Léxico: «soalhento»

Todos, todos, todos


      Não vamos é, nesta matéria, seguir a filosofia de Miguel Araújo no seu último disco, em que canta «Não há nada, nada/ Não há nada como não fazer nada/ Nada, não há nada/ Não há nada como não fazer nada». Aliás, ao repeti-lo está a contradizer-se, pois já está a esforçar-se. Tem de ser, pelo menos quanto à lexicografia, não há nada como fazer tudo. Tudo o que estiver ao nosso alcance, porque alguém o tem de fazer, porque é preciso ser feito, porque sabemos fazê-lo tão bem como os outros. Por exemplo, dicionarizar isto: «Pobre Fanny! A vida que a carochinha de sonhos cor-de-rosa levaria naquela casa soturna, bem se adivinha qual era: lágrimas, reprimidas revoltas, horas, muitas horas de janela para janela ou a fazer que cuidava dos dois pés de cravos e maravilhas que enlanguesciam no hortejo contra a empena soalhenta do edifício» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 185).

      Se ao menos conseguíssemos, pelo simples facto de meter lá este, tirarmos da cabeça de toda a gente (autores, tradutores, jornalistas, todos) a falsa sinonímia «soalheiro = solarengo», o mundo, o mundo da língua, seria um pouco melhor. Utopias, pois.

[Texto 22 915]

Léxico: «terbutrina»

Da detecção à captura


      «Ao todo, a bacia do Leça cobre “quatro massas de água superficiais” e outra subterrânea, e os documentos em consulta pública alertam para a necessidade de reduzir a poluição, “especialmente considerando a presença de cádmio, zinco, fluoranteno e terbutrina, detectados nas análises”» («Plano de 81 milhões de euros para recuperar Rio Leça em consulta pública», Público, 29.04.2026, 11h39). 

      Nos nossos dicionários é que ela não foi detectada, pelo que proponho ➜ terbutrina QUÍMICA composto orgânico pertencente ao grupo das triazinas, de fórmula C₁₀H₁₉N₅S, usado como herbicida selectivo no controlo de ervas daninhas em culturas agrícolas e em áreas não cultivadas; actua inibindo a fotossíntese das plantas, o que leva à sua morte; pode persistir no solo e na água, sendo considerado um contaminante ambiental devido à sua toxicidade para organismos aquáticos.

[Texto 22 914]

Definição: «avião-escola | navio-escola»

É optar e seguir em frente


      «Les avions-écoles Elixir débarquent aux États-Unis» (Véronique Guillermard, Le Figaro, 30.04.2026, p. 22). Ficam a saber: há aviões-escola como há navios-escola. Para mim, os plurais são estes e só estes, porque vejo o segundo termo da composição como determinante específico. Contudo, tenho de admitir que mais facilmente se aplicará a regra geral: pluralizar ambos. O que é preciso, Porto Editora, é indicá-lo nos verbetes. É tomar partido e fazê-lo. Quanto a ➜ avião-escola AERONÁUTICA aeronave destinada à formação de pilotos, equipada com comandos duplos e concebida para treino em voo, instrução básica e aperfeiçoamento, em contexto civil ou militar.

[Texto 22 913]

Léxico: «galantim»

Vamos retroimportá-lo


      «Reiteramos o juízo que, a nosso ver, é uma das chaves psicológicas tanto da vida como da obra de Camilo: as mulheres não gostavam dele. Não porque fosse apenas um homem feio. Sousa Martins, mestiço, esquinado, hirsuto, pouco tinha de galantim, e as mulheres à sua volta eram como moscas no mel» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203).

[Texto 22 912]

Léxico: «assaralhopado»

Tens a variante


      «Os sábados, ora no Guichard, ora no Pepino, eram dias de grande relambório. Queimava-se o ponche, a cuja luz azulada dos mundos imprevistos da boémia os olhos do indígena se abriam assaralhopados, ou havia fartas libações de cognac» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 30-31).

[Texto 22 911]

Definição: «navajo»

É antes caso para agradecerem


      Também me parece que os Navajos não iam ficar-nos com o escalpe (até porque não eram particularmente dados a fazê-lo) se melhorássemos a definição do termo que designa a sua língua, o ➜ navajo LINGUÍSTICA língua atapasca meridional do grupo na-dene, falada pelo povo navajo no sudoeste dos Estados Unidos (sobretudo no Arizona e no Novo México), ágrafa até ao século XX, quando passou a dispor de ortografia padronizada, caracterizada por estrutura fortemente polissintética e grande complexidade morfológica, com predominância de formas verbais.

[Texto 22 910]

Léxico: «código navajo»

Que só conhecemos dos filmes


      «[Chester Nez, ou Betoli] Avec 29 autres camarades de sa tribu, il va devenir un combattant aguerri – il est habitué depuis l’enfance aux privations de toutes sortes dans cette réserve mal famée. Mais surtout, il va offrir aux Marines, partis à la conquête des iles Salomon que leur disputent les Japonais, un code, le fameux code navajo, qui permettra de transmettre des informations cruciales sur un champ de bataille dévastateur, où plusieurs milliers de Marines perdirent la vie, et qui l’aurait été encore plus sans ce langage indéchiffrable par l’ennemi» («Le jeune héros indien des Marines qui sauva la bataille de Guadalcanal grâce à sa langue natale», Paul François Paoli, «Le Figaro Littéraire»/Le Figaro, 30.04.2026, p. 2). 

      Sim, o famigerado ➜ código navajo MILITAR sistema de codificação de comunicações baseado no uso do idioma navajo por militares indígenas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, que permitia a transmissão rápida e segura de mensagens sem recurso a cifragem convencional.

[Texto 22 909]

Definição: «ópera»

Falha no essencial


      «Ce n’est que vers le milieu des années 1960 que se généralisa l’habitude de jouer les opéras en langue originale. La bascule fut un problème pour toute une génération de solistes qui n’avaient jamais chanté que dans leur langue, d’autant que les carrières étaient beaucoup moins internationales. Et cela concerne tous les pays» («Traduire, c’est parfois aplatir», Christian Merlin, Le Figaro, 30.04.2026, p. 28). 

      Pode não ser um traço definidor, mas é uma característica, quando não uma limitação, que está quase sempre presente, pelo que podemos integrá-lo como traço recorrente na definição de ➜ ópera MÚSICA, TEATRO obra dramática musicada, de carácter narrativo, em que a acção é integral ou predominantemente cantada e acompanhada por orquestra, frequentemente associada à língua do libreto original, embora também representada em tradução, integrando música, texto e representação numa forma contínua. 

      A definição da Porto Editora reduz a ópera a uma mera peça musical com canto, quando se trata, na verdade, de uma forma dramática contínua, em que o canto não é adorno, mas o próprio meio de realização da acção.

[Texto 22 908]

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