Bode expiatório

Vai para longe

Contaram-me, certa vez, que um homem pernóstico de Ferreira do Alentejo (ou seria de Grândola?) dizia convictamente «bode respiratório». Um dia tinha de acontecer: um tradutor escreveu «bode expiratório», o que constitui uma aproximação muito razoável. Dizia o original: «Buscar un cabeza de turco: no le gustaría a outra persona (por ejemplo, de la oficina central).» E a tradução: «Procurar um bode expiratório: não agradaria a outra pessoa (por exemplo, do escritório central).» Esta é a oportunidade para dizer que os termos inglês e francês são muito mais claros, quase auto-explicativos: scapegoat e bouc émissaire. Em espanhol também se diz chivo expiatorio. A explicação está na Bíblia, em Levítico 16: 8-10: «Aarão tirará à sorte os dois bodes: um para o Senhor e outro para Azazel. Aarão deverá oferecer ao Senhor o bode que a sorte designou para tal, apresentando-o em sacrifício pelo pecado; e o bode, que a sorte designou para Azazel, deverá ser apresentado vivo diante do Senhor, a fim de fazer sobre ele o rito da purificação e ser enviado a Azazel, no deserto.» Era pois por meio de um bode que os Judeus expiavam as suas culpas diante do Senhor. Como o bode era carregado, no Dia do Perdão, com as culpas dos homens e enviado para o deserto, a expressão passou a designar o inocente sobre quem recaem as culpas dos outros. No original, o termo traduzido por bode expiatório era hazazel (que está dicionarizado em português com este mesmo significado), presumivelmente o nome de um demónio do deserto, embora, ao que parece, não se trate de um vocábulo hebraico. O próprio ritual terá tido origem entre os antigos Egípcios.

Léxico: «poceiro»

Poceiro no Quénia: http://ngishili.com/

Mais uma cavadela


      Ainda haverá poceiros em Portugal? Bem, isso agora talvez não interesse tanto como saber que a palavra inglesa well-digger se traduz assim, o que é, francamente, muito melhor do que «cavador de poços». Em qualquer circunstância, aliás, é melhor uma palavra do que uma locução. Poceiro vem do latim putearĭus. Na Índia e em África, isso é certo, há poceiros. Regozijemo-nos: a Academia das Ciências de Lisboa não extraviou este verbete.

Léxico: oxímetro

Imagem: http://www.unmc.edu/

Paciente impaciente


Um leitor, claramente aflito, pergunta-me que nome tem o «gadget» que nos hospitais e clínicas põem na ponta do dedo dos pacientes que vão ser operados. Bem, comecemos pelo gadget: em português, diz-se instrumento, aparelho, dispositivo, mecanismo… Engenhoca, se quiser. Não diga nem escreva, por amor de Deus, gadget. Sim, em português tem o nome de oxímetro, e mede a saturação em oxigénio da hemoglobina no sangue arterial do operando.

Etimologia: «rameira»

Fantasias etílicas

      Gosto muito, confesso, da palavra «rameira». Felizmente, faltam-me oportunidades de a usar. Conhecem os meus leitores a etimologia desta palavra? Para o Dicionário Houaiss, «era o nome dado no sXV, em Portugal, às frequentadoras de tabernas que, para assinalarem a sua presença, ostentavam na porta ramos de árvores». Está-se mesmo a ver: estas senhoras, digamos assim, iam para as tabernas e, debaixo do braço ou entre as anáguas, levavam um ramo, que penduravam mal chegavam ao seu destino. Um prostíbulo ambulante, um lupanar desmontável. Custa menos a crer na versão que já conhecia: na Idade Média, na península Ibérica, e não somente em Portugal, começou a usar-se um ramo na porta das tabernas para indicar que não era uma casa particular. (Na minha infância, passada numa rua onde havia uma taberna (em que certa vez, na companhia de dois amigos, todos com menos de dez anos, descobrimos como o argal nos permitia beber comodamente do barrilete de vinho abafado), lembro-me de ver pendurado um ramo de louro.) Na mesma época, as prostitutas perceberam que a melhor forma de dissimularem a sua actividade, ao mesmo tempo que atraíam clientes, era pendurarem um ramo como nas tabernas. Passaram então a ser, eufemisticamente, conhecidas por rameiras. Contudo, e é bom que se saiba, há quem ligue antes a palavra ao latino ramus, membro viril. Em espanhol, a palavra ramera, com o mesmo significado, existe desde o final do século XV.

Uso da vírgula com vocativo

Olá, Meia Hora

Veio parar-me às mãos a edição n.º 4 do novíssimo gratuito Meia Hora, que se propõe competir com os jornais de referência pagos. É essa a ambição e, digamo-lo com franqueza, não começou mal. Mas nem tudo está bem, e a primeira página dá logo um sinal de alarme: «Adeus Ota, olá Alcochete». Pois é, mas «Ota» e «Alcochete» são vocativos, pelo que nos ficam a dever duas vírgulas. Se alguém conhecer Sílvia Lobo, a revisora, por favor diga-lhe. Afinal, a revisora até talvez saiba, porque na última página se pode ler: «Olé, Doutor Allen!» Talvez suspeite que com topónimos não se pode falar, não vão os leitores julgar-nos doidos. E nós somos sain d’esprit. Ou será saint d’esprit?

Bolsar e bolçar, outra vez

Cala a boca



      É muito estranho que numa revista como a Crescer com Saúde, do grupo Impala, uma revista dedicada, como o nome sugere, exclusivamente às crianças, não se escreva correctamente a palavra «bolçar». Na secção de cartas dos leitores, não apenas não corrigiram o que um leitor escrevia, como também na resposta deram o mesmo erro: «Por sua vez, o bolsar não tem qualquer importância, já que faz parte da imaturidade do sistema digestivo» (Crescer com Saúde, Junho de 2007, p. 90). Bolsar, já aqui o escrevi uma vez, significa fazer bolsos e foles (um vestido mal talhado, por exemplo). Deveriam ter escrito «bolçar», isto é, vomitar. Bolçar e vomitar provêm do mesmo étimo latino, sendo assim palavras divergentes ou alótropos. Através de vários fenómenos fonéticos, de vomitiare (intensivo de vomere) chegou-se a bolçar. Esta última costuma aplicar-se mais às criancinhas de colo. Voltei à questão porque ainda recentemente vi o mesmo erro numa tradução de um tradutor conceituado. Algo está mal.


Tradução: «smoking gun»

Pólvora seca


      Dizia o original: «That, along with the fact that thousands of rocks at the crater site had been smashed to bits around the same time as the iridium appeared, is the smoking gun for the impact theory.» O tradutor passou a correr pela frase e achou que no-la podia restituir em português assim: «Esse facto, juntamente com os milhares de rochas no local da cratera que foram reduzidos a pedacinhos por volta da mesma altura em que o irídio apareceu, é a arma de fogo para a teoria do impacto.» Perfeitamente — mas o que significa? A locução smoking gun deverá traduzir-se por «fumo da espingarda», nada mais literal. E assim já se percebe: os tais factos são um indício seguro de que houve um impacto, como indício seguro de uma arma ter sido usada é o facto de provir fumo do seu cano. E para fazer esta dedução não é preciso ser Sherlock Holmes, basta saber ler e pensar. Elementar.

Conversão (I)

Botas das sete léguas

      Não é raro que nas traduções surjam medidas de sistemas de unidades que nos são estranhos. Que sentido faz para o leitor português médio — que já nem sequer sabe a quanto equivale uma arroba — que num texto surjam milhas ou polegadas ou galões? (Claro que sim: milhas para quilómetros multiplica-se por 1,61, polegadas para centímetros, por 2,54, galões para litros, por 4,55.) Com as moedas acontece o mesmo. «Wages also differ and range from as low as Kshs 120 to Kshs 200 (USD 1.8 to 3) a day. Assuming that one earns an average of Kshs 150 a day for six days a week, one takes home a salary of Kshs 4,500 (USD 70) per month.» Apesar de tudo, os dólares não são a melhor referência para o leitor, pelo que se deve sempre converter directamente para euros. A Internet dispõe de alguns conversores. Aprecio particularmente este. Logo, seria qualquer coisa como: «Os salários também diferem e variam de tão pouco quanto 120 a 200 xelins quenianos (1,35 a 2,26 euros) por dia. Supondo que se ganha uma média de 150 xelins por dia durante seis dias por semana, leva-se para casa um salário de 3900 xelins (44 euros) por mês.» Tratando-se, como é o caso, de um texto jornalístico actual, o câmbio deverá ser feito ao dia. Contudo, se estivermos perante uma tradução (ou qualquer texto em que se tenha necessidade de fazer o mesmo) de um texto de 1999, por exemplo, o câmbio será o dessa data, como é óbvio mas tão esquecido. Em 10 de Junho de 1999, por exemplo, 3900 xelins quenianos valiam 10 572 escudos.

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