Léxico: «sinecismo» e «sinoicismo»

Oikos, lar


      Tem razão, caro Luís M.: a variante sinoicismo nem sequer está registada em todos os dicionários. Do grego συνοικισμóς, porém, tanto se forma sinoicismo como sinecismo (designação que se dá à união de várias aldeias numa pólis na antiga Grécia). E se esta última é mais usada, a primeira também se vê, e com a vantagem de mais claramente se distinguir nela oikos: «Se e quando se terá dado o sinoicismo dos vários lugares, ou se podemos tornar a falar da fundação da cidade de Roma por Rómulo, se na verdade se sucederam sete reis ou mais, são questões ainda em aberto» (Estudos de História da Cultura Clássica, II, Maria Helena da Rocha Pereira. 4.ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, p. 21). O Dicionário Houaiss, para minha grande surpresa, não regista nem «sinecismo» nem «sinoicismo». A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, contudo, regista «sinecismo», tal como o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.

Capitular e render-se (II)


De qualquer maneira


      Para a elaboração desta banda desenhada, o autor, Nuno Costa, teve de recorrer, naturalmente, à consulta de fontes. No caso, embora mal indicada, por incompleta, As Grandes Batalhas. Ainda assim, o título diz «A capitulação do Japão» e no texto lê-se: «A 15 de Agosto, o Japão finalmente rendeu-se.» Capitulou, rendeu-se, o falante médio julga que é indiferente.


Léxico: «nanobote»

O futuro chegou


      Nem nanobô nem nanorrobô: vai-se preferindo nanobote: «No futuro, [André Roque, que, com 7 anos, já deu 15 palestras sobre o Universo] quer ser cientista e neurocirurgião para criar nanobotes (pequenos robôs) e levá-los até Marte para explorar a atmosfera do planeta vermelho [sic]» («Criança de 7 anos dá ‘aulas’ de Ciências», Urânia Cardoso, Correio da Manhã, 2.08.2009, p. 21). Prefiro a forma «nanorrobô», por ser mais sugestiva.

Grau dos adjectivos

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Erradíssimo


      «Ainda a gravar o filme Uma Aventura na Casa Assombrada, de Carlos Coelho da Silva, as loiríssimas Margarida e Mariana Martinho já pensam nas férias de Verão» («Depois do filme, chega a hora dos mergulhos!», Vânia Custódio, 24 Horas, 31.07.2009, p. 24). Mas o sufixo -íssimo não se usa para formar (juntamente com outros sufixos, como -bilíssimo, -císsimo ou -níssimo, por exemplo) o superlativo absoluto sintético dos adjectivos? Acontece que, pelo menos aos meus olhos, as gémeas Margarida e Mariana Martinho não são tão loiras que se possam dizer loiríssimas. Ainda se fosse uma qualidade subjectiva (como em «Alberto João Jardim é espertíssimo»), não tinha, sem as conhecer, como contradizer. Que diria a jornalista de uma sueca com o cabelo de um louro quase branco? Albina? De cor indefinida? Mais precisão, se faz favor.

Léxico: «suta»

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Para medir


      Que nome tem o instrumento que se vê na imagem? Está graduado em centímetros e serve para medir o diâmetro das árvores, troncos e madeira torada. É isso mesmo — suta. O pior é que a generalidade dos dicionários apenas apresenta duas acepções do termo, e em nenhuma se encaixa o instrumento acima: esquadro, de peças móveis, para traçar e medir ângulos, e instrumento que serve para marcar ângulos no terreno. O mesmo se passa, já que falámos de árvores, com o hipsómetro, que serve para medir a altura de objectos (torres, edifícios, árvores, etc.). Se estivesse assim definido nos dicionários (nem no Houaiss está tão claramente), qualquer pessoa compreenderia. Mas vejam a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «hipsómetro METEOROLOGIA instrumento destinado a medir a altitude de um lugar pela temperatura a que nele pode começar a ebulição da água.» Qualquer telefonista do Ministério da Agricultura conhece aquela aplicação da suta, pelo que o Departamento de Dicionários da Porto Editora tem de estar mais atento.
      Já que falam nisso: não, no nome do novel (como diria um plumitivo dos anos 60) grupo Virgem Suta, «suta» significa outra coisa. Em Beja (é um localismo, não um regionalismo alentejano), significa «excesso».

Léxico: «blogconf»

Esvaecido

      «Está explicado o “apagão” da conferência blogger (blogconf) com José Sócrates, segunda-feira. Da parte do PS, ficou a dever-se a uma falha na “recolha de imagem” para a emissão, disse ao PÚBLICO Jorge Seguro, um dos organizadores da blogconf, em que o líder socialista respondeu a 20 bloggers e twitterers» («PS explica “apagão” na blogconf com falha técnica», N. S., Público, 29.07.2009, p. 6). Blogconf ou blogoconferência — conferência de bloggers —, como também se lê por aí, são ambos amálgamas. Como termo associado a uma tecnologia e a uma terminada plataforma, terá tanta vida como a própria tecnologia, ou seja, extinguir-se-á muito mais depressa que os daguerreótipos.


Fita de sinalização de segurança


Para assinalar


      «Segundo as informações prestadas pela Interamianto, empresa que executou o trabalho, à Inspecção, o amianto só foi retirado três dias após a operação de remoção, alegando que os resíduos estavam numa zona delimitada por fita de sinalização de segurança e por grades de protecção, no interior do estaleiro» («Inspecção do Ambiente investiga resíduos de amianto na via pública junto às obras da CRIL», Ana Rita Faria, Público, 29.07.2009, p. 22). É bom saber o nome de tudo. Esta fita, com 7 centímetros de largura, é de polietileno, o que me traz à memória que em certo jornal os jornalistas raramente atinam com a ortografia de poliuretano. Sai quase invariável e dislexicamente *poliuterano. E como está na ordem do dia a intenção de a Federação Internacional de Natação proibir os fatos de banho totalmente de poliuretano, não faltam oportunidades de errarem. A primeira é formada por poli + etileno; a segunda, por poli + uretano. O elemento de composição poli- vem do grego e significa «vários, numerosos» e caracteriza o que designa o segundo elemento. No caso de poliuretano, o segundo elemento, uretano, designa um composto químico e é formado por ureia+éter+ano.

Sobre adjectivos e «extrabula»

No entanto, há

      E a propósito: medicamentos extrabula ou medicamentos extrabulas? Algumas gramáticas escolares afirmam que todos os adjectivos variam em número e grau, mas alguns são invariáveis em género. Não é verdade. Há, por muito controversa que possa ser a sua existência, adjectivos invariáveis em número. E, no pouco uso que temos deste adjectivo, extrabula parece enquadrar-se na categoria. Não nos esqueçamos de que, nos adjectivos compostos por justaposição, quando o último elemento é um nome, permanecem ambos invariáveis: cavalo puro-sangue/cavalos puro-sangue. Também em relação à flexão dos adjectivos compostos designativos de cores, se um deles for um substantivo, nenhum elemento varia — vestidos amarelo-canário; saias verde-mar; blusas azul-petróleo; chapéus verde-alface; paredes azul-turquesa; papéis branco-marfim… —, mesmo que só surja o nome do animal ou coisa: calções rosa, sofás marfim.      Embora eu não concorde em relação a todos*, e não estou só, alguns outros adjectivos, que não meramente os relativos às cores, são classificados como invariáveis, como extra, extrabarreiras, ultravioleta…infravermelho, por exemplo, admite feminino e plural. Para quem defende estas excepções, a argumentação usada é a seguinte: infravermelho varia porque o adjectivo «vermelho» varia sempre: cartão vermelho/cartões vermelhos; saia vermelha/saias vermelhas. Logo, raio infravermelho/raios infravermelhos. Em relação a ultravioleta, já é, propugnam, diferente: como substantivo adjectivado, «violeta» também não varia: batôn violeta/batôns violeta; blusa violeta/blusas violeta. Logo, para os defensores desta opinião, raio ultravioleta/raios ultravioleta. E, finalmente, quando se indica a cor com a expressão cor de, expressa ou subentendida, também não se faz a flexão do qualificador: paredes (cor de) gelo, camisas (cor de) creme, saias (cor de) vinho, sapatos (cor de) violeta.


      * O que eu e outros dizemos é que extra é a forma reduzida do adjectivo «extraordinário» (e já abordei aqui várias vezes as formas reduzidas de nomes, como metro, porno…), e por isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjectivo. Nesse caso, a sua flexão é normal, como a de qualquer outro adjectivo: «hora extra», «horas extras». É o que, consciente ou inconscientemente, leva, com o meu aplauso, alguns jornalistas a flexionarem o vocábulo: «Ministro proíbe gastos extras às direcções dos hospitais» (Público, 20.08.2006, p. 26). «Os gastos extras, para saídas, por exemplo, avaliam-se um a um, para que se aprenda a dar valor ao dinheiro e à poupança» («Crise não afecta famílias habituadas a poupar muito», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 18).

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