Léxico: «filopátrico»

Já tinham pensado nisto?

«De facto, as águias-imperiais têm tendência a instalar-se perto do local onde nasceram — ou seja, são animais filopátricos» («Águia-imperial regressa ao interior de Portugal», Inês Santinhos Gonçalves, Público/P2, 7.3.2008, p. 4). Duas coisas. Primeira: o vocábulo «filopátrico» não aparece registado em nenhum dicionário da língua portuguesa. Segunda: grafar com hífen as palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas é algo que já toda a imprensa faz — antecipando-se em anos ao que o Acordo Ortográfico de 1990 estipula. Mesmo as almas cândidas que estão contra o acordo o fazem. Sem terem consciência, decerto. Devem estribar-se, forneço-lhes o argumento, na analogia…
«Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; benção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inâcio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d’água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro)» (Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares), art. 3.º).
Sem acrimónia, agora: independentemente do valor deste acordo, faria sempre falta — na ausência de uma entidade pública competente que o faça no dia-a-dia, como sucede noutros países — um instrumento regulador destas questões do hífen. Pelo menos. Sim, uma coisa tão pequena… Só quem não lida, não luta, com a língua todos os dias é que pode subestimar a importância da questão. Lembram-se decerto da parte da entrevista de Evanildo Bechara ao jornal O Globo que aqui transcrevi: «A reforma estabelece 13 regras para utilização do hífen. É um avanço, já que hoje Portugal tem mais de quarenta regras e sub-regras. Mas isso ainda poderia ser resolvido com quatro ou cinco regrinhas muito simples, que tivessem como critério básico impedir pronúncias erradas.» Tantas e tão poucas. Na verdade, nesta matéria, o falante sente-se menos perdido com a complexidade do que com as lacunas.

Dois exemplos: «A praga de topillos, ratos-cegos-mediterrânicos que desde Julho assolam os campos de Castela e Leão, diminuiu 58 por cento, revelou ontem Sílvia Clemente, responsável de Agricultura do governo de Valhadolid. No combate aos roedores estão envolvidos especialistas da Alemanha, EUA, Reino Unido e França» («Praga de roedores em Castela diminuiu», Nuno Ribeiro, Público, 6.09.2007, p. 18).
«Todos os anos, quando chega Junho, o biólogo Jaime Ramos, de Coimbra, parte para as paradisíacas ilhas Seicheles, no Índico. Mas não vai de férias. Pelo contrário. É nessa altura do ano que se inicia a época reprodutiva das andorinhas-do-mar-róseas, cuja população o biólogo português estuda ali há dez anos» («Estudar andorinhas num paraíso tropical», Filomena Naves, Diário de Notícias, 12.1.2208, p. 42).

Mianmarense, mianmense ou mianmarês?

O mundo em mudança

«Mesmo que a noite já tenha caído há muito, o calor e a humidade tomam conta de Yangon, a maior cidade deste misterioso país que dá pelo nome de Myanmar. Duas palavras, aliás, que há alguns anos não fariam muito sentido, devido à decisão de alterar todos os nomes que “cheirassem” a colonialismo britânico. Yangon é a antiga Rangoon, Pagan é Bagan, Pegu é a actual Bago, o rio Irrawaddy é hoje chamado de Ayeyarwady e até o nome do próprio país foi substituído — Birmânia, em português, ou Burma, em inglês, transformou-se em Myanmar. E dei comigo em intrincados pensamentos antes de adormecer agarrado à almofada — se um natural da Birmânia é um birmanês, como se chamará um natural de Myanmar? Myanmarês? Myanmarense? Myanmano? Não dá jeito nenhum» («Navegar no rio dourado», Paulo Rolão, Global/Volta ao Mundo, 27.3.2008, p. 12). O jornalista podia ter usado um dicionário, ou não? Isso sim, dava jeito. O Dicionário Houaiss regista duas formas: mianmarense (a que prefiro) e mianmense. A forma mianmarês, a que chegamos por analogia, não é impensável, mas não está registada em nenhum dicionário nem — sobretudo — é usada. O jornalista, contudo, aflora uma questão importante: é necessário designarmos de outra forma um país que sempre conhecemos como Birmânia? É de admitir que durante algum tempo as duas designações sejam usadas quase na mesma medida, acabando por prevalecer a nova. Por muito que não gostemos.

Léxico contrastivo: «de quebra», «turbinar»

É longe

As famílias brasileiras que têm condições financeiras para isso mandam agora os filhos estudar para a Nova Zelândia. Ouçamos a estudante Camilla Pinto, de 18 anos, que já fez dois intercâmbios. Em 2006, esteve no Canadá. No ano seguinte, foi para a Nova Zelândia. «“Fiquei surpresa com a forma com que fui recebida. Além de aprimorar o inglês, conheci um país maravilhoso, vivenciei uma nova cultura, fiz amizades e, de quebra, ainda turbinei o meu currículo”, disse Camilla, que ficou hospedada durante um ano em casa de neozelandeses em Auckland» («Nova Zelândia vira uma opção», Flávia Lima, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. R4). Segundo o jornal, «a média de preço é de cerca de R$ 3 mil por mês, valor que inclui escola, acomodação em casa de família e alimentação», o que equivale a cerca de 1100 euros. De quebra, isto é, «ao mesmo tempo, em acréscimo». Turbinar é «fomentar, desenvolver, incrementar».

Elemento de composição «crio»

Crio-qualquer-coisa

      «Os polacos roubaram imediatamente a ideia e desataram a revigorar atletas de alta competição em crio-câmaras e um empresário checo achou que não havia razão para que a bizarria não servisse as massas. […] Abriu as crio-câmaras há ano e meio, e já se transformaram no último grito dos tratamentos de beleza» («Viagem a quatro minutos da morte», Ivete Carneiro, Global/Notícias Sábado, 24.3.2008, p. 12). Pois, pois, mas a verdade é que o antepositivo crio não se liga com hífen ao segundo elemento de composição: criobiologia, criobomba, criocautério, criocirurgia, crioconservação, crioextractor, criogenia, etc.

Elemento de composição «recém» (I)

Vejam lá

      «A recém-mamã Nicole Richie tem medo de já não ser divertida! A celebridade, que deu à luz a sua primeira filha a 11 de Janeiro, diz que a maternidade a fez querer assentar e deixar de ir a tantas festas» («Nicole Richie anda preocupada», Global, 24.3.2008, p. 23). Já o escrevi aqui um dia: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. O jornalista deveria, dando outra redacção à frase, ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

Tradução: «juniper»

Imagem: http://www.licores-serrano.pt/

Juniperus communis

      Como vi duas vezes em pouco mais de uma semana, talvez valha a pena referir a forma como se traduz a palavra inglesa juniper. A primeira foi numa obra literária. Anteontem, ao rever A Paixão de Shakespeare (com tradução de Georgina Torres, da Moviola), lá vinha também o «junípero». Se usarmos o corpus CETEMPúblico, por exemplo, nem sequer uma ocorrência de «junípero» está registada. De «zimbro», há 18. À minha volta, ninguém conhece a palavra «junípero». Mesmo amigos da zona da serra da Estrela (e recordemo-nos de que a única empresa, tanto quanto sei, que produz licor de zimbro se situa no vale do Zêzere, entre a serra da Estrela e a serra da Gardunha) desconhecem o vocábulo. Só botânicos e biólogos a conhecerão. Ah, e tradutores. A razão é bem simples: em alguns dicionários bilingues inglês-português, no verbete juniper aparece em primeiro lugar «junípero»… É que o nome comum é Juniperus communis.

«Ponha-a a marinar no vinho, juntamente com as bagas de zimbro e os alhos esmagados, a pimenta em grão, e as ervas aromáticas» (in CETEMPúblico).

Topónimos

Colonos em Trás-os-Montes

      É interessante o que o Global hoje publica sobre a colonização interna na década de 1950. Ficamos a saber, entre outras coisas, que este movimento veio a dar nome a algumas localidades.
«Nos anos 50 do século passado, enquanto milhares de portugueses optavam pela emigração várias famílias aceitaram o desafio de colonizar as zonas mais desérticas do Portugal continental. Salazar mandou preparar, por intermédio da Junta de Colonização Interna, terrenos para 160 colonos que ocuparam 4355 hectares de terrenos baldios. O plano de acção da junta, que foi apresentado em 1937, tinha como objectivo o desenvolvimento da actividade agrícola nos distritos de Portugal com mais área de baldios.
      Segundo o professor catedrático Eugénio de Castro Caldas, em A Agricultura na História de Portugal, foram instalados 24 colonos no Alvão (Vila Pouca de Aguiar), 57 nos baldios de Boticas e Montalegre, 12 nos Milagres (Leiria), 36 na Colónia de Martin Rei (Sabugal), 10 na Boalhosa (Paredes de Coura) e 22 na Gafanha (Ílhavo). […] Na zona do Alvão foi incrementado o cultivo da batata entre os colonos, os quais viriam a dar nome às localidades onde foram instalados. Em Vila Pouca de Aguiar contam-se os Colonos de Soutelo, Colonos de Baixo ou Colonos do Campo de Viação» («Jovens agricultores foram colonos há meio século», Paula Lima, Global, 24.3.2008, p. 11).

Iliteracia

Ropa muy ponible



      Loja Gerard Darel, Rua Castilho. O programa Caras Notícias mostrou-nos a fina-flor, ou quem pretende alcandorar-se a tal, a escolher algumas peças de vestuário e adereços. Algumas têm a sorte de ser a marca a emprestar-lhes as peças. Como é o caso de Isabel Palmela, que, entrevistada, afirmou que a roupa da marca é muito «ponível e bonita». Está muito bem: faltava a palavra adequada, Isabel Palmela foi buscá-la ao espanhol e adaptou-a.
      Em contrapartida, durante o programa ficámos a saber que o nome da filha da actriz Halle Berry é Nahla Ariela Aubry, que na «língua muçulmana» significa «abelha que faz mel». Os responsáveis do programa deviam reflectir uns segundos antes de dizerem tais disparates. Está-se mesmo a ver: leram ou ouviram que «it’s a Muslim name that means»…

Arquivo do blogue