Especificador de «milhão»

Vícios de linguagem

      «Partilha [Elinor Ostrom] as 10 milhões de coroas suecas (980 mil euros) com Oliver Williamson» («A primeira mulher Nobel da Economia», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 51). Acontece que «milhão» é um substantivo masculino (ao passo que «mil», por exemplo, é um numeral), pelo que deve ser antecedido de um especificador (artigo definido, artigo indefinido, pronomes, etc.) do género masculino.
      Fiquei a saber, por um texto de apoio («Um prémio ainda polémico») àquele que cito acima, que, afinal, o prémio não tem a designação que lhe é habitualmente dada: «Incorrectamente referido como Nobel da Economia, o galardão foi, na verdade, instituído em 1968 pelo Sveriges Riksbank, o Banco Central da Suécia, e atribuído pela primeira vez no ano seguinte. A confusão resulta da designação oficial — Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel —, mas o prémio é pago com dinheiro público.»

Notas bibliográficas

Há quem leia

      Sinto que se tem por vezes a ideia de que notas bibliográficas, índices e outras partes eventuais de uma obra não são lidas por ninguém. Mas não é assim, e descurar a sua correcção pode ter custos, porque há sempre quem esteja atento: «Contudo, nem sempre deparamos [na obra D. Maria I — A Rainha Louca, de Luísa Paiva Boléo. Lisboa: Esfera dos Livros, 2009] com uma redacção fluente do texto; e as notas bibliográficas têm erros e repetições, por vezes na mesma página» (António Valdemar, Expresso/Actual, 9.10.2009, p. 31). Que sirva de escarmento.

«Governância» II

Está melhor

      «Foi preciso a crise abater-se sobre a economia mundial para que uma mulher, Elinor Ostrom, 76 anos, da Universidade de Bloomington no Indiana, fosse distinguida com o Nobel da Economia. Quarenta e um anos após o surgimento do galardão, os seus estudos sobre a governação económica das empresas valeram-lhe a maior distinção a que um economista pode aspirar» («Primeira mulher a ser galardoada», Diana Ramos, Correio da Manhã, 13.10.2009, p. 21). Isto foi hoje, porque ontem o Correio da Manhã falava em «governança». A edição de hoje do Diário de Notícias também opta por «governação». Contudo, certa imprensa, talvez receosa de que os leitores não dominem a língua portuguesa, usa o termo inglês, governance. Só faltou ter-se usado «governância», como já li.

Léxico: «Xiistão»

E assim até ao infinito

Acabo de rever um texto em que foi usada a palavra «Xiistão». Foi a segunda vez que a li, a primeira tinha sido há quatro anos. Mesmo da primeira vez, aquilo que pretendia significar saltou logo aos meus olhos ― como terá saltado aos olhos da maioria dos leitores. A produtividade (ou criatividade), que é o nome que na linguística se dá à capacidade de interpretarmos ou produzirmos enunciados que nunca antes ouvimos ou lemos, é uma das mais admiráveis propriedades das línguas naturais. «O pressentimento terá alguma substância, pois receia-se o surgimento de uma espécie de “Xiistão” no Sul do país a ombrear com o Curdistão, no Norte — ambas regiões ricas em petróleo» («Constituição iraquiana põe sunitas em pé de guerra», Cadi Fernandes, Diário de Notícias, 30.08.2005).

Sobre «podar»

Julgue quem puder

Tratava-se de traduzir uma frase latina: «Agricola terras arabat, frumentum seminabat, paruas populos secabat.» Alguém propôs que fosse: «O lavrador lavrava, semeava trigo e podava pequenos choupos.» A questão é se o vocábulo podar não se aplica somente a árvores de fruto. À margem da questão, é interessante verificar como do mesmo termo, putare (putō, āre, āuī, ātum), que inicialmente significava somente podar, se formou, na língua latina, uma outra acepção, a de julgar. E como é que isto aconteceu? Pois porque para podar é preciso avaliar, ponderar — julgar — que ramos devem ser cortados (amputados).

Citações e arroba

Sem queixas

«Parece que o Times», escreve Daniel Okrent, «se porta muito bem na rectificação das citações mal feitas. No início de Dezembro, quando [a] expressão “n’é”, de Sylvester Croom, treinador de râguebi do Estado do Mississipi, foi branqueada como inglês padrão [@], surgiu de imediato uma correcção» (O Provedor. Selecção de crónicas, textos, e até algumas retractações do Provedor dos Leitores do New York Times, de Daniel Okrent. Lisboa: Edições 70, 2008, p. 65. Tradução de Victor Silva). Cá, os entrevistados não se podem queixar muito da imprensa: não raramente, os jornalistas limitam-se a transcrever as declarações, deixando ficar erros gramaticais de toda a espécie. Fora de contexto, como muito bem explica Okrent, ficam quase todas as citações. Só uma perguntinha: que faz ali aquela arroba? No sítio do NYT, lê-se isto: «The Times seems to be pretty good about rectifying misquotations; in early December, when Mississippi State football coach Sylvester Croom’s spoken “ain’t” was prettified into standard English, a correction appeared swiftly.»

Actualização em 12.10.2009

Não se incomodem, eu respondo. A explicação da arroba está aqui: «Quando o contexto não fornece informação suficiente (título, data e lugar da publicação), inseri [@] para que o leitor possa localizar facilmente uma versão da referência na Internet, o que significa que o artigo mencionado pode ser encontrado no site www.publicaffairsbooks.com/publiceditor#1» (p. 43).

Sobre «crisma»

Não vejo porquê


      Alguns jornalistas já vão sentindo, o que me parece um manifesto exagero, que devem explicar o que é o crisma: «Curiosamente, noutros marcos importantes da vida religiosa dos crentes, como o baptismo, a primeira comunhão ou o crisma (confirmação do baptismo), a descida não é tão acentuada» («Casamentos católicos caem 62% em apenas uma década», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 13). Curiosamente também, vemos que no Dicionário Houaiss o vocábulo «crisma» é dado como pertencendo aos dois géneros, sem distinguir entre o óleo que serve para administrar (masculino) este sacramento e o próprio sacramento (feminino), como fazem alguns dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, óleo, sacramento e mudança de nome é tudo do género masculino.

Léxico: «business angels»

Uma no cravo…

      «O enquadramento fiscal dos investidores informais em capital de risco, ou business angels, poderá ser incluído já no Orçamento do Estado para 2010, anunciou António Castro Guerra, secretário de Estado-adjunto da Indústria» («‘Business angels’ vão ter regime fiscal específico», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 33). Mais uma locução inglesa bem lançada na imprensa e com a qual vamos ter de viver nos próximos tempos. Desta vez, o jornalista teve o bom senso, que nem sempre nem todos têm, de explicar o que significa em português.
      Por outro lado, vejam: «secretário de Estado-adjunto». No sítio do Governo, lê-se «Secretário de Estado Adjunto». Mesmo no jornal Público, de uma maneira geral pouco propenso a apuros formais, é desta forma que é grafado, em consonância com o recomendado no seu Livro de Estilo, em que se pode ler que director adjunto e ministro adjunto não levam hífen (p. 90), e na página 101, na entrada relativa a cargos, lê-se secretário de Estado adjunto.

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