Linguagem

Olha quem

A minha filha costuma rezar uma ou duas jaculatórias antes de adormecer. Ontem, surpreendeu-me ao acrescentar-lhes os números (ela ainda não anda na escola, graças a Deus) até dez — em inglês! Antes de os saber bem, sem se enganar, em português. Começa mal, a rapariguinha, já troca os idiomas. Hoje de manhã inquiri-a. «Foi um menino que me ensinou no jardim.» A mãe confirmou. Que espécie de diálogos ou oaristos mantém ela já, com 4 anos, com os marmanjos? E eu que pensava que ela aprendia (e desaprendia) tudo na televisão.

[Texto 297]

Tradução: «noceur»

Em francês agora

      O original fala no «instinct de noceur» de alguém, e foi vertido como o «instinto de boémio inveterado». O registo, contudo, é mais familiar ou popular. Faire la noce, diz-se em francês. «Andar na pândega, fazer a festa». O vocábulo «boémio» tem vários sentidos figurados. O Dicionário Houaiss regista três: «que ou quem leva uma vida hedonista, alegre e livre»; «que ou quem leva uma vida erradia e incerta, fora de padrões»; «que ou quem leva vida desregrada, dissipada». «Boémio», porém, transmite sempre (ou transmite-me) um sentido mais positivo. Digamos que boémio é o estroina fino. Também sentem o mesmo? Noceur é mais o estroina, o pândego.
[Texto 296]

Sobre «olheiro»

Para mais clareza

      «O nome da praia dos Olhos d’Água, contam os populares, deve-se ao facto de rebentarem na areia e no mar mais de centena e meia de olheiros de água-doce. O mais famoso, conta Jorge Baptista, proprietário do restaurante O Caixote, chama-se olheiro da cabra» («Olhos d’Água perdeu o ícone da praia com a queda do penedo Gago Coutinho», Idálio Revez, Público, 13.07.2011, p. 24).
      «Água-doce»! Deve ser confusão com «agro-doce», se não for com «arroz-doce». Ora, se os olheiros ou olhos-d’água também rebentam no mar, isso quer dizer que os dicionaristas têm de corrigir os verbetes nos dicionários. Em rigor, a definição «sítio onde brota água do solo» não o exclui, mas, por clareza, devia contemplar estes casos.
[Texto 295]

«Stricto sensu/statu quo»

Não liguem

      Acabo de ler aqui numa revisão, e mais de uma vez, strictu sensu e status quo. É demasiado latim derrancado para ficarmos calados ou quietos. Do último já tinha tratado, tendo então escrito que devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o «estado em que as coisas estavam antes da guerra». Quanto ao primeiro, é stricto sensu que devemos escrever, também no caso ablativo. É o inglês a ensinar-nos a escrever latim... (Numa reunião em que estive recentemente, com economistas e engenheiros, nem sequer um dizia outra coisa que não fosse «aitem»...) Leio, com estupefacção, na página 182 da 2.ª do Livro de Estilo do Público, que é strictu sensu que se deve escrever. Na versão em linha, ainda não foi — nem nunca será, decerto — corrigido o erro, que, ironicamente, se encontra na secção «Erros e vícios de linguagem mais frequentes». Aí está uma boa ilustração.
[Texto 294]

«Desde Madrid/de Madrid»

Que desgosto

      Ora leiam com atenção: «Para aquele perito, que testemunhou desde Madrid por videoconferência, a morte do jovem foi causada por um golpe de calor» («Óbito de escuteiro está em tribunal: morte súbita ou golpe de calor?», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Não escreva assim, ¡caray!, caro Licínio Lima. Então não sente que isso não é português? O uso da preposição «desde» em vez da preposição «de» nesta construção é tipicamente castelhano. Eu já tinha falado neste erro, mas os jornalistas ainda eram novos.

[Texto 293]

Léxico: «parasailing»

É isso mesmo

      «Mãe e filha decidiram fazer um passeio de parasailing [modalidade em que um pára-quedas preso a uma embarcação sobrevoa o mar], mas, no momento em que se encontravam a cerca de 500 metros da praia, o cabo que as prendia à lancha ter-se-á soltado devido a uma rajada de vento inesperada e o pára-quedas voou sem controlo até à primeira linha de praia, acabando por embater numa palmeira» («Morreu turista que sofreu acidente com pára-quedas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Esta é a boa prática jornalística: sempre que se usa um estrangeirismo ou termo mais invulgar, técnico ou não, explica-se o significado.
[Texto 292]

«A» protético

Já me alembro: assoprem na arrã

      Ontem tive de ir a uma repartição de Finanças (não vem daqui, garanto, o meu optimismo). Num dos ecrãs em que podemos ver o número de senha que está a ser atendido, de repente apareceu também uma emissão do programa Bom Português. A frase era qualquer coisa como isto: «É nesta cadeira que me acento.» Depois de terem explicado o significado de «acento», a frase reapareceu assim: «É nesta cadeira que me acento.» Finalmente, surgiu a frase recomendada: «É nesta cadeira que me assento.» Se tiver de voltar a uma repartição de Finanças, já estou mentalmente preparado para os ver recomendarem as formas «alembrar», «amandar», «amostrar», «arrã», «arrebentar», «arrecuar», etc. Depois de nos limparem o dinheiro, sujam-nos a língua.
[Texto 291]

Sobre «optimismo»

Deixem-nos trabalhar

      Numa introspecção breve, vejo, com algum alarme, que uma mudança fundamental se operou em mim nos últimos tempos. Operou, digo bem. Antes era pessimista e, para disfarçar, porque talvez me desagradasse, negava e dizia que era realista; agora, sou um optimista despreocupado. O que ouvi hoje no programa Pessoal... e Transmissível, na TSF, descansou-me. Carlos Vaz Marques entrevistou o psiquiatra e escritor argentino Jorge Bucay, que se afirmou um optimista incurável e lembrou que o vocábulo «optimismo» está ligado ao termo latino opus, «obra», «trabalho». De facto, provém da raiz latina op, a mesma de opus, que é partilhada por palavras como «opulento», «opíparo», «óptimo» e «optimismo». Moral da história: é preciso é trabalhar.
[Texto 290]

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