O novo jornalismo

O resto é paisagem

      Na Antena 1, a concisão jornalística, para não lhe chamar outra coisa, está a atingir limites intoleráveis. António Macedo disse que se podia ir hoje ouvir a «escritora Lídia Jorge falar sobre Faulkner, William Faulkner, na FLAD». Não faltam aqui elementos essenciais à notícia? E que dizer de usar um acrónimo sem o desdobrar? Agora parte-se do princípio de que todos os ouvintes sabem que FLAD é o acrónimo de Fundação Luso-Americana? E nem se diz que a instituição fica em Lisboa? E a que horas se realiza a iniciativa? Ou é como no Cinema Olímpia, em sessão contínua? Ou, mais absurdo ainda, de cada vez que entrar uma pessoa na sala, Lídia Jorge reiniciará a palestra, correndo o risco de nunca a acabar? Valha-me Deus!
      A escritora Lídia Jorge irá proferir hoje, às 18.30, no auditório da Fundação Luso-Americana, em Lisboa (Rua do Sacramento à Lapa, 21), uma palestra dedicada à obra de William Faulkner, inserida no ciclo de conferências «Asas sobre a América/Wings over America», destinado a promover o encontro das literaturas portuguesa e americana. A palestra terá uma introdução feita por Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. A entrada é livre, mas, devido à capacidade limitada do auditório, convém fazer uma inscrição prévia por correio electrónico: fladport@flad.pt.

Publicidade e gramática


Revisor, precisa-se

Quase nunca é por bons motivos que aqui falo de publicidade. O último anúncio a merecer reparos é dos CTT Expresso. Quem escreveu a frase? Foi o cliente? Foi a agência Strat? Ainda que tenha sido o cliente, já aqui expressei esta opinião, é obrigação da agência corrigir. «Se é importante conte com a nossa entrega.» A frase é bonita, sim, senhor. Mas a pontuação está errada. Estando a oração subordinada condicional («Se é importante») anteposta à subordinante («conte com a nossa entrega»), a vírgula antes da oração subordinante é obrigatória: «Se é importante, conte com a nossa entrega.» Quando falo destas questões, é vê-los de cenho carregadíssimo, como quem diz: «Vem para aqui este tipo ensinar isto que todos sabemos.» Pois é, mas quando se trata de escrever ou rever, esquecem-se da vírgula… Quanto às agências de publicidade, vê-se outra coisa: prescindem sempre de revisor, até que um dia o cliente prescinda delas.

Topónimo: «Indocuche»

Não, não sou o único


      Sim, já tive oportunidade de escrever mais de uma vez «Indocuche». Estou, assim, a contribuir para a tradição. Rejeito, por isso, a forma Hindu Kush. «Escavou tesouros na Pérsia. Venceu o rio Congo e os picos do Hindu Kush» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, p. 6). Mas há mais alguém em Portugal, pergunta o leitor malévolo, a escrever como você escreve? Ah, sim, algumas. Clara Ferreira Alves, por exemplo: «O romance de Khaled Hosseini, O Menino de Cabul, descreve a atracção do país e da sua luz, da beleza selvagem da terra e da gente, com os rios límpidos onde dormem esqueletos de tanques russos, os desertos de vento e o perfil puro da neve no Indocuche» («A traição do Afeganistão», Clara Ferreira Alves, Expresso, 24.3.2008). Claro que algum leitor se irá dar ao trabalho de me dizer que Indocuche é menos exótico…

O «p» de «abrupto»

Embrulha


      Já tem quase 15 dias, mas não quero deixar de falar na lição de Rui Tavares. «Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do “p” pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o “p” em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita» («Uma boa decisão», Rui Tavares, Público, 14.5.2008, p. 47).

Neologismo: «botnet»

Muito bem

O bom senso vai imperando e a boa prática estende-se: os jornais já vão explicando os termos técnicos, estrangeirismos habitualmente, que usam: «A estes problemas juntam-se seis milhões de computadores infectados por botnets (códigos que permitem controlar os computadores, que são utilizados por redes criminosas para reenviar mensagens não solicitadas e cometer fraudes electrónicas), disse ainda [o director da Agência Europeia de Redes e Sistemas de Informação, Andrea Pirotti]» («UE teme terrorismo electrónico», Global, 28.5.2008, p. 3).

«Morrer de repente»

Assim, de repente…

«Escreveu sobre tudo isto e ponderava viver em Portugal quando morreu de repente, de uma queda de bicicleta, na Suíça, durante a II Guerra Mundial. Annemarie Schwarzenbach tinha apenas 34 anos» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, pp. 4-6). Quando lemos «morreu de repente», não estamos à espera que se siga outra coisa que não uma explicação como, por exemplo, de que foi de ataque cardíaco, ou nada. «Morrer de repente» é o equivalente de «morte súbita»? É que a definição de «morte súbita», que é uma expressão técnica, é «risco que consiste na morte resultante de um colapso cardiovascular da máxima gravidade, decorrente de uma crise funcional irreversível do coração provocada pela sua paragem» (cf. Lextec-Léxico Técnico do Português). O exemplo, embora faça parte da área veterinária, é elucidativo e aplicável: «O seguro pecuário cobre obrigatoriamente os riscos de morte por doença ou acidente, morte súbita e abate de urgência.» Logo, Annemarie Schwarzenbach morreu de acidente, não se tratou de morte súbita. Ainda que tenha morrido no próprio local e, supõe-se, no próprio instante. Podia, isso sim, ter sofrido morte súbita quando andava de bicicleta, em cujo caso a morte não teria sido por causa da queda, antes o contrário.

Futurista? Visionário?

A acepção (quase) perdida

Futurist é, em inglês, também, e com registos desde antes de 1850, «one who studies and predicts the future especially on the basis of current trends». Futurista, em português? Bem, não para todos os dicionários, que, em geral, se limitam a registar a acepção de seguidor do futurismo, a escola artístico-literária fundada no início do século XX por Marinetti. Contudo, o vulgaríssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tão comum nas casas portuguesas como a aspirina, nas últimas edições (desde quando?) regista — e bem — esta acepção. Tal como também a regista o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Se não fosse assim, o que nos restava? O vocábulo «visionário»? Não são sinónimos. Este designa o indivíduo que julga ver coisas fantásticas, a pessoa criativa e clarividente. Aquele designa o que reproduz o futuro como ele é imaginado, particularmente no que diz respeito ao progresso científico e tecnológico. Nos Estados Unidos da América, há quem faça disto profissão.

Pólo norte, com minúsculas

Minúsculas, por favor

      «A sonda “Phoenix” vai começar a desvendar a história da existência de vida em Marte, após ter poisado, na madrugada de ontem, no Pólo Norte do Planeta Vermelho e de ter aberto imediatamente os painéis solares que lhe dão energia» («A Phoenix renasce e poisa bem no Planeta Vermelho», Meia Hora, 27.5.2008, p. 8). Não se tratando de um verdadeiro topónimo, pólo norte se escreverá. Tal como pólo sul, equador, hemisfério norte e hemisfério sul.

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