Títulos na imprensa

Sem título


      No Manual de Redação e Estilo de O Globo, lê-se que o título «é o anúncio da notícia e, como tal, é proibido prometer mais do que a matéria realmente contém». Ora, como sabemos, é pecha comum a muitos jornais o título não ser confirmado no corpo da notícia. Muitas vezes, antes pelo contrário, estão mesmo em contradição. Na página 15 da edição de ontem do Correio da Manhã, lia-se este título: «Supremo decide que planear morte é crime». Tendo em conta que planear pode ser um facto meramente mental, e, logo, insindicável, poucos leitores se terão assustado ao ler o título. Pelo excerto de um acórdão (n.º 11/2009 de 18.06.2009) para fixação de jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça que é citado na notícia, conclui-se que, afinal, planear morte não é crime: «Na decisão agora proferida, o Supremo considera então que é “autor de crime de homicídio na forma tentada quem decide e planeia a morte de uma pessoa, contratando outrem para a sua concretização (…), mediante pagamento de determinada quantia”» (Tânia Laranjo e Manuela Teixeira, 19.08.2009, p. 15). Se já é estranho que planear contratando seja crime (e o juiz-conselheiro Souto Moura, ex-PGR, é citado no artigo: «Não é essa a lei que temos. […] Há uma lacuna grave de punibilidade.») quanto mais planear a morte de alguém.

Tradução: «momentum»

Tira-teimas


      «In 2001 the scare began to gain momentum», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Em 2001, o alarmismo começou a ganhar força.» Só no Público é que a jornalista Rita Siza continua a usar o termo inglês «momentum» como se não houvesse equivalente em português: «Num esforço para manter o momentum no debate, o Presidente Barack Obama esteve ontem em Raleigh, na Carolina do Norte, para uma sessão de esclarecimento sobre a reforma [do sistema de saúde]» («Democratas chegam a acordo na reforma da saúde», Rita Siza, Público, 30.07.2009, p. 194). Experimentem ir ali ao Café Limiano e peçam aos clientes que decifrem a frase. Se o conseguirem, calo-me para sempre.

Dupla grafia

Andar às aranhas

      Ontem, os outros dois revisores estranhavam (e eu estranhei que estranhassem, pois nunca falam de questões ligadas com a língua) que no âmbito do novo acordo ortográfico se deva (deve?) escrever «veredicto» e «perfeccionista». Ou seja, estranhavam que não percam o c. A última nunca ali tinha sido discutida, mas «veredicto» aparece todos os dias e todos os dias jornalistas e editores perguntam, estranhando, se leva mesmo c. São convicções formadas a partir das fontes que se consultam. Tanto num caso como no outro, estamos perante duplas grafias. Sendo o critério da pronúncia o que determina a supressão gráfica das consoantes mudas e também o que leva a que o Acordo Ortográfico de 1990 tenha mantido um certo número de grafias duplas (embora os dicionários que adoptaram as novas regras ortográficas nem sempre as registem), é necessário reflectir mais ponderadamente nas opções por que se está a enveredar. A meu ver, falta concretizar esta precaução constante do texto do acordo: «Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia.» Creio, contudo, que nunca veremos esta informação nos dicionários.

Sinais gráficos

Sim, mas outros

      A vários títulos, a última crónica de Rui Tavares no Público («Bom! Bonito! Barato!», 17.08.2009, p. 40, disponível também no blogue do autor) interessou-me muito. Eis o último parágrafo do texto: «Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais. Eu por mim inventaria mais quatro ou cinco: para a falsa exclamação, para a pergunta interrompida, para a dúvida afirmativa, para a frase incompleta.» Concordo: também acho que faltam sinais gráficos. Contudo, talvez alguns daqueles que o cronista propõe existam de facto. Que acha o leitor?

«Dever de» e «dever»

Em boa companhia

      Cara Sofia: não é só na obra de António Vieira que encontramos a construção deve de + infinitivo. Encontramo-la na obra de Luís de Camões, Fr. Amador Arrais, Camilo e noutros grandes escritores. Cada época, é sabido, vai rejeitando o que antes era considerado correcto. Vasco Botelho de Amaral não condenou a construção. José Neves Henriques, porventura o mais ponderado consultor que alguma vez passou pelo Ciberdúvidas, afirmou que ambas as locuções verbais são inteiramente correctas. «O que acontece», acrescentou, «é que o emprego da preposição de está um pouco em desuso, o que leva muita gente a duvidar da correcção de dever de + infinito.» E também escreveu: «Como a construção deve de + infinitivo é mais complexa, talvez os não muito sabedores da Língua Portuguesa a julguem mais própria de quem é culto.» Ou mesmo os muito sabedores, digo eu, a considerem errada.

Léxico: «factóide»

Chame-lhe o que quiser

Outro vocábulo que não está registado em todos os dicionários gerais da língua é «factóide». Ainda assim, esta não é razão para a frase que se segue ter sido traduzida como o foi. «Many in the court process seemed to share this view, and the factoid certainly sticks in the mind.» «Muitos no processo judicial pareciam partilhar desta opinião, e o mastóide fica, sem dúvida, na lembrança.» Claro que encontro, como o leitor, uma razão para o tradutor ter escrito «mastóide» em vez de «factóide»: não encontrou o termo no dicionário (ou dicionários) que consultou, foi pesquisar por semelhantes e surgiu «mastóide», que é, como substantivo, a apófise da base do crânio formada no osso temporal. E depois esqueceu-se de levar a tarefa até ao fim: escrever, por analogia, «factóide». Não se fazem omeletas sem ovos. Factóide vem do inglês e designa a informação falsa ou não comprovada que se aceita como verdadeira em consequência da sua repetida divulgação pela imprensa. Na área da ciência, há muito disto na imprensa.

Livro de Estilo

Era bom

Sem terem um Livro de Estilo, que eu acho essencial em qualquer publicação, e mais ainda naquelas em que há mais do que um revisor, «costumam» grafar alguns vocábulos de uma maneira peculiar. «Aqui escrevemos “alvi-negro” e “auri-negro”.» Ontem, contudo, estavam a discutir a correcção daquelas grafias. «Não tinhas já mandado um e-mail ao José Mário Costa sobre isto?» Um ainda fez menção de consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (edição de 2003) da Porto Editora. «Não está aí nada.» Adiaram a solução — a solução do erro. É claro que é aurinegro, como é auriazul, auriverde, etc., como também é claro que é alvinegro, como é alvirrubro, alviverde, etc. Sem Livro de Estilo, de que tanto precisam um jornal recente como um com mais de sessenta anos, bem concebido e pensado, hoje escreve-se assim e amanhã escrever-se-á assado. Há quem revele o que faria se chegasse a presidente do governo mundial. Eu, mais modestamente, digo que, se fosse chefe da secção de revisão de uma qualquer publicação (ou director desta), a primeira tarefa dos revisores era lerem em conjunto e discutirem as opções da véspera. A primeira medida, porém, seria transferir para tarefas mais consentâneas com as suas competências quem é revisor sem ter qualificações mínimas para tal.

Tradução: «publication bias»

De esguelha

      Como tem sido traduzida a expressão inglesa publication bias? E, primeiro, o que é? Embora esteja mais desenvolvida aqui a definição, mais resumidamente é «a tendency on average to produce results that appear significant, because negative or near neutral results are almost never published», conforme se pode ler aqui. É o problema que resulta do facto de se publicarem estudos científicos que não apresentam resultados negativos, o que faz que o efeito das intervenções possa ser sobrestimado. A tradução já consagrada entre nós é viés de publicação, e não deve haver estudante de Medicina que a não conheça. Se uma das traduções de bias é «viés, esguelha, direcção oblíqua», também é, e adequa-se melhor ao conceito, «parcialidade». Estas traduções enviesadas abundam no mundo da ciência, e não podemos fazer muito para as contrariar.

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