«Paisagem», «Herculano», etc.

Berrem menos


      «Parte da paisagem em montados portugueses, a cortiça faz parte da lista privilegiada dos materiais ecológicos para uso na construção civil, na indústria de produção de rolhas e em acessórios para a casa mais amigos do ambiente, nomeadamente nos países mediterrânicos, de onde provém», ouviu-se no programa da Antena 1 Um Minuto Pela Terra. E estava tudo correcto, excepto que «paisagem» não se pronuncia como se ouviu, /pàisagem/. Não é a primeira vez que aqui falo disto, como podem ver. Hoje, porém, socorro-me do que escreveu João de Araújo Correia sobre o mesmo: «Pàisagem, Càetano, sàudação e Hèrculano são gatos-pingados. Vão no enterro da pronúncia tradicional portuguesa» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 30). Este Herculano é o historiador de Vale de Lobos, pois a antiga cidade romana de Herculano (Herculaneum) é assim mesmo, com e aberto, que se pronuncia.



Regência do verbo «impor»

Imposições

Lembram-se do caso de Hannah Jones, a menina inglesa que decidiu não receber um transplante de coração? O Diário de Notícias referiu o caso. Claro que usou a palavra «jovem», porque as palavras, bem mais singelas, «rapariga» e «menina» estão proibidas pelo actual código jornalístico. «Mas na terça-feira foi ela própria quem, numa mensagem aos media britânicos, confirmou que tinha conseguido impor a sua vontade sobre a dos especialistas» («Jovem britânica rejeita operação e decide morrer», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2008, p. 31). «Impor sobre»? Nesta frase, o verbo impor é bitransitivo, ou seja, selecciona um complemento directo («vontade») e um complemento indirecto («à [vontade] dos especialistas»). Lá por ser uma situação dramática a jornalista não precisa de obrigar a pobre gramática a suicidar-se.

Sobre «dirigente»

Vê-se pouco

Estava aqui a rever as minhas notas à leitura dos jornais das últimas semanas e encontrei uma coisa interessante. Veja-se este excerto de uma notícia: «Cientistas da Universidade de Rutgers, em Nova Jérsia (Estados Unidos), descobriram mais uma etapa na formação da vida no planeta Terra. […] Segundo Paul Falkowski, dirigente da investigação e citado pelo The Sunday Times, “a probabilidade de tal encontro era ínfima, mas foi importante para a futura vida na Terra» («Encontro casual gera formas superiores de vida», Diário de Notícias, 12.11.2008, p. 36). O que tem de especial? O vocábulo «dirigente», que habitualmente apenas vemos usado para figuras do mundo do futebol (dirigente desportivo), da política (dirigente político), do sindicalismo (dirigente sindical) e do associativismo (dirigente associativo). No entanto, dirigente é a pessoa que dirige ou que exerce funções de chefia ou direcção.

«Após» e verbo

Corrija-se


      A aluna escreveu «após morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A professora de Português corrigiu para «depois de morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A avó pergunta-me agora se a «professora andou bem». Podia ter andado melhor, digo eu. Também aprendi que antes de verbo não se usa «após», mas acho que a professora devia ter corrigido a frase toda, pois não conheço nenhuma personagem histórica que tivesse sido canonizada em vida. Assim, não posso apor o Nihil Obstat à correcção da professora.


Tradução de «serial killer»

Imagem: http://www.shadetreemechanic.com/

Fora de série


Um leitor, E. C. R., traduziu serial killer por «assassino serial». Alguém reclamou e ele agora quer saber a minha opinião.
Não gosto da expressão «assassino em série». Quando a ouço, penso sempre — juro que isto é verdade — numa linha de montagem, só que em vez de saírem automóveis ou pernas de frango embaladas, saem assassinos. Em série. Obrigado, Henry Ford. Mas, como sei que a revelação dos meus processos mentais não ajuda o leitor, prossigo. «Assassino serial» não me convence, pela relativa estranheza de «serial», homófono de «cereal». Vejo que no Brasil por vezes se traduz por «assassino múltiplo». Contudo, como o multiple murderer abrange o mass murderer, o spree killer e o serial killer, não estaremos a ser precisos, embora nos conviesse como locução. Certo é que o Dicionário Houaiss, e isto ajudará decerto o leitor, regista assassino sequencial, serial ou em série. Não raramente, vejo que os tradutores optam por deixar o anglicismo: serial killer.

Acepções de «gafe»


Equívoco, disparate, tolice     

      A palavra «gafe» tem várias acepções, e em alguma dela se enquadra a atitude de Manuela Ferreira Leite. Gafe ou gaffe: acção ou palavra impensada que provoca uma situação embaraçosa ou um equívoco, deslize. Engano. Disparate; tolice.

Redução vocabular


Manif

      A palavra «manif» não é uma abreviatura. Logo, não pode ter ponto de abreviatura. Nem precisa de ter aspas, como este jornal já fez: «Costa foi “apertado” pela convocatória da manif que não tinha assinado», lia-se na edição do Diário de Notícias de 18.4.2008. Trata-se de um processo de abreviação ou redução vocabular, como se vê nas palavras «foto», «metro», «micro», «moto», «pneu», «porno», «quilo», etc. E quem é que, excepto na metalinguagem, usa aspas nestas palavras?


[Ver também aqui e aqui.]

Léxico: «asterónimo»

Substitui o nome

Asterónimo
é o asterisco (ou asteriscos) que substitui o nome próprio num texto. Por vezes, também se usam asteriscos para substituir algumas letras de palavras que são tabu, como «merda», mas o mais habitual, para este fim, são as reticências. Um exemplo: «António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, disse que A Vida Num Sopro, o último romance de José Rodrigues dos Santos, “é uma m…”» (Notícias Sábado, n.º 149, 15 de Novembro).

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