Ortografia: «digladiar»

Espera aí

      Que nunca se escreveu tão mal no Público, é asserção que carece de honesta fundamentação, que não tenho. Mais seguramente se pode afirmar que, hoje em dia, no Público, os erros e as gralhas impedem uma leitura fluente e com prazer. Claro, admito que uma parte desta sensação provém de uma possível deformação profissional: habituado a corrigir, a emendar, ver tantas máculas faz alguma mossa na minha boa vontade. Hoje, quero somente falar de um erro na edição de domingo passado. «Não apenas porque passarão a estar realmente frente a frente dois semanários que lutarão para conseguir a liderança de mercado, mas porque, acima de tudo, irão degladiar-se dois “quase-irmãos”» («Sol quer vencer Expresso desde o primeiro round», Maria Lopes, 20.08.2006, p. 46). É, estranhamente, muito raro ver este vocábulo correctamente escrito. Escreve-se com i, como em latim, língua donde provém: digladiar(-se). Cinquenta vezes: digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar...

Formas de tratamento

Ó tu que fumas!

      À saída do Tribunal de Lagos, os dois franceses suspeitos de homicídio a bordo do trimarã Intermezzo, naufragado ao largo do cabo de São Vicente, falaram à comunicação «em tom espanholado», como sugestivamente descrevia o Diário de Notícias. Um polícia, ao que presumo um agente da PJ, obrigava-os a entrar rapidamente na viatura, dizendo para a mulher: «Ahora tienes de entrar!» Via-se logo que era um leitor de Eça de Queirós, e em especial da Correspondência de Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» A maioria dos portugueses suspeita que os Espanhóis se tuteiam a torto e a direito. São só suspeitas infundadas. Se não vão a Espanha, não lêem literatura nem jornais espanhóis, se não vêem televisão espanhola, se não ouvem rádio espanhola, se não falam com espanhóis, pelo menos leiam esta entrada do Diccionario de la Real Academia Española: «Tutear. 1. tr. Hablar a alguien empleando el pronombre de segunda persona. Con su uso se borran todos los tratamientos de cortesía y de respeto. U. t. c. prnl.»

De compostas a simples

Sempre a aprender

      Pelo grande interesse de que se reveste, transcrevo o que escreve Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica (6.ª edição, 1969, Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, que agradeço a JRC) sobre as palavras que apresentam em português forma simples, quando na língua originária eram compostas.
«1) árabes: benjoim (luban-Jawi, incenso de Java), salamaleque (salam-alaik, a paz esteja contigo), oxalá (in-sha-Allah, se Deus quiser);
2) hebraicos: aleluia (hallelu-Iah, louvai a Deus), hosana (hoshi-anna, salvai, eu vos peço), Israel (shara-Al, príncipe de Deus);
3) persas: julepo (gul-ab, água de rosas), azarcão (azar+gun, cor de fogo), caravançará (karwân-serai, casa das caravanas);
4) turco: janízaro (jenit-cheri, nova milícia);
5) germânicos: marechal (marah-scalc, servo do cavalo), lansquenete (lands-knecht, servidor do país), potassa (pot-ashe, cinza de panela);
6) franceses: oboé (haut-bois, alta madeira), vendaval (vent-d’aval, vento de baixo), gendarmes (gens-d’armes, homens de armas), ferrabrás (Fier-à-bras, nome de um bandido sarraceno, lembrado pelas gestas francesas);
7) ingleses: redingote (riding-coat, casaco de montar a cavalo), macadame (Mac-Adam, nome próprio do engenheiro escocês que inventou esse processo de calçamento), contradança (country-dance, dança do país);
8) italianos: anspeçada (lancia-spezzata, lança quebrada), tramontana (tra-montana, além da montanha), pedestal (piede-stallo, assento do pé);
9) americanos, sobretudo da língua tupi-guarani: caroba (caar-oba, mato amargo), capivara (caapi-uara, comedor de capim), carioca (cari-oca, casa do branco), igara (ig-iara, dona d’água), socó (çoó-có, bicho que se arrima), Paquequer (pac-ker, dormida das pacas), Paraguai (paraguá-i, rio dos papagaios), Paraná (pará-nã, semelhante ao mar), Paraíba (pará-aib, rio impraticável), Pirai (pirá-i, rio do peixe), icarai (i-caraí, rio santo ou água santa).»

Brincar com as palavras

Eh, rapaz!

Não resisto a transcrever aqui o post de hoje dos revisores do Le Monde:

      «Antony Blair, Prime minister de son état, s’est vanté au tabloïd Sun, avec une rare délicatesse, faire l’amour jusqu’à cinq fois par nuit à son épouse chérie. Ladite Cherie n’a cependant pas confirmé cette remarquable performance. Casanova, dans ses mémoires, évoque un jeune homme (de 26 ans) surnommé par ses galantes Tirsis (du nom du berger mythique, mais tout le monde comprenait Tire-six). Tire-cinq, si l’on nous permet ce sobriquet, a pour lui son plus grand âge. Mais l’avantage final revient à Tire-six, car ce sont les femmes qui l’ont ainsi surnommé, alors qu’Antony a peut-être affabulé. Il l’avait déjà fait avec les « armes de destruction massive » inexistantes. D’ailleurs, ses administrés ne l’appelleront bientôt plus que : Tire-toi

Ortografia: acupunctura

Mais uma picada

      A tendência para as pessoas menos instruídas dizerem «acunpuctura» (na verdade, «acupunctura», do latim acu, «agulha» + punctura, «picada») o que se deverá, em parte, ao facto de ser uma palavra um pouco estranha aos nossos hábitos, não passará despercebida a ninguém. Que o erro também tenha passado para a escrita, e sobretudo nas traduções, é que é mais lamentável. A única variante admissível, mas dentro da norma brasileira, é «acupuntura». O resto é iliteracia.

«Governar sob ditadura»

Não é o mesmo

      Em Direito, pergunta-se: «Quis custodies custodes ipsos?» (Quem guarda os próprios guardas?). Este artigo do Diário de Notícias trouxe-me à memória a pergunta. «O general Alfred Stroessner, que governou sob ditadura o Paraguai durante 35 anos, morreu ontem num hospital de Brasília, aos 93 anos» («Ex-ditador Stroessner morre no exílio», 17.08.2006, p. 13). Claro, ele era um ditador, mas terá ele próprio governado debaixo de ditadura? Talvez a mulher, por sua vez, o tiranizasse… Parece-me que a frase precisava de uma reformulaçãozinha.

Soalheiro e abisseiro

Sombra e sol

      Já por diversas vezes alguns leitores me mandaram mensagens ou deixaram comentários em que pediam que eu dissesse alguma coisa sobre este disparate tremendo que é dizer que «o dia vai estar solarengo». Vejam, senhores jornalistas e demais comunicadores, o que significa esta palavra: «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Contudo, a verdade é essa, este texto serve apenas para lembrar ou revelar o vocábulo abisseiro ou abixeiro, justamente por ser um antónimo de soalheiro. «Abixeiro, s. m. (do lat. aversariu-). Lado da encosta onde o sol não dá nunca, ou não dá mais que uns momentos durante o dia.│Lugar sombrio, voltado ao norte.│Como adj., em que não dá ou quase não dá o sol; sombrio.│O contrário de abixeiro, como substantivo, é soalheira, s. f., e, como adj., soalheiro» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

A filosofia das maiúsculas

Com autorização do autor, transcrevo na íntegra uma crónica exemplar de Ruben de Carvalho, publicada no dia 17 do corrente no Diário de Notícias.

A minúscula hermenêutica

      Na semana passada, a direcção do Público tomou uma iniciativa que corre sério risco de vir a figurar entre os mais bizarros episódios da imprensa portuguesa.
      No final de um artigo de Isabel do Carmo (IC) criticando a política israelita em geral e o ataque ao Líbano em particular (de resto, em resposta a afirmações anteriores, visando a autora, da habitual colaboradora do jornal Ester Mucznik), estampou a gazeta a seguinte nota: “NR — O Público não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto de a autora escrever Holocausto com caixa baixa.”
Comecemos por um pormenor secundário (sendo que nada é irrelevante neste disparate): o facto de se usar a expressão “caixa baixa”. Trata-se de uma formulação de perfil técnico, vinda do tempo da tipografia manual (da composição de chumbo, em que os tipos se distribuíam por compartimentos duma “caixa” de madeira), mas que persiste na área das artes gráficas, substituindo o comum “maiúscula” e “minúscula”: “caixa baixa” é inteiramente sinónimo desta última, “caixa alta” da primeira.
      É evidente que o que subjaz à nota do Público é IC ter escrito holocausto e não Holocausto, ou seja, ter iniciado com letra “minúscula”: o jornal parece ter a concepção da imensa relevância da primeira letra como critério formal de valorização! Escrever “holocausto” é estar com o Hezbollah, grafar “Holocausto” é estar com Israel e a Administração Bush!... Mas porque é que se usa o elusivo “caixa baixa”?...
      Daria pano para mangas reflectir sobre esta concepção litúrgica e sacralizante do uso da maiúscula, mas a nota coloca ainda outra questão: é evidente que a direcção do Público pretende tornar claro que não subscreve aquilo que no seu exclusivo entender significa o facto de IC ter utilizado minúscula. Ora, por esta ordem de razões, o jornal teria de estar constantemente a fazer notas semelhantes esclarecendo “não ter alterado a grafia” aos azedos e reaccionários insultos de Vasco Pulido Valente, às reflexões que levam Ester Mucznik a considerar terrorista toda a gente que não pensa como ela e por aí fora!
      A vantagem, entretanto, é que fica a saber-se que para incomodar aquele jornal basta uma pequena entorse na ortografia e escrever a grandíssima ofensa de que se trata da Folhinha dirigida por josé manuel fernandes…

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