As opções dos nossos jornais

Maus exemplos


      Assim? «Na efeméride de um mês desde o início dos ataques israelo-americanos contra o Irão, os hutis, do Iémen, atacaram Israel pela primeira vez, com mísseis balísticos. Noutra frente, no Sul do Líbano, os israelitas mataram ontem três jornalistas e nove socorristas» («Hutis entram na guerra e lançam mísseis contra Israel», Gabriel Hansen, Jornal de Notícias, 29.03.2026, p. 36). Ou assim? «Ao fim de um mês de guerra, a deslocação de mais tropas norte-americanas para a região do Golfo e as perspectivas de uma ofensiva terrestre, naval e aérea contra o Irão marcaram a entrada dos houthis do Iémen no conflito que se iniciou a 28 de Fevereiro, com um ataque surpresa que matou o Guia Supremo Ali Khamenei e várias outras guras do regime iraniano» («Rebeldes do Iémen lançam mísseis sobre Israel e deixam aviso aos Estados Unidos», Ana Brito, Público, 29.03.2026, p. 18).

[Texto 22 715]

Léxico: «quebra-gelo-patrulha»

A potência não é para aqui chamada


      «En una muestra de la creciente capacidad de Ucrania para alcanzar objetivos rusos, un rompehielos patrullero, el “Grupa”, resultó dañado, informó el Ejército ucraniano. Según el Estado Mayor ucraniano, que no dio más detalles sobre la operación, barcos de este tipo sirven tanto para propósitos civiles como para maniobras militares» («Ucrania humilla a Rusia al atacar un rompehielos en el Báltico», Rostyslav Averchuk, La Razón, 26.03.2026, p. 18). 

      Os nossos dicionários falam em potência e não sei que mais como características, mas não é isso que define este tipo de navio, se é que define algum. Assim, proponho ➜ quebra-gelo NÁUTICA embarcação concebida para operar em águas cobertas de gelo, dotada de casco reforçado e de proa adaptada que lhe permite subir sobre o gelo e fracturá-lo pelo peso, abrindo canais navegáveis para si e para outros navios.

      O quebra-gelo do artigo, o Grupa, é mais específico, é um ➜ quebra-gelo-patrulha NÁUTICA quebra-gelo destinado também a missões de patrulha, nomeadamente de vigilância e apoio logístico em regiões geladas.

[Texto 22 714]

Léxico: «lustreiro»

Afinal, ainda os há por aí


      «Lustrier. Un terme presque trop simpliste pour décrire toutes les subtilités du métier de Jacky Riesen, qui doit piocher à la fois dans l’art, l’histoire, la mécanique et l’électricité pour mener ses tâches à bien» («L’artisanat, plus beau métier du monde?», Florence Millioud, 24 heures, 28.03.2026, p. 20). 

      Não há-de ser apenas na Suíça que ainda há lustreiros. E que fosse. Já tivemos a palavra «lustreiro» nos nossos dicionários; no de José da Fonseca, de 1836, por exemplo. Depois alguém achou que era uma velharia imprestável e vá de o expulsar dos dicionários. Assim, como afinal ainda faz falta, proponho ➜ lustreiro artesão que fabrica, monta ou restaura lustres, dispositivos de iluminação suspensos, geralmente de tecto, com múltiplos braços ou pontos de luz.

[Texto 22 713]

Etimologia: «choque». Definição: «picardo»

Recuemos um pouco mais


      «Le ministre de l’Économie et des Finances a évoqué la perspective d’un nouveau choc pétrolier. Le mot vient du picard choquier, qui exprime l’idée d'un contact brutal. L’expression “choc pétrolier” est une image, même si l’économie mondiale est évidemment choquée par le blocage du détroit d’Ormuz» («Choc», Étienne de Montety, Le Monde, 26.03.2026, p. 36). 

      Exactamente, do picardo. Portanto, quando os nossos dicionários indicam que «choque» vem do francês choc, «idem», essa é informação que não nos leva muito longe, pelo que proponho ➜ do francês choc, «choque, embate violento», atestado desde o século XVI, derivado do picardo choquier, «bater, embater», que exprime a ideia de contacto brusco entre corpos; por extensão, passou a designar também impacto psicológico, perturbação súbita ou crise (ex.: choque emocional, choque petrolífero). 

      Claro que também não seria má ideia dizer-se, no verbete «picardo», um pouco mais do que «dialecto dessa região» — que é a Picardia. Assim, proponho ➜ picardo LINGUÍSTICA variedade linguística do grupo das línguas de oïl, tradicionalmente falada no Norte de França (região da Picardia e zonas limítrofes) e no Sul da Bélgica, com características fonéticas, lexicais e morfossintácticas próprias, distinta do francês padrão, embora historicamente relacionada com este. 

      Merci, cher Étienne de Montety, pour ces mots justes et éclairants, qui rappellent avec finesse que l’histoire des mots est aussi celle des idées et des chocs qu’elles traversent.

[Texto 22 712]

Léxico: «ngongo | muongo»

Já foi nossa, mas não parece


      Lá muito de quando em quando, gosto de ler o Jornal de Angola. Mas faço mal, devia fazê-lo com mais assiduidade, até para ensinar angolês à Porto Editora. «Com absoluta nostalgia, voltei a assistir ao início da época do ngongo, uma centenária e quase mitológica bebida, muito popular no eixo Huíla/Namibe/Cunene, no extremo Sul de Angola. Colhido de uma árvore chamada muongo, o ngongo assume-se, entre finais de Dezembro até início de Março, como principal factor de socialização naquela região, tal é sua atractividade, com multidões de pessoas a juntarem-se nos locais da sua produção, variando de denominação em diferentes áreas» («Bebida centenária com efeito afrodisíaco», Leonel Kassana, Jornal de Angola, 29.03.2026, p. 22). 

      Nos dicionários, nada. Assim, proponho ➜ Angola ngongo bebida tradicional fermentada, de origem ancestral, preparada com frutos da árvore muongo (Sclerocarya birrea), consumida no Sul de Angola (nomeadamente nas regiões da Huíla, Namibe e Cunene); de sabor ácido e baixo teor alcoólico, sendo geralmente bebida em grupo, do mesmo recipiente, em encontros comunitários (rodas), associados a forte valor social e simbólico; é frequentemente descrita como possuindo propriedades afrodisíacas na tradição local. 

      O que nos obriga igualmente a levar para o dicionário ➜ Angola muongo BOTÂNICA (Sclerocarya birrea) árvore de porte médio a grande, da família das Anacardiáceas, própria das regiões tropicais da África Austral, podendo atingir cerca de 10 a 15 metros de altura; produz frutos carnosos, amarelados (designados por ngongo ou gongo), ricos em açúcares, utilizados no consumo directo e na preparação de bebidas fermentadas tradicionais, como o ngongo.

[Texto 22 711]

Léxico: «ovo(s) de Páscoa»

Por isso mesmo


      «Quelle est l’origine de la tradition des œufs de Pâques? Elle remonte au moins à l’Antiquité: les Égyptiens, les Romains et les Perses s’offraient des œufs de poule décorés pour célébrer l’arrivée du printemps. L’œuf, un élément central dans les récits démiurgiques de nombreuses cultures anciennes, est lié à la création de l’univers – donc à la vie. Il symbolise ainsi parfaitement la nature qui renaît au printemps. Puisque la résurrection de Jésus signifie le triomphe de la vie sur la mort, ce n’est pas un hasard si l’église catholique fixa en 325 la date de Pâques au premier dimanche après la pleine lune qui suit l’équinoxe de printemps» («Comment le chocolat a volé la vedette aux œufs», Laurence Crottaz, 24 heures, 28.03.2026, p. 14). 

       É justamente não serem já ovos, mas chocolate em forma de ovo, que justifica levar-se para o dicionário ➜ ovo(s) de Páscoa doce associado à celebração da Páscoa, com origem em práticas da Antiguidade ligadas à renovação primaveril e à fertilidade, posteriormente integradas na simbologia cristã; de início constituído por ovo de galinha cozido, por vezes pintado ou decorado e oferecido como símbolo de vida nova; actualmente, produto de chocolate moldado em forma ovóide, com frequência oco e podendo conter brindes ou recheios, que substituiu quase por completo o uso do ovo natural nas práticas festivas contemporâneas.

[Texto 22 710]

Definição: «síndrome de Stendhal»

Tudo menos «condição»


      «Cuando se piensa en la ciudad de Parma, lo primero que viene a la mente es su espectacular Baptisterio de mármol rosa de Verona, un imponente edificio octogonal del siglo XIII que es, sin duda, una de las mayores proezas artísticas de Italia. Cuando se habla de esa reacción de colapso psicosomático con mareos y taquicardias ante la percepción de una enorme acumulación de belleza, se hace siempre referencia a la experiencia de Stendhal cuando visitó la basílica de la Santa Croce en la ciudad toscana de Florencia en 1817, lo que se ha venido en llamar sindrome de Stendhal» («Parma y el síndrome de Stendhal», Santiago Ortiz Lerín, El Periódico, 29.03.2026, p. 42).

      Não precisam de me lembrar que fui eu que sugeri a dicionarização de «síndrome de Stendhal» à Porto Editora, mas não ditei propriamente a definição, além que apresenta dois problemas. Recordemo-la: «condição psicossomática caracterizada por um conjunto de sintomas como aceleração do ritmo cardíaco, vertigens ou desmaios (entre outros), decorrente da exposição a obras de arte ou locais de grande beleza estética; hiperculturemia». O primeiro é aquela «condição», que não tem como fingir que é portuguesa, porque tem no ADN o condition inglês. Não precisamos dela. O segundo é a natureza daquela «exposição»: não é qualquer exposição, como muitos leitores, apressados ou não, poderão deduzir, mas uma experiência intensa ou sobrecarga estética. O que é bem diferente. Assim, proponho ➜ síndrome de Stendhal PSICOLOGIA conjunto de reacções físicas e emocionais transitórias, como taquicardia, tonturas ou desmaio, desencadeadas por uma experiência intensa perante obras de arte ou contextos de grande beleza estética, especialmente em situações de sobrecarga sensorial ou cultural.

[Texto 22 709]

Léxico: «muleiro»

A galinha da minha vizinha


      «Inshi, Eben, Bisquine et Igualjeno. Quatre paires de grandes oreilles et de grands yeux au regard curieux. Quatre mulets au caractère bien trempé et bien différent, auxquels les muletiers Suzanne Allaman et Olivier Morand vouent une passion sans bornes» («Par amour pour leurs bêtes, ils perpétuent le travail des muletiers», Natasha Hathaway, Le Matin Dimanche, 29.03.2026, p. 17). 

      Com certeza, Porto Editora, podes traduzir por «muleteiro», mas a minha primeira opção seria logo «muleiro», tanto mais que esta se formou na nossa língua, ao passo que «muleteiro» vem directamente do francês muletier, como tu própria o reconheces na etimologia. Está tudo dito, ou quase: tens de dicionarizar muleiro.

[Texto 22 708]


Arquivo do blogue