Léxico: «desportividade»

Essa é boa


      «Requinte, conforto e desportividade». Assim resume o Fugas (pp. 38-39) de hoje as características do novo modelo da série 5 da BMW. Diz-me um leitor: «E eu dou por mim a pensar que não me lembro de alguma vez ter deparado com esta palavra. O meu corrector ortográfico também não se lembra, e tem uma memória bem melhor do que a minha. A palavra existe?» Bem, o meu corrector ortográfico também não a reconhece. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tão-pouco. Contudo, o Dicionário de Português-Francês da mesmíssima Porto Editora regista-o: «desportividade» é sportivité em francês. Não é incongruente? Já no Dicionário Houaiss podemos ler que «desportividade» é o mesmo que «desportivismo». Será? Ainda para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «desportivismo» é, na acepção que mais se adequa, o «espírito desportivo».
      Talvez a definição de sportivité aclare mais o conceito: «a) Aptitude au sport, intérêt pour le sport. Les progrès du sport féminin laissent donc bien augurer de la sportivité des masses (Jeux et sports, 1967, p. 1302). b) Esprit sportif, loyal dans les épreuves sportives ou dans d’autres circonstances. Synon. fair-play. Grâce à leur entrain, leur bonne humeur, et leur sportivité» (in TLFI). Em sentido figurado embora, parece-me que é a acepção a) a usada no título do Fugas.

[Post 3106]

Passes por passos

Os pés pelas mãos


      «As estradas são íngremes e estreitas e nesta época do ano podem ter gelo e serem traiçoeiras, serpenteando pelos passes de montanha e ladeando ravinas profundas, onde as quedas-d’água estão congeladas e as vinhas encordoadas de alguns vinhais mais antigos na terra do vinho ficarão nos campos até ao degelo da Primavera, altura em que serão podadas» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 23).
      Só uma pergunta: o que são «passes de montanha»? Sim, são «passos de montanha». Gralha, seja. Contudo, e salvo melhor opinião, o segmento «vinhas encordoadas de alguns vinhais mais antigos na terra do vinho ficarão nos campos até ao degelo da Primavera» não é imediatamente compreensível.

[Post 3105]

Léxico: «canola»

Pelo menos do reino vegetal


      «A paisagem é de cortar a respiração — montanhas de florestas antigas e intocadas; vales profundos atravessados por rios pintados de azul pelo céu sem par; planaltos férteis a perder de vista, que engordam os carneiros durante o Inverno e se revestem ao longo dos Verões escaldantes com o amarelo e o dourado do trigo e da canola» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 23).
      Neste caso, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que nos deixa na ignorância: o mais aproximado que regista é «canoula», a haste ou cana do milho (que também é um termo heráldico, que designa o emblema do brasão com a forma daquela haste). O Dicionário Houaiss, contudo, diz-nos que a canola é a «variedade genética da colza (Brassica napus), do grupo Pabularia, desenvolvida no Canadá, durante a década de 1970, para extracção do óleo das sementes, com níveis reduzidos de ácidos gordos saturados, especialmente usado em culinária (frituras, saladas, margarinas, maioneses, etc.) e muito consumida no Canadá, principal país produtor e exportador». É o acrónimo de Canadian oil, low acid, «óleo canadiano de baixo teor ácido».

[Post 3104]

Sobre «permilagem»

Desilusão


      Estava aqui a confirmar o quórum constitutivo para uma segunda reunião da assembleia de condóminos, e que descubro ao consultar o Dicionário Houaiss? Pois que este dicionário não regista o termo «permilagem» (‰). E, no entanto, o termo é usado, como sabem, não apenas em referência ao capital nos condomínios, como também na ciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora dá o exemplo da salinidade da água do mar. Os Brasileiros, ao que parece, não usam o conceito. Os dicionários de língua inglesa, pelo contrário, registam permillage, «a rate or proportion per thousand».

[Post 3104]

Como se escreve nos jornais

Lamentável


      «Na carrinha entretanto recuperada (fora furtada no ano passado na zona de Castelo Branco e circulava com diversas matrículas falsas), a GNR veio a encontrar pás e enxadas, algumas peças de vestuário e dois detonadores eléctricos. As pás e as enxadas significam que os suspeitos teriam já escavado um zuro (esconderijo no chão onde colocam recipientes com armamento). Apesar da descoberta dos detonadores, a GNR só veio a comunicá-la à PJ no final da tarde de quinta-feira» («GNR descobriu em Óbidos mais explosivos do que a ETA fez rebentar em 2009», José Bento Amaro, Alexandra Barata e Nuno Ribeiro, Público, 6.2.2010, p. 10).
      Que interesse pode ter para os leitores portugueses saberem que em basco se chama zuro ao esconderijo no chão onde se ocultam recipientes com armamento? Por mim falo: nada. E mais: está errado. A palavra é zulo, que significa «buraco; esconderijo no chão» e, segundo alguns etimologistas, poderá provir do celta silon, «semente; celeiro».

[Post 3103]

Última hora/última da hora

Aperfeiçoamentos


      Cavaco Silva disse, todos ouvimos, «sou uma pessoa de esperança. Tenho esperança até à última da hora», mas a generalidade da imprensa transcreveu desta forma: «Até à última hora tenho esperança». Esta frase é mesmo o título de uma notícia do Público.
      E porque era à Lei das Finanças Regionais que o presidente da República se referia, é interessante ver que o grupo parlamentar do PS pediu hoje a suspensão por 30 minutos da votação global final desta lei, depois de os partidos da oposição terem apresentado três novas propostas ao diploma. A oposição afirmou que eram «aperfeiçoamentos de português, sem efeito de substância». Gostava de ver que aperfeiçoamentos foram esses.

[Post 3102]

As acepções de «bandido»

Ofensas coloquiais


      José Sá Fernandes, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, está a ser julgado por difamação. As testemunhas de defesa alegaram que o «estado de revolta» vivido pelo jurista o terá levado ao uso do termo «bandido» para qualificar o empresário bracarense Domingos Névoa. Lê-se na edição de hoje do Público: «“O meu irmão estava revoltado com a perversão dos factos. Essas declarações reflectiram-se no seu estado de espírito”, defendeu a juíza Paula Sá Fernandes, irmã do vereador na câmara [sic] de Lisboa» («Chamar “bandido” foi reflexo da revolta, diz Sá Fernandes», Samuel Silva, Público, 5.2.2010, p. 27). Até este ponto, a argumentação é exemplar: o termo ofensivo foi proferido num momento de tensão psicológica. O pior é o seguimento desta linha de argumentação, tanto mais que é da autoria de uma magistrada: «A magistrada considera que o uso da expressão “bandido” serviu para “tornar mais coloquial” a opinião do irmão e que a palavra foi usada “no seu sentido naif” para designar alguém que está fora da lei.» «Sentido naif»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista como primeira acepção do vocábulo «bandido» pessoa que pratica actividades ilegais e criminosas. Como segunda acepção, pessoa sem carácter. Se não corresponderem à verdade, qualquer delas é difamatória ou injuriosa.

[Post 3101]

Como se escreve nos jornais

O homem-canhão


      «Houve tempo para agitar metralhadoras e discutir se ela chegou a disparar — não há cartuxos, só dois buracos na parede. O tribunal considerou que o crime não foi premeditado» («Paquistão vai fazer tudo para trazer de volta a “senhora Al-Qaeda”», Sofia Lorena, Público, 5.2.2010, p. 20).
      Felizmente a jornalista não foi contemporânea do Mata-Frades, pois ter-lhe-ia dado ideias perigosíssimas, não sobre como extinguir todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, mas os próprios membros destas instituições religiosas.

[Post 3100]

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