Léxico: «casa móvel»

A definição definitiva


      «Um casal perdeu a casa móvel em Silveira de Cima, na Lousã, e tem dormido, por estes dias, numa carrinha. Já em Cabanões, um jovem voltou à estaca zero na reconstrução daquela que seria a sua futura habitação. A casa móvel de Valter Martins e da companheira Liliana era uma solução temporária, enquanto reconstruíam, ao lado, uma habitação, em Silveira de Cima, onde vivem desde 2012» («Casal perde casa móvel e jovem vê arder habitação que reconstruía», Jornal de Notícias, 20.08.2025, p. 7). 

      Nos dicionários há tantas casas, mas não esta. Ainda recentemente, numa tradução, encontrei «autocaravana», quando no original estava mobile home. Bem pode ser por o tradutor ignorar o conceito de casa móvel. Assim, proponho ➔ casa móvel habitação transportável, sem motor próprio, construída sobre rodas ou estrutura amovível, concebida para ser rebocada e instalada provisória ou permanentemente, podendo servir de residência habitual, de férias ou de emergência. 

      E se os tradutores, coitados, não lêem nada em português? Temos a solução: mobile house transportable dwelling without its own engine, built on wheels or on a removable structure, designed to be towed and installed either temporarily or permanently; may serve as a permanent residence, a holiday dwelling or emergency accommodation.

[Texto 22 576]

AO90 na prática

Calma, isto vai demorar


      «Responsáveis curdos refrearam ontem os rumores sobre uma ofensiva terrestre iminente no Oeste do Irão, afirmando que isso não será possível enquanto os EUA e Israel não controlarem totalmente o espaço aéreo iraniano» («Curdos aguardam “céus limpos” para avançar», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 6.03.2026, p. 5). 

      O jornalista ainda não chegou a esta parte do articulado do Acordo Ortográfico de 1990. Nos últimos quinze anos teve outras prioridades. Temos de ter paciência.

[Texto 22 575]

Léxico: «policultural»

Faltava o adjectivo


      «O ringfencing da PAC não é suficiente por si só para mitigar os efeitos das profundas alterações apresentadas, como: o fim dos dois pilares (apoio ao rendimento e gestão de mercados, no primeiro, e apoio ao investimento, às zonas desfavorecidas ou às medidas agroambientais, no segundo); o fim dos direitos históricos nos pagamentos diretos, ampliando-se as elegibilidades a outras superfícies para além daquelas que dispunham destes direitos; o fim do pagamento base e do pagamento redistributivo e a instituição de um único pagamento degressivo, diferenciado em função do rendimento da atividade agrícola, privilegiando os que mais precisam, especialmente os jovens, as mulheres, as explorações familiares, os sistemas agrícolas policulturais ou as zonas com condicionantes naturais; o fim das medidas agroambientais e dos ecorregimes, substituídos por ações ambientais e climáticas» («A PAC e o território: é tempo de descentralizar!», Arlindo Cunha [economista, agricultor e ex-ministro da Agricultura], Público, 6.03.2026, 00h15).

[Texto 22 574]

Definição e etimologia: «feminicídio»

Muito incompleto


      «No caso das vítimas mulheres, em muitos países do mundo este crime tem um nome específico e está tipificado na lei: feminicídio ou femicídio. Em Portugal, os homens (que são a esmagadora maioria dos autores destes crimes) são julgados por homicídio com agravantes, mas não existe o crime de feminicídio» («Portugal não segue tendência da Europa e recusa crime de femicídio», Amanda Lima, Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 16). 

      Fazer-se equivaler «femicídio» a «feminicídio» é um grande disparate linguístico, originalmente dos dicionários, não da jornalista. Sim, o mal está feito, mas pode voltar-se atrás. A definição da Porto Editora («assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo») apresenta um grande senão: não será compreendida por qualquer Zé taxista. Tem de ser uma formulação mais elaborada, e ao mesmo tempo mais explicativa. Assim, proponho ➔ feminicídio assassínio de mulher ou rapariga motivado por razões de género, isto é, por discriminação, ódio, estereótipos ou relações de poder desiguais associadas ao facto de a vítima ser mulher. 

      Quanto à etimologia, vem do castelhano feminicidio, difundido na literatura jurídica e sociológica latino-americana, formado de femin- (do latim femina, «mulher») + -cídio (do latim -cidium, «acto de matar»), sob influência do inglês femicide, termo popularizado na década de 1970 pela criminóloga Diana Russell para designar o homicídio de mulheres motivado pelo facto de serem mulheres.

[Texto 22 573]

Léxico: «pastor-polaco-da-planície»

Sempre a piorar


      «Todos os meios servem para os participantes na exposição canina que, por estes dias, tem lugar em Birmingham (Inglaterra) chegarem ao evento, como mostra este cão de raça pastor polonês da planície. De acordo com a BBC devem participar na exposição que terá lugar no centro nacional de exposições mais de 18.600 animais que até domingo vão participar em provas de várias categorias» («Olhar», Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 4).

      Podia ser o estagiário brasileiro deixado à solta a fazer isto, mas bem sabemos que foi um jornalista português menos competente. E se se escreve «pastor-alemão» e «pastor-belga», porque se escreveria este sem hífenes? 

[Texto 22 572]

Léxico: «pistáchio | verde-pistácio»

Para completar o trio


      «E a situação deixou também os fabricantes de chocolate em apuros: até a gigante suíça Lindt, que lançou uma opção com recheio de pistáchio, se está a ver incapaz de responder aos pedidos. A versão chegou a Portugal no final de março e rapidamente esgotou» («Chocolate do Dubai leva a escassez de pistácio e subida de preços», Diogo Camilo, Rádio Renascença, 20.04.2025, 8h00). 

      Bem, o jornalista não esgotou todas as variantes, mas parecia que era isso que pretendia. Quanto a pistáchio, porém, não é reconhecido por vocabulários e dicionários a par de outras variantes, e, contudo, é frequentíssimo em rótulos de produtos que contêm o fruto. O que devia ser motivo para os dicionaristas ponderarem. Seja como for, o que me trouxe aqui foi a estranheza por ver verde-pistácio somente em dicionários bilingues da Porto Editora.

[Texto 22 571]

Léxico: «bugio-ruivo»

Como temos de fazer com este


      Tem de ir com urgência para os dicionários, ou pela certa que algum tradutor lhe inventará um nome comum: «O Alouatta guariba clamitans (nome científico do bugio-ruivo) é endêmico da Mata Atlântica: no Sul e no Sudeste está a maior parte, mas também é visto na Bahia» («A volta dos bugios à Cantareira», Juliana Domingos de Lima e Glauco Lara, O Estado de S. Paulo, 20.04.2025, p. A18).

[Texto 22 570]

Léxico: «acalchinado»

Só se o importarmos da América do Sul


      «Mas bendita fosse a fantasia do escritor que tinha o poder de erguer os admiráveis palácios de beleza em que, doente, pobre, acalchinado, se fechava amiúde com a varinha de condão que lhe oferecera uma benigna, olvidosa e analgésica fada, tocando as realidades do presente e do pretérito e convertendo em oiro fúlgido o sórdido chumbo da vida quotidiana!» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 239-40).

[Texto 22 569]

Arquivo do blogue