Formas de tratamento

Calinadas


      No Público, Nicolau Ferreira escreve sobre os funerais do futuro — «Os cemitérios do futuro vão estar vivos», é o título. O sumário previne, amigável e erroneamente: «No dia do vosso funeral não fiquem surpreendidos se houver pessoas a assistir a um concerto na esplanada do cemitério. A Europa espera por uma morte mais verde, tecnológica e personalizada. Vamos adiar a morte para ver o funeral de amanhã». Mortos e surpreendidos… Alguma figura de estilo, cogitará o revisor temeroso. Vamos, porém, por outro lado: «vosso» e «não fiquem».
      Já o Prof. Vasco Botelho de Amaral escrevia, a propósito das formas de tratamento, em 1947: «Considero que a língua portuguesa é rica demais quanto a formas, fórmulas, jeitos e processos de tratamento. Rica demais, porque a abundância de obstáculos não apenas se opõe aos estrangeiros dispostos a aprender a falar ou a escrever o nosso idioma, mas, inclusivamente, dificulta o acesso dos próprios Portugueses ao conhecimento seguro ou correcto da técnica do tratamento» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 540-557). Muito bem dito — até o duplo «demais». Ah, sim, não digam disparates. O texto vai por ali fora e lá está o que nos interessa: «Outro solecismo, frequente, por exemplo, nas locuções radiofónicas inclusivamente da nossa primeira estação, é a mistura do tratamento vocativo na 3.ª pessoa com pronomes na 2.ª:
      “Prezados ouvintes. Esperamos que o programa que lhes temos estado a transmitir seja do vosso agrado.”
      Quando se diz lhes, o tratamento realiza-se na 3.ª pessoa. Pois, esta mesma construção tem de manter-se, e, portanto, não se apresenta canonicamente o vosso, em lugar de seu. O programa que lhes temos estado a transmitir seja do seu agrado — será a única dicção correcta.»
      Na página 551, faz uma advertência: «2.as com 3.as = calinada». Não é bonito? Sessenta anos depois, o erro persiste. Tenho à minha frente duas obras: uma tradução e uma obra original portuguesa. Veja-se um exemplo da primeira: «— Mas agora entendem por que a casa é demasiado perigosa para vós? Têm de fazer com que a vossa mãe o entenda também. Têm de fazer com que ela queira ir-se embora dali. Se eles souberem que lá estão, pensarão que têm o livro e jamais vos deixarão em paz» (O Mapa Secreto. Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008, pp. 41-42). E um exemplo da segunda: «Lydia carregou na tecla que dizia “ler” e a mensagem apareceu escrita no ecrã: “Bem-vindos ao Planeta Branco. Convidamo-los a desembarcar, sem medo. As vossas vidas não correm perigo e a atmosfera é respirável» (O Planeta Branco, Miguel Sousa Tavares, revisão de Silvina Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 1.ª ed., 2005, pp. 61-62). Para quê continuar? Já perceberam.

Uso do hífen com anti-

Oh, que desilusão!

Ana Gerschenfeld escreve hoje no caderno P2 do Público: «Um dia, os automobilistas poderão ter de usar um capacete ao volante. Só que não será para proteger a cabeça em caso de choque, mas para evitar que eventuais lapsos de atenção provoquem um acidente» («No futuro. Capacete anti-erro», 26.4.2008, p. 3). Lamentavelmente, o capacete ainda não existe nem, existindo já, se aplicaria aos erros ortográficos: o prefixo anti- só leva hífen antes de h, i, r e s. Logo, antierro.

Dicionários raros

Boa notícia

Esta sim, é uma óptima notícia: o sítio do Instituto de Estudos Brasileiros/Universidade de São Paulo acaba de pôr à disposição do público, em versão fac-similada, dois dicionários raros: o Diccionario de Medicina Popular, da autoria de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, publicado pela primeira vez em 1842, e que chegou à 18.ª edição em 1918, e o Vocabulario Portuguez & Latino, de Rafael Bluteau, cujos dez volumes foram publicados entre 1712 e 1728. O projecto é coordenado pela historiadora Márcia Moises Ribeiro. Ver aqui. Seguir-se-á, proximamente, segundo é ali anunciado, a publicação de outros dicionários.
Muito obrigado ao leitor Jeová Barros, que me chamou a atenção para este acontecimento.

Léxico: «capitular»

Hum…



      «Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas» («Saramago, o escritor que brinca com a pontuação», Isabel Coutinho, Público/P2, 23.4.2008, pp. 4-6). Não é raro, é raríssimo ver-se o vocábulo «capitular» usado nesta acepção: maiúscula inicial. Habitualmente, reserva-se o termo para designar a maiúscula ornamentada e de grandes dimensões usada em início de capítulo. Também dita meramente capital se for apenas grafada num corpo superior ao usado no texto. Mais chãmente, mais terra-a-terra, diríamos então «assinalado por uma maiúscula».


Léxico: «tecnodoping»

Depois do doping

Todos os dias nascem novas palavras. «O novo fato da Speedo relançou o debate sobre as condições de igualdade entre os nadadores. O termo tecnodoping até já ganhou expressão em vários fóruns e blogues, embora João Paulo Vilas Boas, director do departamento de biomecânica da Faculdade de Desporto do Porto, diga que não se pode apelidar este caso de tecnodoping. “Doping é elevar ilícita e artificialmente a capacidade de rendimento”, refere Vilas Boas, para quem a “tecnologia tem lugar no desporto” e é um desafio para os fabricantes» («Tecnodoping ou tecnomarketing, os efeitos do novo fato na modalidade», Hugo Daniel Sousa, Público, 20.4.2008, p. 41).

Estada e estadia

E assim

«Herman José sente-se a regressar aos tempos da Roda da Sorte, do seu Com a Verdade M’Enganas e de Parabéns, concursos que apresentou na sua longa estadia na RTP, de onde saiu em 2000 para rumar à SIC» («Herman volta aos concursos», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 23.4.2008, p. 11). Ah, mas essa forma já está legitimada pelos *** (piores ou melhores?, não estou a ouvir) dicionários, clamam. Deixo que seja o crítico dos croquetes a responder: «Ainda sou novo, mas acontece — como foi o caso nesta apresentação de O Diário Português de Mircea Eliade — que gosto de rodear-me de pessoas com idade suficiente para saberem que não se diz “estadia” e sim “estada”, excepto se falarmos de barcos, comboios e assim» («O paraíso triste», João Villalobos, Diário de Notícias/Gente, 19.4.2008, p. 23).

Mega-, outra vez

É assim…

      Já aqui lamentei a praga do elemento de composição mega-, que hoje em dia nos atola. Há oito dias, lia-se no Diário de Notícias: «Transformar um estádio em megaigreja» (16.4.2008, p. 27). Hoje, a propósito da exposição saramaguiana, lê-se no Público: «A sensação que se tem quando se percorrem as salas desta mega-exposição (comissariada por Fernando Gómez Aguilera, da Fundação César Manrique, Lanzarote) é que, ao passar pelas vitrinas com os mais de 1200 documentos expostos, é o escritor que nos está a abrir as portas de sua casa e do Arquivo Fundação José Saramago, sem, na realidade, o ter feito» («Antipático? Não. “Sou um sentimental», Isabel Coutinho, Público/P2, 23.4.2008, p. 7). Mas no mesmo jornal já temos podido ler, por exemplo, isto: «É que, depois da megaoperação de fiscalização lançada pela autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) na última semana de Abril, que levou à apreensão de mais de 800 mil litros de combustível, oito bombas de gasolina, na maioria em Lisboa, foram encerradas entre sábado e quarta-feira» («Meia centena de postos de combustível fechados em Lisboa», Francisco Neves, 5.5.2006, p. 57). Ou isto: «Cabeçada de Zidane na final do Mundial inspira megaêxito músical [sic] do Verão em França» (Ana Navarro Pedro, 3.08.2006, p. 44). Ou ainda isto: «Mega-aliança GM-Renault-Nissan pode abrir perspectivas à fábrica da Azambuja» (10.07.2006, p. 41). Qual o critério subjacente, não querem dizer-nos?

Pontos cardeais

Perder a tramontana

Uma bússola portuguesa do século XVIII vai hoje, juntamente com outros objectos científicos ligados às viagens, a leilão em Londres. O Público dá conta do acontecimento, escrevendo: «Assinada por Manoel Ferreira, artesão de Lisboa, como tendo sido concebida em 1755, a bússola está finamente decorada com motivos florais em vermelho, verde, azul, amarelo e dourado e tem as armas da Coroa Portuguesa como indicador do Norte» («Bússola portuguesa do século XVIII é estrela em Londres», Bruno Manteigas, Público, 22.4.2008, p. 16). A norma ortográfica vigente estabelece, todavia, que «os nomes dos pontos cardeais e dos pontos colaterais, que geralmente se escrevem com minúscula inicial, recebe, por excepção, a maiúscula, quando designam regiões». E o texto do Acordo Ortográfico de 1990, na sua Base XIX, 1.º, al. e), também estabelece que se usa a minúscula inicial «nos pontos cardeais (mas não nas suas abreviaturas): norte, sul (mas: SW sudoeste)». Espíritos livres estes, libérrimos, que não acatam nenhuma ortografia nem convenção. Nas escolas, é claro, também se passa ao lado destas questões. Mas se os professores não sabem…

Arquivo do blogue