Apostila ao Ciberdúvidas

Grande ajuda

Um consulente, português a residir na Suíça, pergunta hoje ao Ciberdúvidas se o topónimo Estangnhola tem algum significado. O consultor F. V. P. da Fonseca responde: «Não pode haver nenhum topónimo, ou qualquer outra palavra portuguesa, com a grafia apontada. Só poderia existir Estangola ou Estanhola, que mesmo assim não encontro registados.» Esta impossibilidade, ao que suponho, tinha que ver com o facto de a sequência gnh não existir em português. Ora, se o consultor teve discernimento para apontar possíveis topónimos com uma grafia próxima da que reputava impossível, ainda que não os tenha encontrado (em Portugal não existirão, mas sim em Espanha, pois Estangola de Gerber e Estanhola de los Armèros situam-se ambos nos Pirenéus espanhóis), porque não o teve igualmente para ver que o consulente poderá ter digitado mal (eu sei que foi duas vezes, mas ainda assim) o vocábulo? De facto, é mais provável que o consulente quisesse ter escrito Estanganhola tendo escrito Estangnhola do que outra palavra qualquer, ou não? Quanto a Estanganhola, é o nome de um lugar na freguesia de São Sebastião, no concelho de Rio Maior.

Antropónimo: Aboim

Nomes e apelidos

A leitora T. A. quer saber de onde provém o apelido Aboim. O que primeiro se me oferece dizer é que este apelido foi, como acontece tão frequentemente com outros, primitivamente um nome, tendo passado depois a nome geográfico (lugares do Douro e Minho e também nome de uma ribeira que nasce em Gondomar e vai desaguar no rio Lima, abaixo de Ponte de Lima) e só por último a apelido. Tem origem no genitivo (Abolini) do nome medieval Abolinus. Já quanto à origem deste, a questão é mais intrincada, como pode ver aqui e aqui.

«Suicidário» existe?

Há melhor


      No programa O Silêncio de Sócrates de ontem, na Sic Notícias, o jornalista Ricardo Costa usou o vocábulo «suicidário». Que outras pessoas o usam, mesmo na escrita, sei-o bem. (Recentemente, até vi ser usado com grande abundância «genocidário».) O que devemos perguntar é se está dicionarizado, se está bem formado e se faz falta. Não está dicionarizado, por enquanto. (Mas está registado na MorDebe, por exemplo.) Parece estar bem formado, pois houve recurso ao elemento formador de adjectivos -ário, que já vem do latim e que é extremamente produtivo. Não faz falta, pois existe o adjectivo «suicida». Creio que quem usa este neologismo pretende, ainda que inconscientemente, afastar-se do sentido mais conotado com o ser humano que o adjectivo «suicida» comporta. Parecer-lhes-á, acaso, que em «atitude suicida», «argumento suicida», etc., não há harmonia. Pode também haver influência do francês suicidaire, dicionarizado e muito usado: «A. 1. Qui exprime une intention de suicide; qui pousse au suicide ou qui y aboutit. Vous êtes fous. Je sais ce qui me reste à faire, je ne veux pas parler à des fous. (...) il jeta un regard significatif sur Agnès, un regard suicidaire (DRIEU LA ROCH., Rêv. bourg., 1937, p. 233). Au XIXe siècle apparaît, avec Goethe, l’amour élégiaque, ou suicidaire (Werther) (L. DAUDET, Idées esthét., 1939, p. 168)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée).



 

Gentílico: furiano

Naturais do Darfur

Cara M. L. T., os naturais do Darfur, no Oeste do Sudão, são os Furianos, conforme alguns dicionários portugueses registam, como o Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva. De facto, Darfur significa em árabe «terra dos Fur» (دار فور), ainda que na verdade seja terra de outras etnias que não somente os Fur, tal como os Masaalit e os Zaghawa. Dar, na transliteração do árabe, significa literalmente «casa», como em Dar al-Harb (دار الحرب), «Casa da Guerra», que é uma expressão usada na lei islâmica para designar regiões ou países não muçulmanos, ou Dar al-Islam (دار الإسلام), «Casa da Submissão», para significar o conjunto das regiões ou países sujeitos às leis muçulmanas.
É verdade, este gentílico ainda não consta do Dicionário de Gentílicos e Topónimos, do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), mas já sugeri a sua inclusão.

Informação

ABL responde

A Academia Brasileira de Letras disponibiliza a partir de hoje um consultório de língua portuguesa. «A partir do dia nove de abril, basta preencher o formulário que a equipe executiva dirigida por Sergio Pachá e coordenada pelo acadêmico Evanildo Bechara responderá a todas as dúvidas de pronome, significado das palavras, flexão verbal e nominal, questões de sintaxe e semelhantes.» Ver aqui.

Léxico: uscufe

Imagem: http://www.newn.cam.ac.uk/Skilliter/contact.shtml

Na cabeça

Caro M. T., a cobertura de feltro ou de algodão que os janízaros ou janíçaros, a tropa de elite do Império Otomano entre os séculos XIV e XIX, usavam na cabeça tinha o nome de uscufe. Os janízaros (do turco يكيچرى, «novo soldado»), a propósito, eram crianças cristãs raptadas pelos Turcos principalmente nos Balcãs e treinadas para constituir este corpo especial de protecção do sultão.

Uso do hífen

As regrazinhas

«Não é [José Sócrates] produto do activismo próximo das clivagens anti-autoritárias» («Habilitações», António Costa Pinto, Diário de Notícias, p. 64. Olhe que não, olhe que não. Segundo a Base XXIX, 3.º, do Acordo Ortográfico de 1945, emprega-se o hífen, entre outros, nos seguintes casos: «compostos formados com os prefixos anti, arqui e semi, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por h, i, r ou s: anti-higiénico, anti-ibérico, anti-religioso, anti-semita; arqui-hipérbole, arqui-irmandade, arqui-rabino, arqui-secular; semi-homem, semi-interno, semi-recta, semi-selvagem.» Logo, contrario sensu, deverá escrever-se antiautoritário.

Construção «tratar-se de»

É desta que aprendemos?

      «José Pinto Coelho referiu nunca “ter apresentado queixa à polícia” por considerar “que se tratam de “meras ameaças virtuais”» («PNR restaura cartaz», Eva Cabral, Diário de Notícias, 7.4.2007, p. 5). As aspas, já os meus perspicazes leitores terão reparado, não estão certas: ou sobram ou faltam. Por isso, não sabemos se quem ignora as regras gramaticais é a jornalista se o político. Embora tenha um palpite, não quero deixar, mais uma vez, de dizer que, nestes casos e na minha opinião, o jornalista deve corrigir o que lhe é dito. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Matéria comezinha embora, o que me leva muitas vezes a evitar trazê-la para aqui, é vê-los, aos jornalistas e não só, claudicar nas regras gramaticais.

Arquivo do blogue