Léxico: «portcullis»

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É mesmo


      «Será uma história provocadora de bocejos, passada num castelo, onde teremos de nos lembrar da palavra para casa de banho medieval, ou daquela coisa quadriculada que fica por trás da ponte levadiça? Portcullis» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 73). É mesmo, portcullis, a porta corrediça na entrada de um castelo. O étimo deste é o francês porte coleice.

Notas de rodapé

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É melhor não compreenderem


      Mais um insondável princípio editorial: os livros infanto-juvenis não têm notas de rodapé. Mesmo que precisem delas. «A Mãe lembra-se dos cartões de energia e corre a comprar alguns para podermos ter luz, aquecimento e uma refeição quente mais logo» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 44). São os energy prepaid cards. Tal como na África do Sul, na Grã-Bretanha tanto a energia eléctrica como o gás são pré-pagos, sistema concebido na era Thatcher para evitar clientes incumpridores. Até com o fornecimento de água era assim, mas as acções judiciais interpostas pelos cidadãos eram tantas que o sistema acabou por ser abolido. Os jovens leitores vão ficar um tudo-nada perplexos, mas já lhes passará — quando virarem a página.

Algarismos e «rasta»

Ainda pior

      Aos vinte e cinco dias do mês de Setembro de dois mil e nove… Há a falsa crença de que nas actas e nas obras de literatura não se podem usar algarismos. Algarismos, só na numeração das páginas. «Fiz com que a minha mãe me cortasse todas as rastas quando estava no Segundo Ano — ela ainda as tem numa caixa de madeira com as fotografias dela, a sua bijutaria hippie e um bilhete amarelecido do Festival de Glastonbury de há séculos» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 10). Se eu já achava estranho que a maioria dos professores que conheço escreva «2.º Ano», concluo agora que em algumas editoras o discernimento não é maior. Por outro lado, ainda não vejo o vocábulo «rasta» dicionarizado, ao contrário de «rastafári», «rastafarianismo» e «rastafariano».

Actualização em 23.10.2009

      Mas vai sendo usado todos os dias: «Pedro é o mesmo jovem de 17 anos e rastas compridas que na passada sexta-feira teceu duras críticas à política seguida pela ministra da Educação, na presença desta e do Presidente da República» («O jovem que desafiou a ministra da Educação quer um país que tenha as pessoas em conta», Renato Duarte, Público, 22.10.2009, p. 10).

Léxico: «farmácia de oficina»

Desleixo dos jornalistas


      «De acordo com o Infarmed, em 2008 foram registadas 208 alterações de propriedade de farmácias de oficina» («400 farmácias mudaram de proprietário», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 18). Da agência Lusa mandam assim o texto, e nos jornais deixam estar. Nem a generalidade dos jornalistas saberá o que é uma farmácia de oficina, quanto mais o leitor médio. O próprio decreto-lei (n.º 307/2007, de 31.08) que define o regime jurídico das farmácias de oficina não define este conceito. Como escreveu Vital Moreira há já cinco anos no blogue Causa Nossa, «antigamente os medicamentos eram feitos pelos farmacêuticos nas farmácias, verdadeiras oficinas de produção de fármacos. Hoje os medicamentos são fabricados e embalados nos laboratórios farmacêuticos». A maioria dos manipulados (designação que se dá aos medicamentos preparados manualmente, em farmácia ou nos serviços farmacêuticos hospitalares, mediante prescrição médica) é para a área da dermatologia. Vital Moreira concluía que o conceito de farmácia de oficina era arcaico, pertencia ao passado, e só servia «para continuar a legitimar serodiamente a ideia da exclusividade da propriedade das farmácias pelos licenciados em farmácia e a exclusividade da venda de todos os medicamentos, mesmo os de consumo e venda livre (como as aspirinas), em farmácias». Não sei até que ponto o nosso conceito, que subsiste apesar da alteração da lei, não deve algo ao francês pharmacie d’officine.

Léxico: «nível morto»

Preguiça dos jornalistas

      «O volume de água armazenado na albufeira do Roxo (Beja) está perto do nível morto e, se não chover “em breve”, a qualidade da água bruta poderá diminuir, o que irá obrigar a reforçar o tratamento para abastecimento público» («Falta de chuva diminui qualidade», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 21). A notícia continuava, mas sobre o conceito de nível morto, nem uma palavra. O leitor que pesquise. O nível morto de água numa barragem é aquele abaixo do qual a água não é usada para consumo.


Tradução: «support»


Difícil de suportar


      «Os dois foram viver juntos e tiveram uma criança. Marquez reclamava ter deixado o trabalho a pedido do actor de ‘CSI’ (em exibição na SIC), uma vez que este lhe prometera suporte financeiro» («Ex-companheira de Caruso retira queixa», Isabel Faria, Correio da Manhã, 22.09.2009, p. 44). Cara Isabel Faria: a imprensa anglo-saxónica é que fala em financial support, mas convém traduzir bem: apoio (ou sustento) financeiro. Suporte, nesta acepção, é anglicismo semântico que devemos evitar.

Sol/sol

Mais uma pazada


      «Não são jovens arrivistas à procura de um lugar ao Sol» («Aníbal, José e Manuela no país dos inimputáveis», João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 7). Aqui, o nosso colunista confunde Sol com sol, e o revisor não estava lá para corrigir o erro primário. Já devia saber que se escreve com inicial minúscula quando nos referimos à luz que emana do astro Sol, que, este sim, se grafa com inicial maiúscula. Ou o jornalista também escreve «uma pazada de Terra»?

Precursor/percursor

Pequenas confusões


      «O pintor inglês JMW Turner, considerado um percursor do impressionismo, é celebrado pela Tate Britain, em Londres, que exibe a partir de amanhã alguns dos seus quadros ao lado dos mestres europeus que o inspiraram» («Exposição ‘Turner e os Mestres’ em Londres», Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 54). É um erro muito comum, este de confundir percursor com precursor. Precursor é o que precede, o que vai adiante, o que anuncia com antecipação. Percursor, o que percorre, o que faz um percurso. Para quem é dado a confusões, a melhor mnemónica é esta: relacionar o prefixo pre- com um termo que exprima inequivocamente anterioridade, como pré-aviso, por exemplo, que é o aviso prévio, o aviso que foi feito antes. E o precursor é isso mesmo, o que está à frente no anúncio de algo.

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