Léxico da chapelaria

E por falar nisso…


      Na recensão da obra Indignação, de Philip Roth (Lisboa: Dom Quixote, 2009, tradução de Francisco Agarez), escreveu Paulo Nogueira: «Como sempre, Roth é exímio ao facultar o contexto. Na “Pastoral Americana”, ficamos a saber tudo sobre fabricação de luvas (talvez mais do que o necessário). Aqui, quando acabamos o livro, podemos abrir um talho» (Actual, 3.10.2009, p. 34). Isto porque o pai do protagonista, Markus Messner, é talhante kosher. Sou grande apreciador deste tipo de literatura, e, se bem que o contexto não seja dado apenas pelo recurso a um léxico próprio, quero contribuir para que futuras obras forneçam contextos informativos. Hoje divulgo alguns termos ligados à chapelaria. Poucos, mas outros léxicos, como o relativo ao cavalo, começaram assim e actualmente têm mais de mil entradas.
Cardiço m. Espécie de carda pequena, usada pelos sombreireiros para levantar o pêlo aos chapéus.
Castrorrosa f. Máquina da indústria de chapelaria.
Copa f. A parte do chapéu, boné, etc., que cobre directamente a cabeça.
Formilhão m. Instrumento com que os chapeleiros enformam as abas dos chapéus.
Formilho m. Instrumento de chapeleiro, para enformar a boca da copa dos chapéus.
Fulista m. Oficial de chapelaria encarregado de preparar os feltros.
Potança f. Prov. dur. Peça de madeira ou cepo sobre a qual os chapeleiros amaciam e lustram os chapéus de seda.
Propriagem f. Trabalho que os chapeleiros executam nos chapéus depois de tintos.│Oficina onde se preparam os chapéus.
Secretagem f. Operação que consiste na aplicação de químicos, à base de compostos de mercúrio, destinados a realizar transformações específicas no pêlo.
Sombreireiro m. Fabricante ou vendedor de sombreiros ou chapéus.
Suflagem f. Operação em que o pêlo é afastado e soprado dentro de uma máquina, de tal forma que o mais leve passa à operação seguinte e o mais pesado, com impurezas, é retido e rejeitado.

Léxico: «desinscrever»

Sim e sopas


      Um leitor consultou-me para saber o que acho do uso do verbo «desinscrever». Usou-o numa «newsletter», diz (e melhor diria se tivesse dito «boletim informativo»), e um leitor «insurgiu-se», escrevendo que o vocábulo não existia, mesmo com o Acordo Ortográfico de 1990, afirmação que revela bem a dimensão da ignorância do leitor. Será melhor, pergunta, usar «cancelar» em vez daquele verbo? Respondi ao consulente que, embora não esteja dicionarizado, nada impede que se forme o verbo desinscrever, mas que seguisse, ainda assim, o conselho do seu leitor. No final da mensagem do consulente, vinha o desabafo de que, tendo consultado o «Ciberdúvidas, também se fica na mesma, nem sim nem sopas». Só depois de ter respondido ao leitor é que fui consultar o Ciberdúvidas. O consultor F. V. P. da Fonseca escreveu em 2006: «De facto, anular a inscrição é que está bem, embora teoricamente pudesse admitir-se o termo desinscrever-se, que não encontrei em lado nenhum, por ninguém se ter lembrado de inventá-lo.» Eu não encontrei dicionarizado o verbo «desinscrever», mas não afirmei que «anular a inscrição» é que está bem. Na Internet, há milhares de ocorrências da palavra, pelo que já alguém se lembrou de inventá-la. (Afinal, o prefixo des- é o mais produtivo da língua portuguesa.) No sítio da Universidade de Coimbra, por exemplo, leio: «Assim, se um outro utilizador se desinscrever numa das turmas, ou se novas vagas/turmas forem criadas para a disciplina, o utilizador receberá essa informação por email.» Fico a pensar se em 2006 o termo não aparecia de facto «em lado nenhum». A intenção de traduzir numa só palavra o verbo inglês unsubscribe poderá estar na origem do uso relativamente frequente do verbo desinscrever.

Ortografia: «ribossoma»


Dois esses


      «Toda a gente já tomou antibióticos pelo menos uma vez na vida, mas a maioria desconhece o que são os ribosomas» («Chave para antibióticos premiada», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 30). Se a jornalista escreve 13 vezes «ribosoma», convicção não lhe faltará. Com um s apenas, só se for em inglês — ribosome. Ainda que uma cabeleireira mande fazer um toldo, cartões-de-visita e publicidade em que se lê «unisexo», vá que não vá, mas uma jornalista tem de dominar as basezinhas da ortografia.

«Cônsul-geral/consulesa-geral»


Trapalhadas

      «O Consulado Geral de Portugal em Caracas vai premiar trabalhos de investigação sobre o associativismo português na Venezuela, realizados por alunos luso-venezuelanos de Comunicação Social, revelou ontem a cônsul-geral Isabel Brilhante Pedrosa» («Consulado de Caracas apoia associativismo», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 12). Compreendo que a titular do cargo se auto-intitule, em documentos legais, cônsul-geral, mas porque não escreveu o jornalista «consulesa-geral»? Até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, em verbete autónomo, consulesa: «funcionária do ministério dos Negócios Estrangeiros de um país que exerce a sua actividade em país estrangeiro e tem a seu cargo a defesa dos interesses dos seus compatriotas e das boas relações comerciais entre os dois países». (O Dicionário Houaiss, por seu lado, regista «consulesa», mas somente no verbete de «cônsul».) Mais estranho ainda é o jornalista ter grafado, numa discrepância inexplicável, «Consulado Geral» e «cônsul-geral». Apesar de não se colher uma opinião consensual nos dicionários, ou se usa o hífen em ambos os vocábulos ou em nenhum. Prefiro, seguindo o que estabelece o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, cônsul-geral e consulado-geral.

Prefixo re- no novo acordo

Mal pensado


      «Pode também re-endereçar mensagens entre duas contas» («Cem pessoas presas no caso das ‘passwords’», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 50). Temos de tudo: jornais que adoptaram (mais ou menos, como vimos) as regras do Acordo Ortográfico de 1990, jornais que respeitam estas regras apenas numa (!) coluna e jornais que, de vez em quando, escrevem certos vocábulos em conformidade com o acordo.
      É verdade que a alínea b), n.º 1, da Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 não exemplifica com o prefixo re- (e parece que os redactores do texto se esqueceram dele), mas, por analogia com os que ali são referidos, se o segundo elemento começar por e, deverá ser seguido de hífen. É o caso de re-endereçar. O que sucede é que o VOLP não seguiu a regra. Só verbos, vejam quantos sofreriam esta alteração: reedificar, reeditar, reeducar, reeleger, reembolsar, reencarnar, reencontrar, reentrar, reenviar, reerguer, reescalonar, reescrever, reestruturar, reestudar, reexaminar... Mas como regras são regras, o programa FLIP 7, que os computadores da redacção do Record têm instalado, mandam separar por hífen o prefixo re- quando o segundo elemento se inicia com a vogal e.

Ortografia: «açafrão-da-índia»

Isso era dantes


      «São precisas 100 mil flores da espécie Crocus sativus para obter 500 gramas de açafrão. Não admira que esta seja a especiaria mais cara do mundo e que muitos optem por usar um substituto: o açafrão das índias, extraído da raiz de uma planta da família do gengibre» («Especiaria de luxo», Teresa Resende, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 92). Em termos de ortografia, o Expresso e as publicações que o acompanham estão actualmente muito longe dos cuidados de outrora. Ignorando a Crocus sativus, que dizer deste açafrão das índias? Que percebia, neste caso, que grafassem com maiúscula inicial o topónimo. Correcto, contudo, é açafrão-da-índia, tal como açafrão-agreste, açafrão-bastardo, açafrão-bastardo, açafrão-bravo, açafrão-primavera, açafrão da terra, açafrão-de-outono, açafrão-do-campo, açafrão-do-mato, açafrão-palhinha, açafrão-vermelho.

Léxico: «metroviário»

Nova

      «Entrou no sector ferroviário, com a operação da Fertagus, que liga Setúbal a Lisboa, e iniciou-se também no metroviário, com o Metro do Sul do Tejo» («O rei do garrafão», João Palma Ferreira, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 40). Não é palavra que apareça todos os dias. Vem assim fazer companhia a ferroviário, rodoviário e rodoferroviário. O Dicionário Houaiss regista-o: «adj.s.m. (c1985) B relativo a ou o funcionário, agente, empregado do metropolitano (‘sistema de transporte’)».

Nado-morto/nado-vivo

Explicação

      Todos os dias deparamos com incoerências e lacunas nos dicionários. O que explica que nem todos os dicionários registem nado-vivo — se todos registam nado-morto? Há-de ser a explicação para, ao lado de nado-morto, sobretudo em estudos estatísticos, aparecer nado vivo.

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