Ortografia: videoconferência

A propósito

      «E-mail e vídeo-conferência no televisor lá de casa» (Nuno Sá Lourenço, Público/Digital, 30.06.07, p. 7). O Público insiste em grafar desta forma a palavra, embora não ignore que o elemento video- se solda sempre ao elemento que se segue: videoalarme, videoamador, videocâmara, videocassete, videofone, videografia, videojornal, videoteca…      Mais à frente: «Uma das soluções que estamos a estudar é receber no televisor as suas mensagens. Ou [,] por exemplo, vídeoconferência no mesmo televisor.» Pelo acento agudo, percebe-se que falta o hífen repetido na linha de baixo. Faltará mesmo? Lembram-se das instruções para as propostas de escrita das provas de aferição de Português? Pois bem, recordem-se que são erros ortográficos, entre outros (e o perigo de esta indicação não ser taxativa está à vista), a «ausência de duplo hífen na translineação de palavras com hífen». Isto é o que toda a gente diz, se bem que as gramáticas e prontuários afirmem algo diverso: «Como se sabe, o hífen usa-se no final de uma linha, se é necessário partir a palavra para continuá-la na linha seguinte. No caso de a palavra já conter em si um hífen e partir por aí no final da linha, é preferível repetir o hífen na linha seguinte, pois a escrita ficará mais clara» (Novo Prontuário Ortográfico, José Manuel de Castro Pinto, 2.ª ed., Plátano Editora, 2002, p. 179). Preferível. Não me parece muito judicioso tornar obrigatório o que sempre foi opcional.

Léxico: «edêntulo»

Assim não morde


      A leitora Ana Correia quer saber o que significa «edêntulo», pois não vê a palavra dicionarizada. Não sei se viu ou ouviu a palavra isolada ou, pelo contrário, inserida numa frase. Se foi isto que aconteceu, estava decerto a qualificar, pois é um adjectivo, uma «mandíbula» ou um «maxilar». É conversa de dentistas, pois o vocábulo pertence ao léxico especializado desta profissão. Edêntulo, que provém do latim edentŭlus,a,um, significa desprovido de dentes, desdentado. Está registado no Dicionário Houaiss.



Topónimos estrangeiros

Imagem: http://www.zingtech.com/

Quente, quente…

«Num artigo sobre a construção do futuro aeroporto, um investigador do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT), Richard de Neufville, agradece ao Governo português por este, através da assinatura de um acordo com o departamento de engenharia de sistemas desta universidade norte-americana, estar “a providenciar um importante apoio financeiro para o trabalho [do MIT] em planeamento de sistemas de aeroportos, concepção e gestão” (Público 21/06/07)» («Que modelo de universidade?», São José Almeida, Público, 30.06.07, p. 46). Não é verdade. O investigador é do Massachusetts Institute of Technology. Não está no Livro de Estilo, não é assim? Pois devia estar, já que é topónimo em que raramente se acerta.

Latim

É uma maneira de dizer

«[Correia de Campos] Exaltado, com razão — ali não era o local adequado para aquela questão — deixou vir ao de cima a formação jurídica que possui, ao referir, em latim, que não havia mal pelo facto de em 1989 ter participado num trabalho financiado por aquela multinacional farmacêutica e de ter requisitado um empregado daquela empresa para seu assessor, em tempo que não ficou bem definido» («O ministro da Saúde na Ordem dos Economistas», António Lares dos Santos, Público, 30.07.2007, p. 47). Não há escapatória: ou a frase está mal escrita ou o ministro é muito mais culto do que eu, preconceituosamente porventura, julgava. Só para não desmentir o meu cepticismo, opto pela primeira hipótese. Havia de ser bonito ver o ministro a dizer aquilo tudo em latim… O que o autor do texto queria escrever é que Correia de Campos usou uma frase ou brocardo latinos para repelir a insinuação. Qual, não sei; há milhares. Eu próprio tenho a cabeça cheia de brocardos, para o que der e vier. Talvez o ministro tenha exclamado Malitiis non est indulgendum, tendo depois pespegado um murro atroador na mesa, entornando a água, normalmente do Luso, imprudentemente despejada até ao limite nos copos dos oradores. Ou, sei lá, fiado na ignorância clássica (sem trocadilho…) dos circunstantes e com uma memória pouco colaborante, ter dito Mater sempre certa est.

Ortografia: contrapoder

Do contra

«A universidade é, desde a Idade Média, um espaço de liberdade, de procura de conhecimento e do diverso, de contra-poder até» («Que modelo de universidade?», São José Almeida, Público, 30.06.07, p. 46). De contrapoder será. Ou talvez queiram desmerecer a abonação do Dicionário da Academia: «contrapoder s. m. (De contra + poder). Força, poder que se opõe a uma autoridade estabelecida. “Uma sondagem […] revela que 51 por cento dos franceses deseja que o Presidente fique no Eliseu até 1995, quase como um contrapoder à maioria esmagadora” (Público, 30.3.1993).»

Plural dos apelidos

Os Silvas e os tradutores

      Como a ignorância persiste, volto ao tema. «No one knows this better than author and clinical psychologist Bill Anthony. A third-generation napper, he and his wife, Camille, instilled in their family a healthy appreciation for napping. With grandchildren of their own, the Anthonys have now perpetuated the tradition into the fifth generation.» Como podem ver, até em inglês se pluralizam os apelidos — embora os tradutores não o saibam.
      Vejam então como é em inglês: «When a family name (a proper noun) is pluralized, we almost always simply add an “s.” So we go to visit the Smiths, the Kennedys, the Grays, etc. When a family name ends in s, x, ch, sh, or z, however, we form the plural by added -es, as in the Marches, the Joneses, the Maddoxes, the Bushes, the Rodriguezes. Do not form a family name plural by using an apostrophe; that device is reserved for creating possessive forms.
      When a proper noun ends in an “s” with a hard “z” sound, we don’t add any ending to form the plural: “The Chambers are coming to dinner” (not the Chamberses); “The Hodges used to live here” (not the Hodgeses). There are exceptions even to this: we say “The Joneses are coming over,” and we’d probably write “The Stevenses are coming, too.”»

Erros e gralhas


Eros e tralhas
Erros e gralhas



      Está, admitamo-lo já, no sítio certo: na rubrica «Errâncias» (p. 14), do Público/Fugas de hoje. O paginador esqueceu-se deste trecho de latim tapa-buracos. Ninguém deu por nada, de tão habituados que estão a ler os clássicos latinos. E lá temos o leitor exigente deste jornal de referência pollice verso. Mais um caso para o provedor. E, porque de errâncias se trata, lembro-me agora que a palavra espanhola proveedor («fornecedor») costuma ser mal traduzida por «provedor». Mas o provedor dos leitores espanhol é o defensor del lector. Talvez (?) menos grave do que confundir EPAL, IPPAR e EPUL, mas ainda assim pouco abonatório dos conhecimentos dos tradutores.

Gramática

Perdidos e achados

Se fizermos uma pesquisa no Google ao nome Manuel de Faria Calvet de Magalhães, só obtemos dois resultados: um num site brasileiro, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, outro num site português, da Biblioteca do Supremo Tribunal de Justiça, ambos referentes ao Dicionário Trilingue: Português, Francês e Inglês, publicado em 1960 pela Editorial Confluência. Está assim no limbo uma gramática — Gramática Prática da Língua Portuguesa — do mesmo autor que supera muitas das gramáticas escolares actuais. A secção dos barbarismos e solecismos devia ainda hoje figurar em qualquer gramática, tal como a secção sobre os usos do infinitivo, os empregos das preposições e a construção da perifrástica. Um bom serviço seria uma editora reeditar esta obra de tão grande utilidade.

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