Chico-esperto/chicos-espertos

É o que me parece


      «É a autodefesa do autoplágio: a partir dos 40 anos, a memória já não era (que nós nos lembremos) o que era e, para que nenhum chico-esperto apareça a fazer nhá-nhá-nhá, tapamos o rabo com um simples “Já não é a primeira vez que digo que…”» («Como eu já disse (I)», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.03.2009, p. 47). «“Estes tipos são o português vernáculo que a gente encontra e, curiosamente, não é só nas camadas mais populares. Há chico-espertos em todas as classes”, comentava José Pedro Gomes, poucas horas antes de entrar em cena» («Toni e Zezé despedem-se da treta... até um dia destes», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 45). Um consultor do Ciberdúvidas, Luís Filipe Cunha, diz que «de acordo com o Dicionário da Academia das Ciências, ed. Verbo, o único de entre os dicionários consultados onde a expressão aparece, a grafia correcta é chico esperto, sem hífen». Lancemos mão da analogia. Maria-rapaz, por exemplo, em que, em vez de um nome e um adjectivo, temos dois nomes. Leva hífen. Não descortino nenhuma razão (e espero que o consultor não entenda a referência ao dicionário da Academia das Ciências como um argumento de autoridade) para não se escrever chico-esperto. Já quanto à forma do plural, concordo com o referido consultor: «Tratando-se de uma estrutura formada por um nome e por um adjectivo, ambas as formas pluralizam, já que devem concordar em género e número», dando origem a chicos-espertos.

Grandes empresas


Para a próxima

O grupo Sonae, que tem um grupo de trabalho sobre a gripe A em cada empresa, também se preocupa com os clientes dos seus supermercados e hipermercados, e por isso distribui em cada caixa o folheto da imagem. Louvável, sem dúvida. Os responsáveis esqueceram-se foi, lamentavelmente, de entregar a redacção do texto a quem dominasse a língua portuguesa. E desconhecem certamente que existem revisores. Esperávamos mais, Sr. engenheiro.

«Descrição» e «discrição»

Erro ou gralha que seja

«O mundo inteiro via o momento pela televisão, através de uma câmara instalada no exterior do veículo, transformando em imagens as primeiras discrições de paisagens feitas, horas antes, por Buzz Aldrin logo após o momento em que o ML [Módulo Lunar] tocara no solo» («“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 20.07.2009, p. 28). O erro pode ter acontecido por falsa assimilação do significado dos parónimos descrição e discrição. O que acontece é que, como muitas vezes, ao pretender escrever-se a primeira, se escreve a segunda, há como que uma defesa. Para evitar o erro, o falante deve ter em conta que o vocábulo discrições, no plural, é de rara ocorrência (e aqui pode encontrar a razão). Por outro lado, deve saber-se que se escreve à discrição (ver aqui).

Ortografia: «Cidade Judiciária»


Pensem nisso

«O ministro da Justiça inaugura hoje a nova cidade judiciária de Lisboa, no Parque das Nações, um complexo que concentra cerca de 2400 magistrados e funcionários, distribuídos por 11 edifícios que alojam 21 tribunais e serviços, custando mensalmente ao Estado um milhão de euros em rendas» («Juízes recusam participar hoje na inauguração da cidade judiciária», Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 23). Bem, os senhores jornalistas têm de começar a pensar em grafar a locução com maiúsculas: Cidade Judiciária. Não escrevem sempre Cidade Universitária? Qual é a diferença? Tanto mais que já escrevem Campus de Justiça de Lisboa.

Actualização em 23.09.2009

Na legislação, a opção parece estar tomada: a locução campus de justiça ainda hoje surgiu no texto de duas resoluções (95 e 96) do Conselho de Ministros: «O novo conceito de campus de justiça, que o programa propugna, visa concentrar num local os diversos serviços até agora dispersos, permitindo espaços de justiça com funcionalidade e qualidade urbanística, melhores índices de produtividade em consequência de uma maior rapidez de comunicação, maior eficiência dos serviços, melhores condições de trabalho e melhores condições para o utente.»

Tradução: «clearing»

Parabéns

«“Os primeiros trabalhos já tiveram início e consistem no clearing [limpeza] dos terrenos onde se virá a implementar o campo de golfe de Roncão”, diz fonte da SAIP [Sociedade Alentejana de Investimentos e Participações], acrescentando que a empreitada foi adjudicada a uma empresa local, estando em curso as obras de terraplenagem e o transplante de oliveiras que “irão ser reutilizadas noutras áreas” do projecto» («Roquette inicia investimento de mil milhões em Alqueva», Luís Maneta, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 32). O que tenho a dizer neste 2500.º post (obrigado, obrigado) é que o jornalista procedeu bem (ou mais ou menos): traduziu o termo estrangeiro que a «fonte» usou ridiculamente. É verdade que se diz limpeza de terreno, mas o jornalista devia ter optado por «desbravamento», por exemplo, pois é mais imediatamente perceptível. E reparem no título: «Roquette inicia investimento de mil milhões em Alqueva». Em Alqueva.

Matizes, tons e sombras

Nem por sombras

      «Considerar as cores uma a uma (ou matiz a matiz) é um prazer que só se abre a quem se fecha à luz da inteligência» («Castanho como tudo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.07.2009, p. 31). Se quisesse ser tecnicamente chato, Miguel Esteves Cardoso teria escrito: «Considerar as cores uma a uma (ou matiz a matiz, sombra a sombra, tom a tom) é um prazer que só se abre a quem se fecha à luz da inteligência.» À cor aclarada pela adição de branco dá-se o nome de matiz (o que se diz gradação de cor). À cor escurecida pela adição de preto chama-se sombra e à cor adicionada de cinzento dá-se a designação de tom (daí que se afirme que o tom é o grau de intensidade de uma cor). Na linguagem comum, já se deram conta, tom e matiz são sinónimos, e quanto à sombra, sabe bem agora no Verão.

Capitular e render-se (I)


Vencido, mas como?


      «[…] shortly after Japan surrendered […]». «[…] pouco tempo depois da capitulação japonesa […]». A questão é: o Japão rendeu-se ou capitulou? É que capitular é render-se mediante certas condições. O Japão fê-lo? Render-se é entregar-se, submeter-se, dar-se por vencido. O Japão fê-lo? Por outro lado, sem ser um argumento decisivo, recorde-se que em inglês existe o verbo to capitulate. Capitular, em todo o caso, subsume-se no significado (é hipónimo) de render-se, pelo que, na dúvida, seria mais correcto optar pelo último, por mais genérico.


Sobre «subeditor»

Basta ver

«Descoberto no ano passado por François Gallix, estudioso das obras de Greene, no Centro de Humanidades na Universidade do Texas, o texto marca um ano importante na vida do escritor, pois, segundo o seu biógrafo, foi quando se converteu ao catolicismo, começou a trabalhar como subeditor no jornal londrino Times e decidiu tornar-se um escritor de sucesso» («Obra inacabada de Graham Greene vai ser completada por leitores», Filipa Moreno, Público, 21.07.2009, p. 40). Alguém, ignorante mas arrogante, me dizia recentemente que o termo «subeditor» não é muito usado entre nós. Bem, basta abrir os olhos e ver a ficha técnica de várias publicações. O que se pode, aproveitando a oportunidade, é dizer duas coisas: que nem todos os dicionários, espantosamente, registam o termo e que surge muitas vezes mal grafado (talvez por influência do inglês sub-editor), com hífen: «sub-editor».

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