Concordância

Esmiuçar as faltas

      «Nos estúdios da SIC, Ricardo Araújo Pereira, em tom jocoso, foi avisando. Estava ali para entrevistar o primeiro-ministro José Sócrates, “não para o hostilizar”. Guardava o confronto para “os professores e os enfermeiros”. Mas na primeira entrevista de 11 minutos do ‘Esmiúça os Sufrágios’, ontem à noite na SIC, não faltou perguntas “marotas”» (“Gosto do humor ‘non sense’ deles”», Eugénia Ribeiro, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 43). Na notícia, faltaram os conhecimentos gramaticais. Falta sempre qualquer coisa.

Pontuação


Só um mas alegre

      Para o Correio da Manhã, a Juventude Social-Democrata (e o hífen, rapazes?) só tem um membro — e nem sequer é o presidente: «A versão original é de António Variações, mas a adaptação já vem das Europeias e é da autoria do militante da ‘Jota’, António Padez» («Variações na campanha», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 28). Será que os revisores entendem? Os jornalistas bem sabemos que não.

Léxico: «muar»

Ornejam mas não mordem


      Paulo Portas andou pelo Minho em campanha eleitoral. «Em Ponte de Lima, acompanhado de Daniel Campelo, Portas afirmou: “Só no CDS é que é possível o som de uma campanha ser tão natural e tão perto do trabalho, o muar das vacas”» («Cativar os agricultores», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 26). Até acredito que o líder do CDS tenha dito isso para se mostrar próximo e entendido. A estrita obrigação do repórter, ao transcrever as declarações de Paulo Portas, era corrigir o erro. Sim, o vocábulo existe — mas designa a voz dos equídeos, especialmente do burro. Muar é soltar zurros, azurrar, ornear, ornejar…

Crescente e crescendo

Broken music


      Na colectânea de intervenções de Manuela Ferreira Leite que a Antena 1 passou antes da entrevista que a líder do PSD acabou de dar a Maria Flor Pedroso, apareceu a possível futura primeira-ministra de Portugal a afirmar que o Dr. Alberto João Jardim tem vindo a ter «votações cada vez mais crescentes». Não bastava, ao «bom povo da Madeira», que as votações fossem «crescentes», tinham de ser «cada vez mais crescentes».
      E por falar em crescente. Recentemente, o revisor antibrasileiro chamou-me a atenção para um destaque de uma peça. «Veja: está aqui “em crescimento”, mas habitualmente os jornalistas escrevem “em crescendo”. Em vez de um nome, um verbo!» (E escrevem mesmo: «“Ela tem melhorado muito e tem-no mostrado. Todo o seu jogo foi em crescendo”, concluiu a francesa sobre a vitória de Vesnina.») Bem, nem o étimo era um verbo, pois em italiano também é um substantivo masculino invariável, com o mesmo significado («Graduale intensificazione del suono, passaggio dal piano al forte.»), e isto logo no início do século XIX. Com revisores assim, talvez não precisemos de ser castigados com maus jornalistas.

«Correr atrás do prejuízo» I

Só prejuízo

      Sim, também me divirto (se não é crime). Por exemplo, quando leio a expressão correr atrás do prejuízo, tão do agrado dos jornalistas desportivos: «A equipa do Sporting não está a fazer um bom início de época e mais uma vez sentiu muito a pressão de ter de ganhar, pois está a correr atrás do prejuízo.» João Batista Gomes, na página 52 da sua obra O Humor do Português (Manaus: Linguativa, 2007), não tem dúvidas: «É expressão popular e sem sentido. Por uma questão de bom senso, não se deve “correr atrás de prejuízo”. Deve-se correr atrás de vantagem, atrás de emprego, atrás de mulheres (dependendo do preparo físico).» J. Milton Gonçalves não deixa de a citar na obra Gafes Esportivas (São Paulo: IBRASA, 2006). Para ser brando, só digo que me parece expressão bem estulta.

Prosónimos e «defeso»

At one stroke

      Bem sei que o revisor antibrasileiro estava escaldado por, na véspera, um jornalista ter escrito Capital da Mobília, mas, ainda assim, devia ter reflectido mais quando lhe apareceu Cidade do Lis e ele emendou para cidade do Lis: «O médio, autor do segundo golo, chegou a ser anunciado no defeso, como reforço vitoriano, mas acabou por rumar à cidade do Lis.» (Ah, sim, cada vez que leio, e é todos os dias, «defeso» no âmbito do futebol não deixo de dar uma gargalhada. Para os dicionários e para milhões de falantes, «defeso» ainda é só a época do ano em que é proibido caçar ou pescar.) Os pobres jornalistas vão ficar perplexos: eu a doutriná-los pacientemente na grafia correcta dos prosónimos, este tratante a destratar assim a língua de uma penada inepta.

Jornalismo desportivo

Imaginação, precisa-se


      Ultimamente e com uma insistência quase doentia, um dos modos de dizer mais usados por alguns jornalistas é «ele que». Valha este exemplo (modificado): «O extremo-esquerdo ainda só foi utilizado duas vezes, mas ganhou ritmo ao serviço da selecção uruguaia no duplo confronto de apuramento para o Mundial, ele que na época transacta até brilhou em Inglaterra, frente ao Manchester United, apontando um dos dois golos dos dragões.» E é impressão minha ou antigamente escrevia-se Dragões, Leões e Águias? Agora todos os jornais escrevem estas palavras com minúscula inicial.

Dupla negativa e revisão

Palavra-chave


      Pode ter falhas inconcebíveis (anteontem perguntava-me se grafo elemento-chave com hífen. Que sim, respondi-lhe, acrescentando que podia consultar o dicionário e procurar palavra-chave, talvez a única que os dicionários registam que pode servir de analogia), mas o revisor antibrasileiro é escrupuloso como nunca vi ninguém no que respeita a repetições de palavras e a faltas de concordância. Rever bem exige sempre olhar lá para a frente da frase e, ao mesmo tempo, não nos esquecermos do que ficou para trás. E chamou-me a atenção para a seguinte frase, revista por outro revisor: «Nem mesmo outros elementos que fazem parte do conselho directivo, conselho fiscal e assembleia geral não estão entre os alvos de Bettencourt que pretendia mesmo “acertar nalguns agitadores”.» «Nem de pão não nos fartamos», escreveu Gil Vicente no dealbar do século XVI. Para leitores de um desportivo, alguns semiletrados, pode ser demasiado.

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