O género de «síndrome»

Ainda não

«Associada a esta doença o Síndrome de Coats nos olhos do Dinis, uma patologia progressiva, que pode levar à cegueira e, em estágio final, à extracção do olho» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). Ao fim de vários anos a divulgar-se, a propósito da sida, o género e a ortografia correctos do vocábulo, ainda há jornalistas e revisores a darem-no como masculino. Não é.

Nome de doenças

E desta vez é pior


      «O Dinis tem dezoito meses e, apesar da curta experiência de vida, a sua história é rara. O diagnóstico de Leucoencefalopatia, Calcificações e Quistos Cerebrais chegou há poucos meses e com ele muitas inquietações quanto ao futuro» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). A jornalista não sabe, mas o revisor tem obrigação de saber que os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc. Já o tinha lembrado aqui.

Sobre «abalroar»

Mas é correcto


      A notícia começa por referir que «o condutor do camião que embateu violentamente contra um carro-patrulha da GNR colhendo dois militares, ontem, às 15h30, na Via do Infante (A22)» se justificou com o rebentamento de um pneu, mas o título é: «Militares abalroados por camionista bêbedo» (João Mira Godinho, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 8). «Os GNR», repare-se, «estavam entre os dois carros quando o camião abalroou o carro-patrulha, que depois os atingiu.» Afinal, o carro-patrulha é que foi abalroado, e não os militares — ou foi as duas coisas? O termo, como se sabe, provém da marinha, mas por extensão significa ir de encontro a, bater, chocar(-se); ir na direcção de (algo), com ímpeto. Foi, então, usado com propriedade no título, mas não é habitual usar-se quando o obstáculo são pessoas. Sobre o mesmo facto, o título do Jornal de Notícias é «Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22» (G. P./A. R. J., 26.08.2009, p. 17).


Congénere e homólogo

Falsas convicções

      Dizia, ontem, aquele revisor que está farto de avisar as meninas do andar de cima que não devem confundir «congénere» com «homólogo». Em vão, lamentou-se. Se, exemplificava, o texto fala de ministros, o termo correcto era «homólogo» e não «congénere». Ora, o Dicionário Houaiss regista como exemplo de uso do termo «congénere»: «O ministro encontrou-se com seus congéneres em Paris.» Já o adjectivo «homólogo», para o mesmo dicionário, é o que mantém com outro elemento similar uma relação de correspondência que pode ser de localização, de forma, de função, etc. Pelo que vejo, «homólogo» é mais utilizado para pessoas, ao passo que «congénere» é mais usado com instituições. Não se pode é dizer mais do que isto. «O presidente sul-africano, Jacob Zuma, eleito em Maio, escolheu Angola como o primeiro destino para uma visita oficial e ouviu o seu homólogo angolano afirmar o desejo de “intensificar as relações” entre os dois países» («Angola e África do Sul estreitam relações», A Bola, 20.08.2009). «A Selecção portuguesa de andebol de sub-21 venceu, esta segunda-feira, a sua congénere espanhola por 28-24, conquistando o sétimo lugar entre 24 equipas no Mundial que termina quarta-feira, no Cairo» («Mundial de Juniores: Portugal termina em sétimo com vitória no duelo ibérico», A Bola, 17.08.2009).

Actualização em 15.09.09


      Cá está de novo o uso reprovado pelo revisor antibrasileiro: «O ministro da Agricultura, Jaime Silva, e a sua congénere holandesa, Gerder Verburg, posam para os repórteres fotográficos depois de plantarem uma árvore no decorrer de uma visita a uma exploração florestal nos arredores de Vaxjo, na Suécia» («Jaime Silva planta árvores no ‘bosque da UE», Diário de Notícias/«DN Bolsa», 15.09.2009, p. 37).

Actualização em 10.1.2010

      «O salário dos clínicos cubanos é um mistério. O Ministério da Saúde diz que ganham “sensivelmente” o mesmo que os seus congéneres portugueses. Mas dessa fatia a maior parte vai para o Governo de Havana. Inicialmente, os médicos ficavam com 300 euros. Agora ganharão 500. A embaixada de Cuba diz que nada pode dizer sobre o assunto» («Salários dos clínicos cubanos são um mistério», Público, 10.1.2010, p. 1).

Léxico: «oeste-europeu»

Ponte do Rei Alberto (© NguyenDai)

O caso da Bélgica


      Recentemente, referi aqui a tradução de Mittel-Europeans. Hoje não é de tradução que se trata, mas da abonação de um gentílico que nunca antes vi. «Choveram críticas na imprensa do reino oeste-europeu» («Companhia portuguesa vai dar asas ao rei belga», revista Domingo/Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 23).

Topónimos no novo acordo

O caso de Custóias

Os outros revisores ainda não sabiam (!), e até negaram, que os topónimos também vão sofrer alterações com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente, não eram os mesmos (somos cinco) do caso de Tróia. Desta vez, era Custóias que estava em causa. Trata-se do mesmo: é eliminado, tanto em nomes comuns como em topónimos, o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc.

Sentidos figurados e sinonímia

Alto aí!

«Emprestado pelo Manchester United com o prisma de jogar com mais regularidade, Possebon já percebeu que as suas intenções saíram goradas», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase (que semelhante disparate), que revela um conhecimento deficiente da língua, passasse para o jornal. Sim, julgo saber o motivo. Em sentido figurado, prisma é o modo particular de ver ou considerar algo ou alguém, o ponto de vista, a perspectiva, digamos. E como um dos sentidos figurados de «perspectiva» é o de ponto de vista, o jornalista usou o vocábulo. Só que tal operação, porque estão em causa acepções secundárias dos vocábulos, redundaria quase sempre, como facilmente se imagina, em frases absurdas.

Ortografia: «bola-de-berlim»

Essa é boa!

O Correio da Manhã tem uma rubrica estival, «O Verão de...», assinada pela jornalista Dora Costa, e nela ora se lê «bola de Berlim» ora «bola-de-berlim». Como eu não acredito que a jornalista nas terças-feiras, quintas e sábados escreva de uma forma, e nos restantes dias de outra, só posso atribuir a incoerência aos revisores. E, como acontece noutros jornais, não comunicam entre eles — nem lêem o jornal. A quem escreve bola de Berlim, matéria já aqui abordada, só pergunto se também escreve couve de Bruxelas.

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