Uso de estrangeirismo. «Outing»

Sair dos eixos

O jornalista João Pedro Henriques entrevistou para o Diário de Notícias o antropólogo Miguel Vale de Almeida a propósito da sua inclusão na lista de Lisboa do PS às eleições legislativas. Sendo o entrevistado não apenas homossexual assumido como também activista da LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), talvez tenha parecido ao jornalista que era inevitável que as perguntas visassem este aspecto. Pergunta o jornalista: «Noutros países há pessoas na política que assumem abertamente a sua condição homossexual. Cá, não. Pensa ter algum papel incentivador?» Responde Miguel Vale de Almeida: «Se isso acontecer, fantástico. Mas não é o meu objectivo. Não vou incentivar políticos a “sair do armário”. Isso só deve acontecer como assunção de uma posição política, contra a discriminação.» O jornalista insiste, e agora numa versão piorada: «Disse que não irá incentivar o outing de políticos?» «Exacto», responde o entrevistado, «não vou, nem pensar nisso! Isto não é um clube!» («“Não vou incentivar políticos a sair do armário”», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 25.07.2009, p. 64). Vejam bem: o entrevistado usa uma expressão, sair do armário, ainda que não entendida por toda a gente, largamente divulgada. O jornalista saiu-se com um vocábulo estrangeiro — outing («the public disclosure of the covert homosexuality of a prominent person especially by homosexual activists», in Merriam-Webster). Descuida-se, e ainda é agraciado com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural.

Major/minor

Alguém que explique

      «He», seja lá quem for, «majored in chemistry.» Será judicioso (porque fácil é) traduzirmos «concluiu um major em Química»? Na frase, major é em inglês um verbo intransitivo (mas decerto que ainda se recordam da aluna que se quer «mestrar») que significa «to pursue an academic major», sendo que este substantivo significa «an academic subject chosen as a field of specialization». O modelo major/minor, que é muito comum nas universidades norte-americanas, foi, ao que pude apurar, instituído em Portugal pela primeira vez pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É ainda, mesmo após a sua adopção pelo Processo de Bolonha, matéria estranha mesmo aos estudantes universitários. A minha interpretação é que o major constitui a formação de base conferida pela licenciatura, ao passo que o minor é uma especialização. Contudo, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá a seguinte tradução de major: «Estados Unidos da América, Canadá, Austrália (curso universitário) especialidade, especialização». Alguém que explique.

Acento diferencial


Mais um passo

Talvez esteja na hora de o Record dar mais um passo na adopção do Acordo Ortográfico de 1990 e deixar de usar o acento diferencial na forma verbal «pára». Ao que parece, os leitores — e o Record é, sabiam?, o título desportivo com maiores vendas, 67 mil exemplares/dia — assimilaram bem as novas regras já introduzidas. Seria então: «Ninguém para Cardozo».

Confusões mitológicas

Multiforme, o erro

      Um erro é um erro, mas há erros e erros. «In Greek mithology Proteus […].» O tradutor não pensou duas vezes: «Na mitologia grega, Prometeu […].» Nada de especial, dizem? «Protean thus came to mean variable, versatile, taking many forms.» E ele: «Prometeico acabou assim por significar variável, versátil, multiforme.» Prometeu era um titã, filho de Jápeto e de Climene, uma das muitas filhas de Oceano, e irmão de Epimeteu e de Atlas. E como é que Prometeu foi admitido no Olimpo? Pois precisamente por ter ajudado Júpiter na luta contra os titãs. Depois de várias peripécias, entre as quais ter roubado do céu o fogo sagrado, que estava à guarda de Vulcano, Júpiter castigou-o, mas voltou a ser readmitido no Olimpo. Proteu, por sua vez, era o deus marinho da mitologia grega, filho de Poseidon e de Tétis. Tinha o dom da profecia e o poder de se metamorfosear para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Em inglês, Proteus, Prometheus. Protean traduz-se por próteo, adjectivo que significa «que muda com facilidade de forma ou de opinião». Não sendo conhecimento do dia-a-dia, o tradutor devia ter tido o cuidado de verificar a que correspondiam os termos ingleses.

«A distância»

Sem crase

      «Em Portugal, funcionará, sobretudo, como um “complemento do ensino” ministrado nas escolas, esclarece a coordenadora científica do projecto, Ana Martins, que contará com a colaboração de dez linguístas [sic]» («Projecto permitirá aprender Português à distância», Paula Torres de Carvalho, Público, 21.07.2009, p. 9.
      Não sendo a determinação necessária, deverá escrever-se «projecto permitirá aprender Português a distância», tanto mais que neste tipo de construção não ocorre a possível ambiguidade verificada na locução «ensino a distância». Quanto ao indevido acento agudo em «linguista», não é erro tão raro. Mais natural seria que os falantes deixassem de acentuar o vocábulo «altruísta», já que a generalidade (F. V. Peixoto da Fonseca, do Ciberdúvidas, vê o fenómeno de uma forma mais atenuada, dizendo que em francês altruiste, étimo do nosso vocábulo, se pronuncia ui como ditongo crescente, e que, entre nós, «também há quem faça o mesmo») pronuncia a sequência /ui/ como ditongo crescente, apesar do acento agudo do i.

Tradução: «convener»

Talvez sirva

É muito raro ver-se a palavra inglesa convener (ou convenor) traduzida. E se ela é usada… No mundo anglo-saxónico, é aquele a quem, em certas instituições, compete fixar o dia das reuniões e enviar as convocatórias. Não teremos mesmo um termo que corresponda? Em documentos brasileiros, já tenho visto a palavra traduzida por «coordenador», pois este é a pessoa que organiza e orienta um projecto ou actividade de grupo. Aceitam-se sugestões.

Ratificar e rectificar

Reduzir à perfeição

      «A Constituição espanhola, no artigo referente aos estatutos das comunidades — rectificados pelas Cortes e posteriormente promulgados pelo Rei —, a organização institucional autonómica tem por base a Assembleia Legislativa, eleita por sufrágio universal, com recurso a um sistema de representação proporcional, um Conselho de Governo com funções executivas e administrativas e um presidente eleito pela Assembleia, entre os seus membros, nomeado pelo Rei» («Jardim inspira-se no modelo das autonomias espanholas», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 24.07.2009, p. 10). Sim, é um erro que se vê há muito. Os estudantes de Direito a partir do 3.º ano já não caem nele. Os jornalistas, porém, continuam pela vida fora a confundir ratificar com rectificar. Rectificar significa corrigir, emendar: «Serafim Riem, da direcção do Fapas, associação que produziu e vendeu as plantas, para além de rectificar que “o preço não foi de 5000, mas de 6000 por árvore”, considerou tais quantias “ainda muito baixas”, já que, “para qualquer instituição pública ou privada, o Fapas está, actualmente, a vender árvores cujos preços podem ascender aos 12000”» (in CETEMPúblico). Ratificar significa validar, confirmar, comprovar algo que foi proposto: «O orçamento rectificativo foi ratificado ontem pela Assembleia da República.» Já em 1824, na Orthographia ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza, para Uso do Excellentissimo Duque de Lafoens, de João de Moraes Madureira Feijó, se podia ler: «Ratificar, e réctificar, saõ muito diversos ; o primeiro he confirmar o que está dicto ; o segundo reduzir alguma cousa á perfeiçaõ , e regras de arte» (p. 414).

Léxico: «tintado»


Gosto

      Já tinha visto o aviso antes, mas ontem reparei melhor quando utilizei uma caixa Multibanco. «Não aceite notas tintadas.» Espantoso. Não sei quem concebeu a frase, mas ter recorrido ao adjectivo/particípio tintadas revela leitura dos clássicos, não é? Também se podia dizer entintadas, mas «tintadas» ainda é mais sugestiva da palavra «tinta». E espantoso porque podiam, proclives como os portugueses são a usar estrangeirismos, e ainda mais estes burocratas engravatados, ter usado uma palavra inglesa. Infelizmente, no blogue Cliente Bancário vê-se sempre a palavra envolta em aspas, talvez para não sujar as que estão à volta. É neste blogue que ficamos a saber que, se acaso nos vier ter às mãos uma nota tintada, nos deveremos dirigir «ao Banco de Portugal ou às autoridades policiais, com vista ao esclarecimento da sua origem e à realização de análises laboratoriais, diligências de que cujo resultado dependerá a possibilidade, ou impossibilidade, do seu reembolso». Nem todos os dicionários registam o verbo tintar nem o substantivo tintagem.

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