Tradução


Estamos tantalizados


      Ontem, Matt James, dos Jardins por Medida (The City Gardener, no original), na Sic Mulher, concebeu e construiu um jardim em Glasgow. Lindo. Para delimitar as bordas dos caminhos (de Highland pebbles e Scottish cobbles) que se vêem na imagem acima, usou… Bem, usou o que se vê, e que na legenda se podia ler: «barrotes tantalizados»! A tradução é de Cristina Diamantino, da PSB. Primeiro: o que se vê ali não são barrotes*, mas postes. Um barrote é uma peça de madeira de secção reduzida, para soalhos, tectos, etc. «Tantalizados»? Experimentem ir ao Aki perguntar por «barrotes tantalizados». Na Postes Carmo, decerto a maior empresa de produção e comercialização de produtos similares, este material tem o nome de postes torneados. Como os postes para vinhas. Claro, «tantalizado» existe: vem de Tântalo, o da mitologia grega. Tantalizar é atormentar, fazer sofrer com o desejo de coisas impossíveis — como a tradução e a legendagem das séries e filmes serem decentes.


* Uma vez que os barrotes também se usam na construção de um telhado tradicional, recordo-me de, ainda recentemente, ter visto traduzida a expressão inglesa roof struts como «escoras da cobertura». Ora, nem todos os tradutores podem perceber de carpintaria como eu percebo, mas ainda há dicionários. Roof struts são as asnas do telhado.

Ortografia: «higiossanitário»

Ginjinha do Rossio

      Do Diário da República ao Diário Digital, passando pelo Público, pelo Jornal de Notícias e muitos outros jornais, lemos que a ASAE fiscaliza e fecha estabelecimentos por falta de condições «higio-sanitárias». O Diário de Notícias, pelo contrário, fala em «condições higiossanitárias». O Ministério da Agricultura fez mesmo publicar, certa vez, uma declaração de rectificação (a n.º 16-I/2000) só para dizer que em determinada portaria, onde se lia «higiossanitárias», devia ler-se «hígio-sanitárias». Não uma mas duas alterações. Para pior. Da autoria, parece, de algum adepto da grafia sónica, de má memória. Outro grupo de publicações segue uma quarta mas aproximada via: grafa «higio-sanitárias». Pois bem, desta vez o Diário de Notícias tem razão. Não vamos regatear-lha. Ah, sim: é assim, higiossanitário, porque higio é um antepositivo.

Tradução: «Aldis lamp»

Imagem: http://www.faradic.net/

Pestaneja


Caro A. M. L.: a «Aldis lamp» não é a lâmpada de Aladino. É um aparelho de sinalização visual, usado a bordo de navios e em aeroportos, para enviar mensagens em código Morse. É, basicamente, uma lâmpada portátil, como a imagem mostra, que certamente já viu em filmes. Tradução? Pois lâmpada Aldis. Ou lâmpada de sinalização diurna. O nome provém do inventor, o inglês A. C. W. Aldis (1878-1953). Em inglês tem também o nome de blinker, «que pestaneja», e o seu operador, signalman. E blinker porque o aparelho tem shutters, «persianas» (que na imagem se vêem abertas), assemelhando-se o todo a um olho gigante que pisca, pestaneja.

Qualquer-coisa-chave (i)

Oh donkey’s years. Long ago…

Quando tiver idade para fazer um Je me souviens à Georges Perec apenas relativo à língua (vejam como desbarato ideias!), uma das primeiras recordações será esta: lembro-me de, ainda há pouco tempo, só termos um ou dois vocábulos compostos com «chave». Nesses tempos, lembro-me bem, mesmo só «palavra-chave» destoava um pouco, aos meus olhos de adolescente. Mas agora? É um fartote. Tudo é qualquer-coisa-chave. Culpados: os jornalistas e os tradutores. «Olha», exulta um tradutor, «está aqui uma chave: “One of the key discoveries…” It’s easy as pie: Uma das descobertas-chave…» «Eh lá», exaspera-se um revisor, «outra porra de chave: “Uma das descobertas-chave…” É canja: Uma das principais descobertas…»

Verbo «obstruir»

É lá consigo

Bem podem algumas gramáticas consignar taxativamente que o verbo «obstruir» se conjuga como «construir» — ninguém me apanhará a dizer «obstrói». Eu é que acabei de apanhar o psicólogo Eduardo Sá, nos Dias do Avesso, em conversa com Isabel Stiwell, com a sua voz sumidíssimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, a pronunciar «obstrói».

Tradução: «principiel»

Pois é

A língua portuguesa tem algum adjectivo relativo ao substantivo «princípio(s)»? Desconheço — mas fazia falta. Assim, como devemos traduzir a frase «Mais les liens entre nombres, choses et affects semblent ici principiels»? Estão aqui a propor-me que traduza principiels por «axiológicos». Mas «axiológico», objecto, diz respeito aos valores e não aos princípios. E princípios não são valores, nem a ema é um pássaro. Três vias se nos apresentam: deixar o estrangeirismo; adaptar para o português; encontrar uma expressão. Temos assim, por ordem:

1. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiels
2. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiais
3. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui dizer respeito aos princípios

O uso do vocábulo «luso»

Isto não é normal

      Antigamente, os únicos Lusos conhecidos eram os garrafões da água mineral com esse nome. Hoje, em especial com os jornais gratuitos, os jornalistas começaram a desbastar no uso do substantivo «português» (e no plural, «Portugueses»). É o estilo e a falta dele. «Cerca de 1800 lusos presos no estrangeiro» (Meia Hora, 28.1.2008, p. 5). Com variações no Destak: «Quase 1800 lusos detidos no estrangeiro» (28.1.2008, p. 6). E ainda neste jornal: «Lusos divorciam-se mais após idade adulta de filhos» (Destak, 28.1.2008, p. 6). «O Campeonato da Europa de Maio é o momento decisivo da época, porque é a derradeira oportunidade para os lusos estarem em Pequim, o que seria a sexta participação consecutiva nos Jogos («Portugal em estágio com os melhores», Meia Hora, 25.1.2008, p. 19). «Doenças inflamatórias afectam 12500 lusos» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 5). «Lusos discretos no mundial de Finn» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «O piloto luso vai disputar seis das oito provas pontuáveis possíveis: Suécia, Grécia, Turquia, Nova Zelândia, Japão e Grã-Bretanha» («A caminho do penta sem rival», Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «Pintasilgo recordada como “figura política do catolicismo” luso» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 23). «Maria Carrilho, do Instituto de Estudos Estratégicos, diz que a comunidade islâmica lusa ambiciona a paz e o desenvolvimento» (Meia Hora, 21.1.2008, p. 1). E por aí fora.

Léxico contrastivo: «lousa electrónica»

Zulus e Brasileiros

«O bom e velho quadro negro já ficou verde, virou branco e agora é multicor. Uma das últimas novidades em relação a lousas utilizadas em salas de aula é a tela eletrônica interativa (Smart Board) que permite, ao mesmo tempo, a exibição de imagens de computador, incluindo filmes e animações, e a escrita manual. Além disso, tudo o que acontece na lousa, durante as aulas, pode ser gravado em CD ROM, além da própria voz do professor. ­A lousa torna as aulas mais atrativas e a possibilidade da gravação em CD ROM permite a avaliação da qualidade das aulas pela direção da escola e também pelos próprios pais dos alunos, que podem levar a aula inteira para casa» («Lousa eletrônica torna aula interativa», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 28.1.2008, p. A24). É um processo muito comum: a partir do que se conhece, atribui-se, por analogia, nome a novos objectos: os Zulus chamam ao telemóvel ’uMakhalekhukhwini, «grito no bolso».

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