mente batata. Nem frita nem cozida nem crua.

[Post 3139]

Arquivo do blogue