«Anti-Semitic» e «back-stabbing»

Refalsados

Depois de afirmar que «o treinador israelita da equipa de futebol do Chelsea, Avram Grant, recebeu ontem ameaças de morte de carácter anti-judeu, acompanhadas de um pó misterioso», o Meia Hora acrescenta: «De acordo com uma fonte policial anónima, citada pela agência Press Association, lia-se na mensagem: “Tu és um sacana de um judeu, que apunhala pelas costas. Quando abrires esta carta, morrerás de uma morte muito lenta e dolorosa.”» («Treinador do Chelsea ameaçado de morte», Meia Hora, 21.2.2008, p. 15). Se fossem inteligentes (ou lessem este blogue, o que seria um bom sucedâneo), optavam por escrever, como quase toda a imprensa, «ameaças anti-semitas», e nunca erravam. Em contrapartida, este jornal tem a seu favor ter transcrito, e traduzido, toda a mensagem, ao contrário de quase toda a imprensa portuguesa, que omite a primeira frase: «A police source revealed that a note inside the package included the words: “You are a back-stabbing Jewish b******. When you open this letter you will die a very slow and painful death.”» Os asteriscos, e o resto, são do Mirror. Não precisava era de ser tão literal. Podia ser: «És um refalsado, um sacana de um judeu.»

Entrada e «couvert»

Assim não falham

Nem sequer um dos jornais em que li a notícia da sugestão da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC) deixou de usar, no mesmo texto, as palavras «couvert» e «entrada». Todos têm a primeira, «couvert», no título, e todos se vêem na necessidade de lançar mão da segunda, «entrada». Isto é muito estranho. Todos parecem reconhecer que os termos se equivalem, mas todos receiam que haja quem não saiba o que é uma entrada. Alguns dos jornais até envolveram cuidadosamente a entrada em aspas, qual celofane, não venha aí a ASAE e lhes aplique uma coima.

Acabou-se o «plafond»

Ainda há esperança

      Nem tudo é mau. Nem tudo está perdido. Até os jornais gratuitos se esforçam agora por escrever correctamente. Ora veja-se: «Saúde. Os cheques-dentista, que terão tectos máximos anuais de 120 euros para as grávidas e de 80 euros para os idosos, podem ser usados a partir de 1 de Março» (Destak, 20.2.2008, p. 5). Sim, acabou-se o plafond, esse tão desnecessário galicismo. Tecto por tecto, temos o nosso, que abriga tão bem como os franceses, e é igualmente eficaz como limite de despesas permitidas. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista: «plafond. s. m. (Fr.). Fin. V. plafom.» Ou seja, sugeria-nos que escrevêssemos «plafom». Esqueceram-se de incontáveis palavras, mas não destas parvoíces.


Léxico: «limpa-trilhos»


The coupler, the vacuum pipe and part of the cattle guard of the loco KWV ZDM 4A #206.
(Engate, tubo de vácuo e parte do limpa-trilhos da locomotiva KWV ZDM 4A #206.)
Foto de Ashish Kuvelkar


Grelha? Guia?




      É, no mínimo, interessante este paralelismo: nem no português europeu nem no espanhol europeu existe uma palavra específica para designar a grelha que as locomotivas têm à frente, como a que se vê na imagem. Contudo, tanto o português do Brasil como o espanhol da América Latina têm um termo. No Brasil, essa grelha designa-se «limpa-trilhos». Na Argentina e no Uruguai, tem o nome de miriñaque — sim, o nosso merinaque, a crinolina, pelas semelhanças que apresenta com esta peça antiga do vestuário feminino. Parece ter sido Isaac Dripps, da Camdem & Amboy, quem concebeu esta peça. E para quê? A palavra que os Brasileiros criaram e usam é sugestiva: para limpar a via. Por isso também se chama «saca-boi». Aliás, também as locomotivas inglesas não tinham cattle guard, pois era uma peça mais adequada às condições naturais e da via nas Américas: grandes desfiladeiros, com derrocadas frequentes, animais selvagens a atravessar a via, etc. Até os corajosos e, no caso, ignorantes, índios eram varridos.


Tradução: «mentidero»

Por mim


      É verdade, não há como negá-lo, que a palavra espanhola mentidero tem no vocábulo português «soalheiro» um possível correspondente. Mas este não tem a ínfima parte da força sugestiva daquela. E, se temos largos milhares de palavras vindas directamente do espanhol, que se foram incrustando na nossa língua, não vejo problema em usar «mentideiro», de resto já dicionarizado. Por outro lado, «soalheiro» é palavra basto perigosa: não a confundem os nossos tradutores e jornalistas com «solarengo»? Então?

Léxico: «chapa»

Quase minimachimbombo

Polissémico, o vocábulo «chapa». Infelizmente, não há um dicionário da lusofonia digno desse nome que registe, a par de tudo o que conhecemos na variante europeia do português, os vocábulos em uso nos restantes países em que se fala o português. Mera utopia, eu sei. Em relação a isto, contentar-me-ia com uma tentativa. Adivinharam: tudo por causa dos recentes acontecimentos em Maputo, uma diferente acepção do vocábulo «chapa» entrou no nosso léxico. Os jornais registaram-no: «A caminho do trabalho, na terça-feira de manhã, apercebi-me [Dr.ª Inês Zimba, médica no centro de saúde do bairro de Benfica, nos subúrbios de Maputo] que estava a acontecer algo porque não havia chapas — transportes privados semicolectivos — e vi muitos estudantes a caminharem para a baixa de Maputo» («Um susto em Maputo», Paola Rolletta, Expresso, 9.2.2008, p. 48). E se o condutor de táxi é taxista, o condutor de chapa é chapista.

Léxico: «binómio»

A coisa mete cães



      Suponhamos que um extraterrestre — ou, para os maluquinhos da realidade, da verosimilhança, um brasileiro — topava com este trecho de uma notícia: «Desde o início da tarde até ao cair da noite as buscas — feitas no leito do rio até à foz por bombeiros e binómios da PSP — revelaram-se infrutíferas, mas vão prosseguir hoje» («Não chovia tanto há 24 anos», Carla Marina Mendes e João Moniz, Destak, 19.2.2008, p. 6). O que pensaria o nosso extraterrestre — ou o nosso brasileiro, para os maluquinhos da verosimilhança? Isto passou-se muito, muito depressa e debaixo do nosso nariz. Primeiro, eram os «binómios cinotécnicos»: equipas de um homem e um cão. Um guarda da GNR, por exemplo, e um golden retriever. Coisa esquisita, mas algum nome haviam de ter. Depois, há muito pouco tempo, passou a ser «binómio homem-cão». Agora, o vocábulo surge despojado de outro apoio: «binómio».


Tradução: «pescante»

Imagem: http://picasaweb.google.com/canibalitops10/Feria2/

Assim não


Nas traduções, acho sempre lamentável que se não acompanhe a riqueza lexical do original. Assim, se o original, espanhol, diz «pescante», porque havemos de empobrecer o texto traduzindo por «assento»? Será a intenção paternalista — que pessoalmente reputo execrável — de ajudar o leitor ou, mais simplesmente, a ignorância do tradutor? O espanhol, valha-me Deus, também tem «asiento»! Pescante é, em português, «boleia». Quanto a pescante, na definição do DRAE: «En los carruajes, asiento exterior desde donde el cochero gobierna las mulas o caballos.» Quanto a «boleia», na definição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Assento do cocheiro.»

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