Léxico: «nanobote»

O futuro chegou


      Nem nanobô nem nanorrobô: vai-se preferindo nanobote: «No futuro, [André Roque, que, com 7 anos, já deu 15 palestras sobre o Universo] quer ser cientista e neurocirurgião para criar nanobotes (pequenos robôs) e levá-los até Marte para explorar a atmosfera do planeta vermelho [sic]» («Criança de 7 anos dá ‘aulas’ de Ciências», Urânia Cardoso, Correio da Manhã, 2.08.2009, p. 21). Prefiro a forma «nanorrobô», por ser mais sugestiva.

Grau dos adjectivos

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Erradíssimo


      «Ainda a gravar o filme Uma Aventura na Casa Assombrada, de Carlos Coelho da Silva, as loiríssimas Margarida e Mariana Martinho já pensam nas férias de Verão» («Depois do filme, chega a hora dos mergulhos!», Vânia Custódio, 24 Horas, 31.07.2009, p. 24). Mas o sufixo -íssimo não se usa para formar (juntamente com outros sufixos, como -bilíssimo, -císsimo ou -níssimo, por exemplo) o superlativo absoluto sintético dos adjectivos? Acontece que, pelo menos aos meus olhos, as gémeas Margarida e Mariana Martinho não são tão loiras que se possam dizer loiríssimas. Ainda se fosse uma qualidade subjectiva (como em «Alberto João Jardim é espertíssimo»), não tinha, sem as conhecer, como contradizer. Que diria a jornalista de uma sueca com o cabelo de um louro quase branco? Albina? De cor indefinida? Mais precisão, se faz favor.

Léxico: «suta»

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Para medir


      Que nome tem o instrumento que se vê na imagem? Está graduado em centímetros e serve para medir o diâmetro das árvores, troncos e madeira torada. É isso mesmo — suta. O pior é que a generalidade dos dicionários apenas apresenta duas acepções do termo, e em nenhuma se encaixa o instrumento acima: esquadro, de peças móveis, para traçar e medir ângulos, e instrumento que serve para marcar ângulos no terreno. O mesmo se passa, já que falámos de árvores, com o hipsómetro, que serve para medir a altura de objectos (torres, edifícios, árvores, etc.). Se estivesse assim definido nos dicionários (nem no Houaiss está tão claramente), qualquer pessoa compreenderia. Mas vejam a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «hipsómetro METEOROLOGIA instrumento destinado a medir a altitude de um lugar pela temperatura a que nele pode começar a ebulição da água.» Qualquer telefonista do Ministério da Agricultura conhece aquela aplicação da suta, pelo que o Departamento de Dicionários da Porto Editora tem de estar mais atento.
      Já que falam nisso: não, no nome do novel (como diria um plumitivo dos anos 60) grupo Virgem Suta, «suta» significa outra coisa. Em Beja (é um localismo, não um regionalismo alentejano), significa «excesso».

Léxico: «blogconf»

Esvaecido

      «Está explicado o “apagão” da conferência blogger (blogconf) com José Sócrates, segunda-feira. Da parte do PS, ficou a dever-se a uma falha na “recolha de imagem” para a emissão, disse ao PÚBLICO Jorge Seguro, um dos organizadores da blogconf, em que o líder socialista respondeu a 20 bloggers e twitterers» («PS explica “apagão” na blogconf com falha técnica», N. S., Público, 29.07.2009, p. 6). Blogconf ou blogoconferência — conferência de bloggers —, como também se lê por aí, são ambos amálgamas. Como termo associado a uma tecnologia e a uma terminada plataforma, terá tanta vida como a própria tecnologia, ou seja, extinguir-se-á muito mais depressa que os daguerreótipos.


Fita de sinalização de segurança


Para assinalar


      «Segundo as informações prestadas pela Interamianto, empresa que executou o trabalho, à Inspecção, o amianto só foi retirado três dias após a operação de remoção, alegando que os resíduos estavam numa zona delimitada por fita de sinalização de segurança e por grades de protecção, no interior do estaleiro» («Inspecção do Ambiente investiga resíduos de amianto na via pública junto às obras da CRIL», Ana Rita Faria, Público, 29.07.2009, p. 22). É bom saber o nome de tudo. Esta fita, com 7 centímetros de largura, é de polietileno, o que me traz à memória que em certo jornal os jornalistas raramente atinam com a ortografia de poliuretano. Sai quase invariável e dislexicamente *poliuterano. E como está na ordem do dia a intenção de a Federação Internacional de Natação proibir os fatos de banho totalmente de poliuretano, não faltam oportunidades de errarem. A primeira é formada por poli + etileno; a segunda, por poli + uretano. O elemento de composição poli- vem do grego e significa «vários, numerosos» e caracteriza o que designa o segundo elemento. No caso de poliuretano, o segundo elemento, uretano, designa um composto químico e é formado por ureia+éter+ano.

Sobre adjectivos e «extrabula»

No entanto, há

      E a propósito: medicamentos extrabula ou medicamentos extrabulas? Algumas gramáticas escolares afirmam que todos os adjectivos variam em número e grau, mas alguns são invariáveis em género. Não é verdade. Há, por muito controversa que possa ser a sua existência, adjectivos invariáveis em número. E, no pouco uso que temos deste adjectivo, extrabula parece enquadrar-se na categoria. Não nos esqueçamos de que, nos adjectivos compostos por justaposição, quando o último elemento é um nome, permanecem ambos invariáveis: cavalo puro-sangue/cavalos puro-sangue. Também em relação à flexão dos adjectivos compostos designativos de cores, se um deles for um substantivo, nenhum elemento varia — vestidos amarelo-canário; saias verde-mar; blusas azul-petróleo; chapéus verde-alface; paredes azul-turquesa; papéis branco-marfim… —, mesmo que só surja o nome do animal ou coisa: calções rosa, sofás marfim.      Embora eu não concorde em relação a todos*, e não estou só, alguns outros adjectivos, que não meramente os relativos às cores, são classificados como invariáveis, como extra, extrabarreiras, ultravioleta…infravermelho, por exemplo, admite feminino e plural. Para quem defende estas excepções, a argumentação usada é a seguinte: infravermelho varia porque o adjectivo «vermelho» varia sempre: cartão vermelho/cartões vermelhos; saia vermelha/saias vermelhas. Logo, raio infravermelho/raios infravermelhos. Em relação a ultravioleta, já é, propugnam, diferente: como substantivo adjectivado, «violeta» também não varia: batôn violeta/batôns violeta; blusa violeta/blusas violeta. Logo, para os defensores desta opinião, raio ultravioleta/raios ultravioleta. E, finalmente, quando se indica a cor com a expressão cor de, expressa ou subentendida, também não se faz a flexão do qualificador: paredes (cor de) gelo, camisas (cor de) creme, saias (cor de) vinho, sapatos (cor de) violeta.


      * O que eu e outros dizemos é que extra é a forma reduzida do adjectivo «extraordinário» (e já abordei aqui várias vezes as formas reduzidas de nomes, como metro, porno…), e por isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjectivo. Nesse caso, a sua flexão é normal, como a de qualquer outro adjectivo: «hora extra», «horas extras». É o que, consciente ou inconscientemente, leva, com o meu aplauso, alguns jornalistas a flexionarem o vocábulo: «Ministro proíbe gastos extras às direcções dos hospitais» (Público, 20.08.2006, p. 26). «Os gastos extras, para saídas, por exemplo, avaliam-se um a um, para que se aprenda a dar valor ao dinheiro e à poupança» («Crise não afecta famílias habituadas a poupar muito», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 18).

«Aura mágica», «auréola mágica»

De magia

      «Bem entendido, Istambul foi a capital do mito orientalista europeu do século XIX e isso deu-lhe uma auréola mágica que é mais importante que todas as suas belezas reais e imaginadas» («Istambul», Paulo Varela Gomes, Público/P2, 27.06.2009, p. 3). Será mesmo «auréola mágica»? Ou será «aura mágica»? Em sentido figurado, auréola é sinónimo de «glória, prestígio». Também em sentido figurado, aura é algo de muito semelhante: «fama; favor público». O que me pergunto é se outra acepção de «aura», também um sentido figurado, não se adequará melhor: «atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa». «No dia seguinte, reservo a manhã para visitar o mais antigo mosteiro do Laos. Construído em 1818, o Wat Sisaket está envolto por uma aura mágica e por harmoniosos jardins com esguias palmeiras, num lugar vigiado por 6800 imagens de Buda» («Viagem ao Oriente perdido», Maria da Assunção Avillez, Rotas & Destinos, Junho de 2004).


Léxico: «cleptoparasitismo»

Ecos

      «Cleptoparasitismo é quando um leão, por exemplo, rouba comida a uma chita» («Quando a fome aperta, vale tudo», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 27.06.2009, p. 3). Numa edição da revista Audácia, que de momento não consigo precisar, escreveu a escritora Alice Vieira: «Neste poema só não gostei muito daquela expressão “é quando”. Tinha uma professora na escola que, quando escrevíamos ou dizíamos isso, cortava logo: “ecoando” é o gerúndio do verbo “ecoar…”. Deve ser por isso que não gosto da expressão.» Cleptoparasitismo, que o Dicionário Houaiss, por exemplo, não regista, é uma forma de interacção em que um organismo rouba um recurso, comida ou objecto, a outro organismo.

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