«Colocar/pôr»

Outro

      O advogado Rogério Alves também diz, a fazer fé no que está transcrito na edição de hoje do Diário de Notícias, «colocar em perigo». «Por isso, Rogério Alves conclui que Sónia Brazão só será condenada a dez anos de prisão “se se provar que tanto o crime como o perigo são de natureza dolosa, colocando em perigo vidas ou bens com significado”, remetendo o caso para o artigo 272 do Código de Processo Penal» («Actriz arrisca uma pena até dez anos de prisão», Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48). Mais um mau exemplo com presença garantida na nossa comunicação social.

[Texto 347]

Contracções

Descontraia, Vítor

      «As causas da morte da cantora Amy Winehouse, anteontem encontrada sem vida no seu apartamento londrino do bairro de Camden, continuam por apurar, apesar dos tablóides britânicos referirem que o motivo poderá ser overdose de álcool e drogas» («Reacções emocionadas a uma morte “mais do que triste” que continua por apurar», Vítor Belanciano, Público, 25.07.2011, p. 12).
      Não seguem os conselhos da «nossa especialista em língua portuguesa», e dá nisto, não descontraem. É claro que não leu ou não se lembra do Livro de Estilo do jornal: «apesar de + verbo no infinito — Nestes casos não se pode fazer a contracção da preposição de com o artigo ou pronome que se lhe segue».

[Texto 346]

Léxico: «argiloterapia»

É canja

      Filomena Crespo informou logo no início: «Isto hoje, como dizem as criancinhas, é de canja, canjinha de galinha.» Hoje, no Jogo da Língua, a pergunta era sobre o que significa «talassoterapia»: «terapia à base de argila ou de água do mar?» Respondeu «a nossa especialista em língua portuguesa»: «Fiz uma pesquisa. Efectivamente, não há um substantivo em português que designe uma terapia à base de argila.»

[Texto 345]

Aportuguesamentos

Depende de nós

      «He’s still on the tennis court», lê-se no original. E está traduzido como «corte de ténis», como se lê sempre no jornal Record. Um disparate. Em português, basta dizer «campo de ténis». E a propósito de aportuguesamentos, hoje li no sítio da RTP «pírcingue», de que tinha somente a vaga ideia de que existia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas remete para pircing. Que se pode dizer? Bem, não é pior do que «icebergue».

[Texto 344]

Tradução: «BB gun»

Mas ferem

      O adolescente foi lá para fora «to shoot things with a BB gun». «A dar tiros com uma arma de fulminantes», verteu o tradutor. E «fulminante», comprova-se em qualquer dicionário, é o «explosivo das espingardas de criança». Inofensivo, então, só ruído. Em Janeiro deste ano, a fotógrafa Dana Smillie foi atingida, ao que parece, por doze tiros de uma BB gun disparados por polícias egípcios. O adolescente continua lá fora — e ouvem-se fulminantes a rasgar as folhas das árvores. Uma BB gun é uma pressão de ar — espingarda ou pistola.

[Texto 343]

Tradução: «clam fried»

E a especialidade é?...

      É uma das iguarias típicas da Nova Inglaterra: fried clams. E qual a tradução? Aqui alguém verteu como «amêijoas». Os dicionários bilingues não registam mais do que isto: amêijoa; castanhola; pés-de-burro, vénus-casina. Uma coisa é certa: o nome científico é Mya arenaria. Na Fiskbasen, pode ler-se que clam é em português clame de areia. Neste documento da Marinha portuguesa, o nome inglês para a Mya arenaria (clame-de-areia) é sand gaper, outro nome para clam.
      A nossa personagem gostava particularmente de comer clam fried em certo restaurante à beira da estrada, porque «they’re just the necks, no bellies». Não estou a ver podermos destrinçar estas partes nas nossas amêijoas comuns. Alguém tem alguma ideia?
[Texto 342]

«Casa-barco/barco-casa»

Serve inverter os termos?

      A propósito do plural de «barco-casa», o leitor Montexto comentou: «Eu esse tipo de palavras evito-as.» O que me parece é que, se eu quisesse fazer o mesmo, me era impossível. O exemplo de hoje não implica o uso do plural, mas lá aparece a palavra: «One day in my grandfather’s rowboat she points to a red boathouse across the lake.» Como podia o tradutor evitar a palavra? Como poderia eu fazê-lo? Bem, o tradutor pelo menos inverteu a ordem dos elementos: «Um dia no barco a remos do meu avô, aponta para uma casa-barco vermelha do outro lado do lago.»
[Texto 341]

Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]

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