Uma acepção de «vernáculo»

Vernáculo estrangeiro

      «“A única resposta que dou é parafrasear o dr. Alberto João Jardim na expressão inglesa a propósito de jornalistas — ‘Fuck you!’”. Foi assim que o bastonário Pedro Nunes reagiu ao semanário Expresso por estar a investigar denúncias de alegado favorecimento pela Ordem dos Médicos (OM) ao ateliê [de arquitectura] onde a filha estava a estagiar» («(Des)Ordem nos Médicos», Vera Lúcia Arreigoso, Expresso, 25.09.2009, p. 28). Há pouco mais de uma semana, a imprensa noticiou que o presidente da Câmara de Almeirim, Sousa Gomes (do PS) dirigira à vereadora da CDU, Manuela Cunha, na reunião do executivo, «entre outras frases vernáculas», escrevia o jornalista, «cale-se com essa merda. Fale mas é na merda dos pardais» («“Cale-se com essa m… fale dos pardais”», J. N. P., Correio da Manhã, 18.09.2009, p. 18). A primeira acepção de «vernáculo» que ocorre a um falante com umas tinturas de latim será talvez um sentido figurado: linguagem correcta, sem estrangeirismos na pronúncia, vocabulário ou construções sintácticas. E mesmo que lhe ocorra também a acepção que já vem do étimo, já será menos provável que lhe venha à mente a acepção (popular e jocosa) de linguagem popular, carregada de calão, termos chulos, tanto mais que não é acepção que todos os dicionários registem. Experimentem — têm aí um à mão? — consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois é.

Léxico: «senciente», «senciência»

Registe-se

      «Apoiada no que tem sido feito em países como a Alemanha, a Suíça e a Áustria, a Liga [Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA)] sugere que os animais constassem [sic] no Código Civil como “seres sensíveis e sencientes”. Isto de forma a abranger com maior acuidade aqueles seres que, mais do que sensibilidade, revelam senciência (que, basicamente, consiste na capacidade de sentir emoções como prazer ou sofrimento)» («Tribunal penhorou cão», Sara Felizardo, Sol, 25.09.2009, p. 34). O adjectivo uniforme senciente, esse quase todos os dicionários registam. Vem directamente do latim, língua em que era um particípio presente. Já senciência é um neologismo ainda não dicionarizado entre nós. Contudo, o vocábulo correspondente em inglês, sentience, foi registado pela primeira vez na língua na primeira metade do século XIX.

Ortografia: «árbitro de cadeira»

Nem pensar

      Caro L. M.: costuma ler-se como diz, mas não é grafado com hífen, não: «Os adeptos e o árbitro de cadeira ficaram com dores no pescoço. Os apanha-bolas e os juízes de linha estiveram à beira de adormecer» («Quando o ténis se torna um sofrimento sem fim», Rui Catalão, i, 26.09.2009, p. 70). Já aqui abordámos a grafia de termos relacionados com outras funções no ténis.

«Cão-polícia», «mulher-polícia», «carro-patrulha»

Comprem um dicionário

      Acabei de ler num texto o vocábulo «cão-polícia», o que de imediato me fez lembrar o que lera no livro que tenho aqui citado nos últimos dias, Azul Mar, de Cathy Cassidy (tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009). Ora, que nome damos nós ao agente policial do sexo feminino? Na referida obra, podemos ler: «— Isso não é possível — diz a mulher polícia. — Amanhã» (p. 184). Mas também se lê: «Sentamo-nos no carro patrulha e dirigimo-nos ao hospital» (p. 185).

Uso da vírgula


Tem de ser

      «Quando se cita um documento da Igreja», pergunta-me um leitor, «como Lumen Gentium na sigla abreviada, qual é o mais correcto: LG 31 ou LG, 31?; ou da Redemptoris Missio, RM 1 ou RM, 1?» É claro que é com vírgula, pois este sinal está lá a separar o nome do documento do número da página, como se vê na imagem em cima, pertencente à carta pastoral «Família e Natalidade», de Fevereiro de 1975.

«Collants», «colãs», «meias-calças»

Há alternativas

      «Quanto à nudez [nas cenas de sexo nas filmagens], não é assim tão real. Cuecas cor de pele, toalhas para evitar o contacto e o famoso tapa sexo [sic], inventado pelos brasileiros. “É uma coisa muito simples. Uns colãs de nylon, cortados em forma de cuecas. Depois deixa-se um triângulo e cola-se, com aquela cola de bigodes, à frente e atrás no meio do rabinho. Assim, se estiveres em cima de alguém, os órgãos não estão em contacto directo”, explica São José Correia» («Luzes, câmara, acção e sexo. Os segredos das cenas sensuais no cinema», Vanda Marques, i, 26.09.2009, p. 50). Bem, o aportuguesamento resolve um problema muito frequente: a grafia com erros da palavra original, collants. Mas, mesmo sem aportuguesamento, há quem contorne a questão, usando o termo meias-calças: «Visto a saia de ontem com uma camisola diferente, umas cuecas lavadas e umas meias-calças pretas com uma malha apanhada, que mal se nota, mesmo atrás do joelho» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 13).

«Meia hora»

Não lhes passa

      No jornal, via quase todos os dias «meia-hora» — e emendava. Os jornalistas usam o hífen nas circunstâncias mais inconcebíveis. Alguns tradutores não andam longe de tais abusos (a que juntam a falta de critério): «Estava seco há meia-hora, quando eu desci a rua para ir comprar leite e Smarties» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 41). «A minha cara escalda pela segunda vez em meia hora e levanto os meus olhos sem graça do tampo da mesa e encaro a Analisa» (idem, ibidem, p. 84). «A Mãe esteve fora quase meia-hora e eu estou tão contente por ela ter voltado que me atiro para os braços dela, a tremer» (idem, ibidem, p. 101).

Revisão

Uma amostra

      Azul Mar,
Cathy Cassidy (com tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009). A ficha técnica diz-nos que a revisão foi da responsabilidade dos Serviços Técnicos de Revisão da Livraria Civilização Editora, o que pode significar várias coisas, uma das quais, a mais consentânea com as incongruências que a seguir aponto, entre muitas outras, que não teve revisão.
«— Por que é que não podes? — quer ela saber.» (p. 20)
«— Porque é que estás a ser tão misteriosa? — explode ela. — É suposto seres a minha melhor amiga, só que nunca me contas nada. Só te convidei porque parecias muito em baixo hoje. Queria animar-te.» (p. 21)
«— Porque não?» (p. 22)
«Por que não?» (p. 30)
«— Por que é que a tua mãe deixou o Miguel? — quer saber a Joana. — Ele tem um caso? Ou ela?» (p. 57)
«— Olha, Mar, querida, eu amo-vos a ti e à Luz. Amo a vossa mãe. Ela já fez valer o seu ponto de vista, porque é que não pode simplesmente voltar para casa agora? Porque é que não te dou uma boleia para onde quer que vocês estejam e falo com ela?» (p. 63)
«Por que é que a Mãe não me avisou que isto poderia acontecer? Por que é que ela não me disse o que fazer?» (p. 64)
«— Professora, por que é que não fazemos uma peça? Por que é que não fazemos uma representação de Oliver! para toda a escola ver?» (p. 76)
«— Mais ou menos. — A Mãe olha para dentro da sua chávena de café. — Ouve, Júlia, não é como tu pensas. Ele é um bom homem, na verdade. Porque é que achas que eu fiquei com ele tanto tempo?» (p. 113)
«Por que é que não podemos ter uma televisão, um computador, um telefone?» (p. 120)
«Porque é que as pessoas acham sempre que aos onze anos já somos demasiado crescidos para magias?» (p. 137)
«— Mar, desculpa — diz ela. — A polícia entregou-me esta carta há bocado e quando eu a li… Por que é que não a puseste no correio, Mar, querida?» (p. 194).

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