Sobre «botellón»


Noitadas e copos

      Depois da movida, era quase inevitável: também o botellón chegou a Portugal. Na imagem, vemos a reprodução de um folheto de divulgação de um megabotellón (incorrectamente escrito porque escrito por estudantes universitários?) em Coimbra. E no dia 11 de Setembro de 2008, lia-se o seguinte título no Jornal de Notícias: «Bares prometem travar “botellón” nos Clérigos». Mas desta vez a notícia vem mesmo de Espanha: «Chamada ao local, uma viatura da polícia foi imediatamente apedrejada por um grupo de jovens que se encontrava no local a participar num ‘botellón’, as populares festas ao ar livre habitualmente regadas com muito álcool» («Noite de violência às portas de Madrid», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 32). «Festas populares»? Botellón é o nome que se dá em Espanha ao costume de jovens, reunidos em grandes grupos, consumirem bebidas alcoólicas na rua.

Disparates na televisão

Burradas

      Na redacção. Várias televisões ligadas. Todas sem som, felizmente. Numa delas, passavam os Jogos Surdolímpicos (ah, nunca tinham lido a palavra… Fiquem também com a correspondente inglesa: Deaflympics), em Taipé. Noutra, o concurso Jogo Duplo, apresentado por esse ícone — ts, ts, ts — cultural que é José Carlos Malato. Em rodapé, uma pergunta: «Um rebanho asinino é composto por: búfalos, carneiros, burros.» Então o colectivo rebanho não designa o grupo numeroso de animais domésticos herbívoros (em especial, gado lanígero) que, em regra, é guardado por um pastor? Bem faz D. Duarte Pio, que não tem televisão em casa, e não há-de ser por isso que não ascenderá ao trono.

Léxico: «leixão»

Explicado

      «Após a queda do leixão da praia Maria Luísa, Albufeira, a 21 de Agosto, que provocou a morte de cinco pessoas, o Ministério do Ambiente ordenou novas inspecções de Norte a Sul [sic] do País» («Litoral em risco», João Tavares, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 20). Leixão, termo que raramente se vê, designa o penedo destacado na costa marítima. Ah, sim, agora já sabem de onde vem o topónimo Leixões.


Léxico: «microempresário»

Não percebo

      «A curto prazo 5190 pequenos e microempresários vão abandonar a actividade e sair do mercado, engrossando as fileiras do desemprego» («5190 empresários saem do mercado», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.09.2009, p. 20). Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se há microempresas, não há microempresários. Mas há microengenharia e microengenheiros. Incoerências. O Dicionário Houaiss, em contrapartida, não apenas regista microempresário, como também o colectivo microempresariado e o adjectivo microempresarial.

Léxico: «financista»

Por aí


      «Uma Thurman não dispensou a pompa para se casar com o financista milionário Arpad Busson», lia-se na página 49 da edição de ontem do Correio da Manhã. Já em Abril o Diário de Notícias assegurara que «a actriz terá dado o nó com o multimilionário». Milionário ou multimilionário, o empresário suíço aparece na imprensa de língua inglesa como financier, que se pode traduzir por «financeiro» ou por «especialista em finanças». E financeiro, já aqui vimos, tanto significa o indivíduo versado em finanças como banqueiro. Financista, finalmente, é a pessoa especialista em finanças. É vocábulo muito pouco usado.

Máster, masterizar, remasterizar

Máster como póster

      Num texto datado de 2001, «Estrutura de Graus do Ensino Superior em Portugal», da autoria de José Novais Barbosa, ex-reitor e professor jubilado da Universidade do Porto, lê-se: «Aceitação da designação de “licenciatura” (embora se preferisse a de “bacharelato”) para o grau obtido no primeiro ciclo de estudos e introdução de um neologismo — que se propõe seja “máster” para não ser confundido com o mestrado — designando o grau obtido no final do segundo ciclo de estudos.» Esta questão está relacionada com a da distinção major/minor,aqui tratada, que se revelou matéria pouco consensual. Entre as acepções do termo aportuguesado (registado, por exemplo, no Dicionário Houaiss) máster não se encontra a do texto citado. E a propósito, lia-se na edição de ontem do Jornal de Negócios: «Beatles re-masterizados e em vídeojogo» (JN/«Investidor Privado», 7.09.2009, p. 2). Claro que é remasterizados que deveriam ter escrito, como se lia no Correio da Manhã: «O catálogo completo de gravações dos Beatles será reeditado em CD a 9 de Setembro, estando as canções remasterizadas digitalmente pela primeira vez.» O Dicionário Houaiss regista masterizar, masterização e remasterização.

Natural de Trindade e Tobago


Imagem: http://coastalcruzn.files.wordpress.com/


Feio como um trombone


      Na redacção: «Trindade e Tobago. Já há muito tempo que não aparecia. Como se chamam os naturais?» Silêncio de largos segundos. «Trinitários.» Pois é… e Tobago? O Dicionário Houaiss regista Trinitário-Tobagense. Já sabemos que Tobago é corruptela, mas veja-se o que acontece com Pompeia. É bem escusado tentarmos impor a forma Pompeios. Ninguém leva a sério (mas sim: a ignorância é risonha). No romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, o narrador, João, viúvo e reformado, anota: «Olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia mas de Estábias que fica logo a seguir e ao sul. Ou talvez não de Pompeia mas de Pompeios que é um nome feio como um trombone (trombone?)»

Cara a cara/cara-a-cara

Acho eu

      «Já dentro da papelaria, e cara-a-cara com o funcionário da Esegur, a dupla efectuou mais um disparo» («Invadem papelaria a tiro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.09.2009, p. 1). Sendo locução adverbial de modo, escreve-se cara a cara, tal como frente a frente, ao passo que os respectivos substantivos se grafam cara-a-cara e frente-a-frente.aqui vimos a diferença. Se no primeiro semestre deste ano o Correio da Manhã é o diário generalista com mais vendas, com 115 094 exemplares vendidos diariamente, todos — jornalistas, editores e revisores — deviam ter ainda mais cuidado com a forma como escrevem.

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