«Leges artis» II

Indóceis criaturas


      Um leitor, R. A., mandou-me a transcrição de uma notícia publicada no Jornal de Notícias: «O juiz salientou, ontem, durante a leitura da sentença que o tribunal lamenta “não pode condenar, mas teria condenado”, uma vez que se provou que as médicas violaram as leis da profissão (leje artis), porque não chegaram à representação da possibilidade de uma gravidez através da leitura da imagem da ecografia, nem verificaram a falsidade da leitura, nem a mandaram repetir, aliás, um exame que, segundo o tribunal apurou, “desapareceu do hospital inexplicavelmente”» («Obstetras absolvidas pese a negligência», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 16.01.2010, p. 27). Acrescenta o leitor: «É caso para dizer que, se o JN transcreve bem o que está na sentença, o tribunal, além de fraco em latim, parece fraco noutras coisas...»
      Bem, a verdade é que a locução latina não surge em nenhum dos trechos identificados como citações. Atribuo, pois, o erro à ignorância da jornalista. Com o português não se entendem muitos deles, quanto mais com o latim.

[Post 3028]

Acordo Ortográfico

Por cima da lei


      Eu também deposito grande esperança no futuro vocabulário ortográfico comum. Tenho é sérias dúvidas que a comissão que o venha a elaborar possa alterar, sem um mandato específico, o que foi consignado no texto do Acordo Ortográfico de 1990. Da nota que se segue de D´Silvas Filho, deduzo que este consultor do Ciberdúvidas pensa o contrário: «Nota: em trocas de impressões com a ilustre consultora de Ciberdúvidas Prof. Dra. Edite Prada sobre este assunto, foi-me sugerido que as inovações contra o texto do Acordo poderiam aparecer como variantes às soluções recomendadas no Acordo de 1990 (ex. meu: cor-de-rosa/cor de rosa). Considero esta ideia uma boa solução, como preparativo para eventuais alterações do Acordo na altura de elaboração do Vocabulário Comum.»
      No limite, dependendo de quem integre a comissão, poderíamos vir a ter um antiacordo. Nesse caso, creio que a língua portuguesa e todos os seus falantes ficavam mais bem servidos se houvesse um novo acordo, mais bem estudado, mais consensual, mais abrangente, menos lacunar.

[Post 3027]

«Por cento», locução

Até isto?


      «Se pensar que uma camisola pesa 250g e que obtemos 5kg de lã, em média, de cada ovelha (onde apenas serão utilizáveis 65 porcento, já que o resto estará demasiado sujo), então obter-se-ão catorze camisolas de lã de uma única ovelha» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 153)
      Trata-se de uma locução; logo, por cento. E a propósito de trata-se de, eis mais um erro crasso nesta tradução: «Infelizmente tratam-se de pedaços que o escopro vai perdendo e o que você vê é um fragmento de metal fundido a voar pelo ar» (p. 157).
      Por outro lado, só alguém com pouca sensibilidade para a língua usa o pronome pessoal você neste contexto. Para quê? Eis três alternativas melhores: «Infelizmente trata-se de pedaços que o escopro vai perdendo e o que se vê é um fragmento de metal fundido a voar pelo ar.» «Infelizmente trata-se de pedaços que o escopro vai perdendo e o que o leitor vê é um fragmento de metal fundido a voar pelo ar.» «Infelizmente trata-se de pedaços que o escopro vai perdendo e o que vemos é um fragmento de metal fundido a voar pelo ar.»

[Post 3026]

Prefixo «super-»

Frio, frio...


      «O que queriam dizer é que o vidro é conhecido como um líquido super arrefecido» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 88). «Ao colocar a sua colher dentro da chávena e mexer, as camadas frias podem ser levadas até ao ponto de ebulição, ou mesmo acima, devido ao súbito contacto com as camadas superaquecidas» (idem, p. 142).
      Para a tradutora e a revisora, a regra parece ser altamente subjectiva, mas provavelmente relacionada com a temperatura... Erradíssimo: o prefixo super- só tem hífen a ligá-lo ao elemento seguinte se este começar por h ou r. Logo, superaquecido e superarrefecido.

[Post 3025]

Beta-carbono/betacarbono

Novamente


      «Esta mostrou que o nitreto de beta-carbono (beta-C3N4) estaria a um nível acima dos restantes» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 160).
      A propósito da grafia beta-aminóide, escrevia aqui o leitor Franco e Silva: «Quanto a alfa-, beta-, gama-, delta-, etc., consideramos a situação diferente: a palavra não representa exactamente um prefixo, mas a transcrição de uma letra grega, justificada pela dificuldade tipográfica de a escrever (e substituindo-a, pois, pelo seu nome, alternativamente). Isto é, pode equivalentemente escrever-se α, β, γ, etc., seguida de hífen e posteriormente qualquer outra palavra (comece por que letra comece, vogal ou consoante) desde que isso seja tipograficamente possível.
      Teríamos, assim, alfa-aminoácido, alfa-lactona, beta-aminóide, beta-caroteno, etc. (ou, alternativamente, β-aminoácido, β-lactona, β-aminóide, β-caroteno, etc. Embora este caso não seja focado no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, nem no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, é-o assim considerado no Aulete Digital.»
      Não é exactamente um prefixo — mas funciona como tal. Veja-se o que regista o Dicionário Houaiss a propósito de alfa-: «[alfa- como prefixo] é a letra inicial do alfabeto grego, como equivalente, numa ordinalidade, a 'primeiro'; quando se faz uso da letra propriamente dita, é ela seguida de hífen; quando, porém, sem rigor terminológico ou por frequência de uso corrente, se usa da palavra com seu significante escrito por extenso, este se aglutina ao elemento verbal seguinte, inclusive com ocorrências de crase ou sinalefa: alfaaglutinação/alfaglutinação;alfa-hemoglobina/alfa-emoglobina/alfemoglobina».
      É por razões gráficas, tão-somente, que se usa hífen se usarmos as letras gregas. Quando se usa a palavra por extenso, aglutinam-se os elementos. É o que eu faço e recomendo, com uma excepção: se o último carácter do primeiro elemento for o mesmo do primeiro carácter do segundo elemento, uso hífen. Neste caso, escreveria betacarbono. É esta também a opção do VOLP da Academia Brasileira de Letras.


[Post 3024]

Repetições

Deselegância


      «O relatório do falecimento do “rei da música pop” conclui assim que a morte de Jackson se deveu a uma “injecção intravenosa” que causou uma “intoxicação por Propofol”, a substância que provocou o ataque cardíaco que Jackson sofreu no dia 25 de Junho, sendo que foi Conrad Murray que deu ao cantor o anestésico referido» («Médico de Jackson vai ser acusado», DN/Global Notícias, 12.1.2010, p. 9).
      «Relatório do falecimento»? Bem, esqueçamos isto. O revisor antibrasileiro, lembram-se?, tinha uma sensibilidade especial para as repetições. Se lesse «sendo que foi Conrad Murray», ficava apopléctico. Pode muito bem ser idiomático, mas também é deselegante e aparvalhado. Sendo que foi, ele que é...

[Post 3023]

Léxico: «sensila»

Do latim científico

      «Os insectos têm um grande número de órgãos olfactivos formados por sensilas, que são pequenos cabelos modificados para sentirem o toque, odor, paladar, calor ou frio. Cada sensila é composta por apenas uma célula sensorial e uma fibra nervosa» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 78).
      É verdade que o Dicionário Houaiss não regista (caro Paulo Araujo...) o vocábulo, mas o modestíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora neste caso portou-se muito bem. Regista-o («órgão dos sentidos de constituição rudimentar, em especial, dos insectos») e ficamos a saber que vem do latim científico (há muitos latins...) sensilla. Não devia estar grafado em itálico.

[Post 3022]

Árctico/Ártico

Já não precisam de emendar


      Não escrevi eu já aqui que é muito raro encontrar correctamente grafados os topónimos Árctico e Antárctico? Nada mudou. Mais um exemplo: «Curiosamente, as pessoas que vivem nas regiões do Ártico, habitat dos ursos polares, dir-lhe-ão que isto é verdade, mas não existem provas» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 58).
      O Acordo Ortográfico de 1990 veio salvar esta gente, pois passará a escrever-se sem a consoante muda: Ártico. Mas o acordo não os irá salvar de todos os disparates.

[Post 3021]

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