Léxico: «tremendismo»

Fiquem com esta

Depois de, no Fórum Novas Fronteiras, o primeiro-ministro ter usado a palavra «tremendismo», alguém tinha de vir explicar o seu sentido. Coube a vez a José Júdice, na sua coluna no Metro: «O primeiro-ministro, numa deambulação poética àquele rigor de linguagem próprio dos engenheiros, acusou os críticos do Governo de “tremendismo”. O vocábulo pode parecer novo no léxico dos insultos políticos nacionais e inusitado num homem com vasta experiência em pré-esforçados e resistência de materiais, mas tem um antigo registo de patente aqui ao lado em Espanha. Já em 1947 o filósofo castelhano Antonio de Zubiaurre reclamava para si a utilização pela primeira vez do vocábulo “tremendista”, nem “casual nem frívola”, explicava, uma vez que pretendia fundir num só conceito todos aqueles excessos que dantes exigiam um parágrafo inteiro de adjectivação. “Tremendismo”, assim, é simultânea e concomitantemente a expressão abrangente de tudo o que é abissal, horrível, espantoso, imenso, doloroso, explosivo, sideral, cósmico, com uns pós de “cruas ingerências anatómicas”, especificava Zubiaurre, como sangue, ossos, pele, veias, entranhas. Resumindo, dizia o filósofo, o tremendismo representa o “estalo, violentíssimo, do vulcão” («O tremendismo», José Júdice, Metro, 27.2.2008, p. 12).

Terminologia militar

Dicionário

Na Internet, por vezes, uma simples palavra conduz-nos a tesouros. Foi assim que encontrei o English-Portuguese Dictionary of Military Terminology, um projecto da Military Review. Tem 929 páginas e está aqui.

Acordo Ortográfico

Resolvam-se

      «Gosto da minha língua tal qual a escrevo, mas não posso impor a 150 milhões de pessoas os meus gostos pessoais. Mas recordo que aprendi a escrever mãe com ‘e’, depois mandaram-me escrever com ‘i’ e depois voltaram a mandar escrever com ‘e’, quando a mãe era sempre a mesma”, sublinhou Saramago» («Acordo Ortográfico. José Saramago critica impasse», Global, 27.2.2008, p. 6).

Tradução: «pellet»

Imagem: http://www.duconsult.com/

Pastilhas para a lareira



       Ração para animais? Não. «Jack Murphy of Winchendon, Mass., has long burned wood in his home, but he was tired of buying and splitting the wood, feeding the stove and cleaning the ash. He switched to a pellet stove last year» («With Oil Prices Rising, Wood Makes a Comeback», Katie Zezima, The New York Times, 19.2.2008). Na tradução do Jornal do Brasil, ficou: «Jack Murphy de Winchendon, Massachusetts, há muito queima madeira em sua casa, mas cansou de comprar e partir a madeira, e de limpar a sujeira. Trocou, no ano passado, o fogão antigo por outro à base de pastilhas de madeira» («De volta aos aquecedores a lenha», 24.2.2008, p. E8). Muito bem: o tradutor optou por verter o vocábulo inglês pellet (bolinha de papel, de pão, etc., grão, pílula, pastilha…) por «pastilha de madeira». Em Portugal, em que é mais comum ver à venda briquetes (quase o mesmo que os pellets, apenas com a diferença de que os briquetes são o resultado da compactação de resíduos ligno-celulósicos, sob pressão e temperatura elevadas, tais como galhos e cascas de árvores, aparas de madeira, serragem, pó de lixa, maravalhas, bagaço de cana-de-açúcar, casca de arroz, palha e sabugo de milho, etc.), os pellets são vendidos sob o nome de… pellets. São usados como combustível em fogões, lareiras, salamandras, recuperadores de calor e caldeiras industriais e caseiras.

«Expulsação»?

Podia ser

Não há como negá-lo: podia existir. Mas não existe. Existe «expulsamento» e «expulsão». Esta é a acção de expulsar, de escorraçar, de pôr fora de um país, de um lugar, de uma companhia. É um despejo. Em medicina, é a acção de fazer sair, de fazer evacuar. Vamos a isto: «O presidente do Sudão, Omar el-Beshir, anunciou a expulsação de organizações dinamarquesas e o boicote de produtos daquele país nórdico» («Sudão expulsa e faz boicote de produtos», Destak, 25.2.2008, p. 25). E o jornal tem revisão…

Léxico: «estaca»

Últimos dias

«“O domingo é um dia diferente. Tentamos não fazer compras, não ir ao cinema”, explica Afonso Alcântara Martins. O presidente da estaca de Oeiras, uma das seis unidades administrativas da Igreja em Portugal, é uma das pessoas que presidem à celebração conduzida pelo bispo António Costa. […] Fundada nos EUA em 1820, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias chegou ao nosso país em 1974, quando a Revolução de 25 de Abril abriu as fronteiras aos missionários. Hoje, há 38 mil mórmones em Portugal, divididos por seis estacas e 77 congregações. […] Fundada por Joseph Smith, que aos 14 anos terá sido “escolhido por Deus” para restaurar a verdadeira Igreja de Cristo na Terra, a Igreja Mórmon foi ganhando membros no mundo graças ao trabalho missionário. Com as camisas brancas e crachás com o nome, os elders (“anciãos” em inglês) trabalham dois a dois, batem às portas e abordam as pessoas para espalhar a sua mensagem» («Descobrir Cristo em versão americana», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.2.2008, pp. 2-3). A estaca é uma circunscrição aproximadamente igual à diocese da Igreja Católica. O nome, algo estranho para designar tal conceito, vem de um versículo bíblico: «Alarga o espaço da tua tenda, estende sem medo as lonas que te abrigam, e estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas» (Isaías, 54,2).

Tradução: «snitch»

Menos formal

A Incrível Família Brady (The Brady Bunch Movie, no original, uma comédia de Betty Thomas), anteontem, no canal Hollywood. Numa família de sete irmãos, a mais nova, Cindy, tem uma acentuada propensão para a denúncia e os mexericos. O pai, numa conversa edificante, diz-lhe que não deve ser snitch, que o tradutor verteu para «delatora». Certo, que também o é, mas o contexto e o registo — um pai a falar com uma filha de seis anos — pedia ali que se traduzisse por «queixinhas». Num contexto semelhante, vi há pouco uma tradução do espanhol, em que surgia a palavra acuseta (que tem a variante acusete), sinónimo de acusón e soplón, e o tradutor optou, e muito bem, por verter por «queixinhas».

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