Como se fala na televisão

Não é assim?

Já aqui dei conta, várias vezes, dos erros em séries infantis e programas de animação. Ultimamente, tornou-se-me evidente um facto: já ninguém pergunta, como qualquer português medianamente alfabetizado fazia outrora, se «está bem» ou «não é assim», mas se está «certo», tradução atamancada do «right» inglês. Nas dobragens de desenhos animados, ouve-se todos os dias. De maneira que, se não estamos todos, como o provedor do Público, risivelmente, queria, a dizer OK, não andamos longe disso. Ainda ontem estive toda a manhã com 30 crianças e ouvi várias vezes o «certo?». Daqui a pouco mais de uma dúzia de anos, alguns deles poderão ser professores, e o que vão ensinar?

Tradução: «boutique»

E agora?

«O Maréchal de Cour de Frederico disse que a boutique inteira se considerava sob a protecção de Grumbkow» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 47). Perante o contexto, até o leitor mais inexperiente e falho de cultura sabe que não se trata de uma loja ou armazém. Contudo, uma consulta ao Dicionário Francês-Português da Porto Editora não o deixa com maiores certezas, pois todas as acepções deste vocábulo andam à volta deste núcleo. Uma consulta a um dicionário unilingue diz-nos que boutique significa, em particular, o «groupe restreint pratiquant l’esprit de corps dans les affaires qui le concernent» (in TLFI).

«A cargo de»

Parecido, sem dúvida

«Apesar do ódio e do desprezo que Frederico Guilherme nutria pelos súbditos de sua Majestade Cristã, deixou o filho pequeno ao encargo de dois protestantes franceses» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 22). Vejo este erro com alguma frequência. Na realidade, a locução preposicional é a cargo de, que significa «à responsabilidade de, por conta de». Em espanhol também se diz «a cargo de», e em francês, «être à la charge de». «Los tribunales han dado la puntilla definitiva a la denuncia del Grupo Popular de Elche por el supuesto pago de facturas de actos electorales del PSPV a cargo de las arcas municipales» («La juez no ve delito en las facturas que pagó Avilés», Cristina Medina, El País, 16.07.2009). «La première phase correspond aux rites de guérison de la possession (cf. supra). L’initiée est à la charge de sa marraine et sous la férule d’un ngan» (Le peuple du fleuve : sociologie de la conversion chez les Douala, René Bureau. Paris: Édtions Karthala, 1996, p. 66).

Sobre «espoletar»


Deixem lá a espoleta

Com os seus espoletares e despoletares, muitos tradutores parecem militares frustrados. Porque é que não usam simplesmente um bom, e mais adequado, sinónimo? Na maioria das circunstâncias, prefiro àqueles os verbos desencadear ou provocar. «Era o terror daqueles que tinham de lidar com ele; fúrias incontroláveis eram espoletadas por comentários aparentemente inofensivos ou até por olhares» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 20). Como é que, ao fim de tantos anos de debate sobre a questão, falantes com tais credenciais ainda andam a patinar?

Tradução: «tabagie»

Fumo de palha

«O seu horário [de Frederico I da Prússia] era o de Luís XIV até à hora do sarau em Versalhes, altura em que ele retornava aos modos germânicos e mantinha uma tabagie, fechando-se numa pequena sala fumarenta para beber cerveja, com alguns amigos fumadores de cachimbo» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 17). Vejam como o Dicionário Francês-Português da Porto Editora traduz «tabagie»: «sala cheia de fumo». Parece-me que foram buscar o sentido pejorativo do vocábulo («Endroit, pièce où l’on fume beaucoup, où la fumée et l’odeur du tabac stagnent», in TLFI). Em português dir-se-ia mais adequadamente sala de fumo. Como se sabe, «fumo» também significa «tabaco».

Léxico: «porfiria»

Uma doença de reis

Ignoro se a probabilidade de o leitor conhecer alguma mulher de nome Porfíria é maior do que a de conhecer a doença porfiria, mas Leonard Mlodinow saberia. Fiquei recentemente a saber da sua existência numa biografia: «Infelizmente, o Rei Frederico Guilherme [1620−1688], em quem havia qualidades excelentes e que tanto fez pelo seu país, estava doente. Tal como Jorge III, tinha uma doença hereditária, predominante entre os descendentes de Maria, Rainha dos Escoceses, que leva a vítima à loucura com sofrimentos prolongados e terríveis. É actualmente conhecida como porfiria e consiste numa desordem do metabolismo; os sintomas são algumas das mais horríveis desgraças com as quais a humanidade é atormentada — gota, hemorróidas, enxaquecas, abcessos e furúnculos, e também dores de estômago aterradoras e inexplicáveis» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 20). Em francês diz-se porphyrie e em inglês, porphyria.

«Uigures» e «uígures»

Uigures e iogurtes

O Diário de Notícias grafa sempre, e creio que é a única publicação a fazê-lo, com acento agudo a palavra uígures. «A polícia chinesa matou ontem dois uígures em Urumqui, capital do Xinjiang, onde na semana passada pelo menos 180 pessoas morreram devido à violência étnica nesta província, a maior da China» («Polícia mata dois uígures na capital do Xinjiang», Diário de Notícias, 14.07.2009, p. 22). Todas as outras, a começar pelo Público, grafam sem acento: «Quatro uigures de Guantánamo transferidos para as Bermudas» (D. F., Público, 12.06.2009, p. 17). Também os dicionários grafam sem acento. O Diário de Notícias grafa uigur para o singular, e não uigure, como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É um termo que entrou recentemente no dia-a-dia noticioso, pelo que é natural que haja algumas confusões, como a do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner, que numa entrevista à France Info, na semana passada, confundiu os uígures (ouïgours, em francês) com iogurtes (yoghourts, em francês).

«Às próprias custas»

João Marcelino, é consigo


      Pela primeira página do Diário de Notícias de hoje, ficámos a saber que os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar coletes e algemas a prestações. Eis um excerto: «Os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar, às próprias custas, equipamento básico de protecção pessoal que não é garantido pelos comandos.» Se erros deste calibre já vêm para a primeira página, o descalabro atingiu este outrora jornal de referência.



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