Selecção vocabular

Ao lado

Tiro um jornal da pilha que tenho ao meu lado. Sai um Diário de Notícias. Vejamos a selecção vocabular em duas notícias. Uma delas dizia: «Coincidência. Pedra extraterrestre da ficção tem sósia numa mina da Sérvia» («Novo mineral tem a mesma composição da criptonite, Filomena Naves, 25.4.2007, p. 14). «Sósia»? Quando hoje em dia se abusa das aspas, aqui, que deviam ser usadas — na falta de um termo adequado, por não ocorrer à jornalista —, não o foram. Entre infinitas, duas soluções: «Pedra extraterrestre da ficção tem cópia perfeita numa mina da Sérvia.» «Pedra extraterrestre da ficção materializa-se numa mina da Sérvia.» A pressa com que os jornalistas escrevem não explica tudo. Na maioria das vezes, fazer bem ou fazer mal demora o mesmo tempo.
Outra notícia no mesmo jornal: «Todos os dias, a sua mãe, Ursula, espera-a [sic] no topo com um carro velho e lamacento que nem sequer tem placa de matrícula» («Túnel traz modernidade a vale isolado dos Alpes», Helena Tecedeiro, 25.04.2007, p. 30). Bem podemos pesquisar em qualquer corpus do português, o adjectivo somente qualifica termos como «terreno», «chão», «piso», «pavimento», «campo», «rio». Um objecto, umas botas, um automóvel, um jornal que caiu ao chão estarão enlameados.

Apostila ao Ciberdúvidas

Ciberduvidoso

      Da Guarda, um consulente perguntou ao Ciberdúvidas se o vocábulo «politólogo» já entrou na língua portuguesa. Depois de dar a definição do Dicionário Eletrônico Houaiss (brasileiro), o consultor, Carlos Marinheiro, afirma que os «dicionários portugueses consultados não regist[r]am qualquer destes vocábulos. Por enquanto...». Os vocábulos referidos eram três: «politólogo», «politicólogo» e «politicologista». Não é assim: o Dicionário Houaiss regista os três e o Dicionário da Academia regista somente o segundo. Ainda estou para ver que dicionários são consultados no Ciberdúvidas.


Uso da vírgula

Principalmente

Há quem julgue — traumas da infância escolar — que os advérbios em -mente devem estar sempre, seja qual for a sua localização na frase ou o sentido que se pretende transmitir, entre vírgulas. Escrevem, por exemplo: «Os meus professores, principalmente, o de Português, não sabem exprimir-se correctamente.» É óbvio que o advérbio se refere especificamente ao professor de Português e não a todos os professores, pelo que a vírgula que se segue ao advérbio está a mais. Os advérbios mais castigados por esta incompreensão são, entre muito poucos, principalmente e nomeadamente. Coisas simples, dirão, mas então porque é que há tanta gente a errar?

Uso da vírgula


Quem sabe, sabe


      Um leitor, H. S., chamou-me a atenção para a novíssima palavra de ordem da RTP2, «Quem vê, quer ver», cuja pontuação considera errada. Trato dessa matéria no meu manual, e lamento, mas discordo. Tal como acontece com os termos paralelos dos adágios e aforismos, o uso da vírgula é de regra: «Quem com ferro mata, com ferro morre.» E porquê, perguntam? Pois porque a vírgula separa orações diferentes, ou não? Não se pode afirmar, suponho, que no caso em apreço temos uma vírgula a separar o sujeito do predicado, pois temos duas orações.
      Nesta matéria, não posso dizer, como Shakespeare, «No, Time, thou shalt not boast that I do change». Mudei: antes pensava que não devia usar-se vírgula em frases deste tipo, justamente porque me parecia ver ali uma vírgula a separar — crime de lesa-gramática — o sujeito, «quem», do predicado, «quer ver». Só não via o «vê». Como quando procuramos desesperadamente a esferográfica e a temos na mão.
      A tempo o digo para não mo dizerem: se consultarmos, por exemplo, O Grande Livro dos Provérbios, de José Pedro Machado, veremos que os provérbios com que ilustro os meus argumentos estão registados sem vírgula. Opiniões. Se fosse antes O Grande Livro dos Provérbios de Helder Guégués, teriam vírgula.

Léxico: «clarificado»

Língua no tacho

Cara M. T., o termo técnico usado em culinária para designar o processo que descreve é «clarificado» e não «branqueado». A ghee, por exemplo, largamente usada na culinária indiana, é uma manteiga clarificada, isto é, uma manteiga a que foram retirados os resíduos lácteos e a água, além de impurezas. O que resta é uma gordura límpida e transparente. Clarificam-se também caldos e xaropes. A culinária também tem, é verdade, o processo de branquear, que consiste em cozinhar ligeiramente a carne.

Tradução: «oxymoronic»

Sem equívocos


      Cara Luísa Pinto: não pode pretender traduzir o inglês oxymoronic por «eufemístico» pela simples razão de não ser, nem pouco mais ou menos, a mesma coisa. É o mesmo que confundir já não digo uma alquitarra com um alambique, mas oaristo com aoristo. Parece claro: não temos o adjectivo relativo ao substantivo «oxímoro». A solução está em recorrer a uma expressão — «da natureza do oxímoro» —, o que nem sempre se enquadra no contexto, ou aportuguesar a palavra, e teremos oximorónico. Há quem já o faça: «Segundo a autora o fantástico funciona como um tropo oximorónico em que a contradição entre o possível e o impossível é mantida e desenvolvida» («A Simbólica do Espaço em The Lord of the Rings e Earthsea», Maria do Rosário Monteiro, in www.fcsh.unl.pt/docentes/rmonteiro.

Apostila ao Ciberdúvidas: ternurento

É ver

Um consulente do Ciberdúvidas, Marco Costa, queria saber se a palavra «ternurento» existe ou se, referindo-se a alguém, teria de usar a expressão «dotado de ternura». Esquecera-se de que existe «terno», bem mais interessante e pequena. Foi para isto mesmo que o advertiu o consultor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, que afirmou que o vocábulo «ainda não se encontra registado». O consultor não tem razão: está registado. Ei-lo como penúltimo verbete na página 1005 do Dicionário Actual da Língua Portuguesa, publicado pela Asa: «ternurento, adj. Que se desfaz em ternuras: Marido ternurento. • sin.: afectuoso; carinhoso».

Ortografia: assembleia geral

Pelourinho ou tiro no pé?     


      Nem de propósito: no Pelourinho de ontem, a consultora Maria Regina Rocha, cujas opiniões muito considero, quis elucidar o País sobre a regência do adjectivo «confiante» — o que é louvável. De caminho, deu uma machadada na ortografia oficial — o que é criticável. Veja-se:

«Estar confiante em»
Maria Regina Rocha

Pergunta* a Paulo Teixeira Pinto, a propósito da assembleia-geral do BCP: «Está confiante de uma assembleia-geral pacífica?»
O adjectivo confiante pede um complemento iniciado pela preposição em. Por isso: «Está confiante na realização de uma assembleia-geral pacífica?»

*Jornal da Noite, SIC, 28 de Maio de 2007
30/05/2007»

      E eu que pensava que o Ciberdúvidas advogava isto e isto. Ou a Prof.ª Maria Regina Rocha viu mesmo o hífen a projectar-se, insinuante, da boca do jornalista?

Arquivo do blogue