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Mais uma flor
O Termcat acaba de disponibilizar mais um dicionário em linha (já são 32, alguns plurilingues), Nome de Plantas, com 25 mil nomes de plantas. A pesquisa tanto se pode fazer pela designação científica como pelo nome catalão.
O Termcat acaba de disponibilizar mais um dicionário em linha (já são 32, alguns plurilingues), Nome de Plantas, com 25 mil nomes de plantas. A pesquisa tanto se pode fazer pela designação científica como pelo nome catalão.
Uma subtil metafísica
Em dois números, 63 e 65, ambos de 1838, de O Panorama, o «jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis», Alexandre Herculano abordou a pontuação em português. No primeiro texto, lembrou que os Antigos pontuavam de outra maneira. «Serviam-se tão sómente de um ponto nos manuscriptos : e segundo este era collocado ao alto, no meio, ou abaixo da linha , significava um sentido começado , continuado , ou acabado.» E acaba o texto afirmando: «Quanto ás regras de pontuação, deduzidas dos principios ideologicos , e da grammatica geral , ainda se póde dizer que não estão assentadas ; e por ventura nunca se assentarão. Parece-nos que ainda se não mostrou a verdadeira causa disto ; a não ser a difficuldade que nasce das variadas maneiras porque as phrases e as palavras podem ser collocadas.»
Em dois números, 63 e 65, ambos de 1838, de O Panorama, o «jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis», Alexandre Herculano abordou a pontuação em português. No primeiro texto, lembrou que os Antigos pontuavam de outra maneira. «Serviam-se tão sómente de um ponto nos manuscriptos : e segundo este era collocado ao alto, no meio, ou abaixo da linha , significava um sentido começado , continuado , ou acabado.» E acaba o texto afirmando: «Quanto ás regras de pontuação, deduzidas dos principios ideologicos , e da grammatica geral , ainda se póde dizer que não estão assentadas ; e por ventura nunca se assentarão. Parece-nos que ainda se não mostrou a verdadeira causa disto ; a não ser a difficuldade que nasce das variadas maneiras porque as phrases e as palavras podem ser collocadas.»
Passaram 171 anos e, como vêem, nem a pontuação nem a ortografia nos causam grandes engulhos.
C’est dommage
Suponhamos, porque isso nada custa, que o nosso tradutor não soubera ou se «esquecera» de traduzir a locução francesa gel des crédits. Suponhamos ainda que a frase era esta: «Sarkozy annule le gel des crédits.» Que fez Sarkozy? Que fizemos nós? Gel é «gelo» e também «gel» (gel coiffant, por exemplo). Em sentido figurado, contudo, é «paragem, bloqueio, suspensão». Gel d’un processus, por exemplo, é a interrupção de um processo. Nos domínios da administração, da economia ou das finanças, designa a suspensão de um estado, de uma actividade: gel d’un poste, d’une réforme; gel des armements; gel des crédits, des négociations, des prix. A dificuldade prende-se também com a falta de bons dicionários. Com a hegemonia do inglês, é bem provável que mais depressa o nosso tradutor saiba o que é credit freeze do que gel des crédits. Não vamos esperar pelo Natal: oferecemos-lhe hoje mesmo este glossário inglês-francês.
Suponhamos, porque isso nada custa, que o nosso tradutor não soubera ou se «esquecera» de traduzir a locução francesa gel des crédits. Suponhamos ainda que a frase era esta: «Sarkozy annule le gel des crédits.» Que fez Sarkozy? Que fizemos nós? Gel é «gelo» e também «gel» (gel coiffant, por exemplo). Em sentido figurado, contudo, é «paragem, bloqueio, suspensão». Gel d’un processus, por exemplo, é a interrupção de um processo. Nos domínios da administração, da economia ou das finanças, designa a suspensão de um estado, de uma actividade: gel d’un poste, d’une réforme; gel des armements; gel des crédits, des négociations, des prix. A dificuldade prende-se também com a falta de bons dicionários. Com a hegemonia do inglês, é bem provável que mais depressa o nosso tradutor saiba o que é credit freeze do que gel des crédits. Não vamos esperar pelo Natal: oferecemos-lhe hoje mesmo este glossário inglês-francês.
Não explique, use
«Ontem, o Corriere della Sera estudou melhor o vídeo e provou que Berlusconi, afinal, disse: “Eu andei na Sorbonne [Sorbona, em italiano].” Melhor que uma notícia gira é uma notícia ainda mais gira. Com Berlusconi não é importante que seja vero basta que seja bene trovato» («O suspeito do costume desta vez…», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 5.03.2009). Em vez de Io ti ho dato la tua donna, parece que Berlusconi terá dito Tu sai che ho studiato alla Sorbona.
Bem, Sorbona em italiano e em português. Admito que a forma Sorbonne é muitíssimo mais frequente, mas quando calha até o Diário de Notícias escreve Sorbona, sem explicações parentéticas, como aqui: «No entanto, de acordo com o The Guardian, Alexis Debat assegurava falsamente ter realizado um doutoramento na universidade francesa de Sorbona, e ter trabalhado como assessor do Ministério da Defesa francês» («Mas, afinal de contas, quem é Alexis Debat?», Diário de Notícias, 23.09.2007).
«Ontem, o Corriere della Sera estudou melhor o vídeo e provou que Berlusconi, afinal, disse: “Eu andei na Sorbonne [Sorbona, em italiano].” Melhor que uma notícia gira é uma notícia ainda mais gira. Com Berlusconi não é importante que seja vero basta que seja bene trovato» («O suspeito do costume desta vez…», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 5.03.2009). Em vez de Io ti ho dato la tua donna, parece que Berlusconi terá dito Tu sai che ho studiato alla Sorbona.
Bem, Sorbona em italiano e em português. Admito que a forma Sorbonne é muitíssimo mais frequente, mas quando calha até o Diário de Notícias escreve Sorbona, sem explicações parentéticas, como aqui: «No entanto, de acordo com o The Guardian, Alexis Debat assegurava falsamente ter realizado um doutoramento na universidade francesa de Sorbona, e ter trabalhado como assessor do Ministério da Defesa francês» («Mas, afinal de contas, quem é Alexis Debat?», Diário de Notícias, 23.09.2007).

Não se metam nisso
Não há-de ser por acaso que certos jornais, como a Folha de S. Paulo, registam nos seus livros de estilo o plural da expressão latina, de uso diplomático, persona non grata. (O Livro de Estilo do Público só regista — para quê? — o singular.) Não basta acrescentar esses, como fazem neste artigo do Expresso: «As autoridades de Islamabad têm o hábito de interrogar e investigar a fundo os cidadãos que regressam ao país com o rótulo de personas non gratas» («Ashik pode ter problemas em casa», Hugo Franco e Ricardo Marques, Expresso, 24.01.2009, p. 17). O plural da expressão é personæ non gratæ. Quem sabe se eles não pensam que a expressão é espanhola…
A imagem faz-me lembrar uma expressão inglesa: carnival barker. Como traduzi-la? Gostava de ver como o fariam os consultores do Ciberdúvidas que afirmam que não precisamos de palavras estrangeiras… «Animador de circo», como já vi, está longe do conceito. Ele há malucos para tudo, e um carnival barker não é um animador de circo ou de festas.
Não há-de ser por acaso que certos jornais, como a Folha de S. Paulo, registam nos seus livros de estilo o plural da expressão latina, de uso diplomático, persona non grata. (O Livro de Estilo do Público só regista — para quê? — o singular.) Não basta acrescentar esses, como fazem neste artigo do Expresso: «As autoridades de Islamabad têm o hábito de interrogar e investigar a fundo os cidadãos que regressam ao país com o rótulo de personas non gratas» («Ashik pode ter problemas em casa», Hugo Franco e Ricardo Marques, Expresso, 24.01.2009, p. 17). O plural da expressão é personæ non gratæ. Quem sabe se eles não pensam que a expressão é espanhola…
A imagem faz-me lembrar uma expressão inglesa: carnival barker. Como traduzi-la? Gostava de ver como o fariam os consultores do Ciberdúvidas que afirmam que não precisamos de palavras estrangeiras… «Animador de circo», como já vi, está longe do conceito. Ele há malucos para tudo, e um carnival barker não é um animador de circo ou de festas.
Actualização em 9.03.2009
Um leitor informa-me de que o Dicionário Houaiss regista o termo empata-fodas, adequadíssimo, parece-me, para traduzir o inglês carnival barker.
Empata s.f. (1638) jur obsl. 1 arresto, confiscação ou penhora v s.2g. (c1920) infrm. pej. 2 indivíduo que atrapalha o andamento de algum processo ou a realização de qualquer intento alheio, quer por criar, propositadamente ou não, obstáculos ao seu progresso ou à sua actividade, quer por se intrometer em assuntos que não lhe são pertinentes; empata-amigos, empata-foda(s), empata-vazas ¤ etim regr. de empatar; ver empat- ¤ hom empata (fl.empatar).

Chega correio
Nada de eufemismos: há muitos lunáticos a escreverem para a secção de correio dos jornais e das revistas. Por vezes, porém, há textos úteis — que não são de lunáticos. O texto que transcrevo, com uma vénia à publicação e sobretudo à autora, saiu na edição de 21 de Fevereiro da Notícias Sábado e está assinado por Berta Brás: «Andar à tona, à babugem, aos caídos, à roda; mandar/ir à fava, ou à… (isso que se diz em caso de crise); atirar/lançar/mandar às malvas ou às urtigas; viajar à borla; morrer à míngua de, chegar — ou não — aos calcanhares; ir/vir à boleia, ficar à mercê… E muitas mais expressões, formadas, a sério, por verbo seguido de complemento adverbial constituído por artigo contracto por meio de crase com a preposição a e por substantivo abstracto ou concreto. Mas hoje em dia prolifera oralmente ou por escrito o aborto à séria, formado não por substantivo, mas por um adjectivo feminino, chegado dos confins da inércia educativa. Poupemos carinhosamente os meninos e meninas, que não precisam de fixar tabuadas, porque as contas fazem-se nos computadores, nem de distinguir o adjectivo do substantivo ou do verbo, deixemos este navegar pelos faze-mos que assim curti-mos a vida sem preocupação pelo correcto, repetindo à exaustão o tu dissestes ou mandastes, ou o hadem e o hades e o houveram e o diz a ela porque o pronome lhe se eclipsou, e o por aí fora dos dislates sem nome com que a própria televisão nos “favorece” a cada passo, em traduções descuidadas, ou até na oralidade precipitada daqueles cuja promoção nos cargos foi favorecida, talvez, não por concursos “a sério”, mas por processos sem seriedade, muito nossos. Mas temos tanto já com que nos preocupar, na crise em que mergulhamos, que os “pontapés” na gramática portuguesa são bem de pouca monta» («Gramática», p. 58).
A autora há-de ser a Prof.ª Berta Henriques Brás, ex-docente de Filologia Românica no Liceu Nacional de Aveiro, em Lourenço Marques e, a partir de 1976, em escolas do distrito de Lisboa, e autora de várias obras, entre elas uma síntese comentada de Os Maias e uma, Melodias do Passado, disponível em linha, aqui.
Nada de eufemismos: há muitos lunáticos a escreverem para a secção de correio dos jornais e das revistas. Por vezes, porém, há textos úteis — que não são de lunáticos. O texto que transcrevo, com uma vénia à publicação e sobretudo à autora, saiu na edição de 21 de Fevereiro da Notícias Sábado e está assinado por Berta Brás: «Andar à tona, à babugem, aos caídos, à roda; mandar/ir à fava, ou à… (isso que se diz em caso de crise); atirar/lançar/mandar às malvas ou às urtigas; viajar à borla; morrer à míngua de, chegar — ou não — aos calcanhares; ir/vir à boleia, ficar à mercê… E muitas mais expressões, formadas, a sério, por verbo seguido de complemento adverbial constituído por artigo contracto por meio de crase com a preposição a e por substantivo abstracto ou concreto. Mas hoje em dia prolifera oralmente ou por escrito o aborto à séria, formado não por substantivo, mas por um adjectivo feminino, chegado dos confins da inércia educativa. Poupemos carinhosamente os meninos e meninas, que não precisam de fixar tabuadas, porque as contas fazem-se nos computadores, nem de distinguir o adjectivo do substantivo ou do verbo, deixemos este navegar pelos faze-mos que assim curti-mos a vida sem preocupação pelo correcto, repetindo à exaustão o tu dissestes ou mandastes, ou o hadem e o hades e o houveram e o diz a ela porque o pronome lhe se eclipsou, e o por aí fora dos dislates sem nome com que a própria televisão nos “favorece” a cada passo, em traduções descuidadas, ou até na oralidade precipitada daqueles cuja promoção nos cargos foi favorecida, talvez, não por concursos “a sério”, mas por processos sem seriedade, muito nossos. Mas temos tanto já com que nos preocupar, na crise em que mergulhamos, que os “pontapés” na gramática portuguesa são bem de pouca monta» («Gramática», p. 58).
A autora há-de ser a Prof.ª Berta Henriques Brás, ex-docente de Filologia Românica no Liceu Nacional de Aveiro, em Lourenço Marques e, a partir de 1976, em escolas do distrito de Lisboa, e autora de várias obras, entre elas uma síntese comentada de Os Maias e uma, Melodias do Passado, disponível em linha, aqui.
Com o alto paitrocínio
«O Instituto Português da Juventude (IPJ) assistiu na passada semana à assinatura de contratos-programa com associações de todo o País, no âmbito do PAI, o Programa de Apoio Infra-Estrutural», escreveu José Furtado na edição de 30 de Outubro de 2008 no Jornal Reconquista, de Castelo Branco. Que título poderia ter um artigo que aborda este questão? Isso mesmo: «Associações recebem PAItrocínio para obras».
Esta amálgama, «paitrocínio», corre há anos por aí, pela boca dos falantes de português. Também os Brasileiros a usam. É exactamente este processo de criação vocabular que distingue a escrita de Mia Couto, como também distinguiu a obra do genial Guimarães Rosa. A nova palavra, o neologismo, deriva da junção de dois lexemas num só. Justamente num estudo académico sobre a amálgama na obra de Mia Couto, escrevem Ana Margarida Belém Nunes e Rosa Lídia Coimbra: «Não será difícil imaginar que algumas palavras, nos dias de hoje, se conhecidas e divulgadas, facilmente entrariam no léxico da Língua Portuguesa. Isto porque, cada vez mais, tentamos dizer muito de forma breve e clara (pensemos, por exemplo, nas mensagens de telemóvel), é muita a informação que nos chega e que a todo o momento queremos fazer passar» (in «Estudo da amálgama e do seu valor em Mia Couto». Aveiro: Centro de Línguas e Culturas, 2007).
«O Instituto Português da Juventude (IPJ) assistiu na passada semana à assinatura de contratos-programa com associações de todo o País, no âmbito do PAI, o Programa de Apoio Infra-Estrutural», escreveu José Furtado na edição de 30 de Outubro de 2008 no Jornal Reconquista, de Castelo Branco. Que título poderia ter um artigo que aborda este questão? Isso mesmo: «Associações recebem PAItrocínio para obras».
Esta amálgama, «paitrocínio», corre há anos por aí, pela boca dos falantes de português. Também os Brasileiros a usam. É exactamente este processo de criação vocabular que distingue a escrita de Mia Couto, como também distinguiu a obra do genial Guimarães Rosa. A nova palavra, o neologismo, deriva da junção de dois lexemas num só. Justamente num estudo académico sobre a amálgama na obra de Mia Couto, escrevem Ana Margarida Belém Nunes e Rosa Lídia Coimbra: «Não será difícil imaginar que algumas palavras, nos dias de hoje, se conhecidas e divulgadas, facilmente entrariam no léxico da Língua Portuguesa. Isto porque, cada vez mais, tentamos dizer muito de forma breve e clara (pensemos, por exemplo, nas mensagens de telemóvel), é muita a informação que nos chega e que a todo o momento queremos fazer passar» (in «Estudo da amálgama e do seu valor em Mia Couto». Aveiro: Centro de Línguas e Culturas, 2007).
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