Sobre «tambor»

Curioso

      «She was a Doane, and Grandfather Doane had been a drummer boy in the Mexican War and had a Congressional Medal of Honor from the Civil War» (Appointment in Samarra, John O’Hara. Londres: Vintage Books, 2008, p. 5). Não é curioso que ao indivíduo que toca determinado instrumento se dê o nome do instrumento? Em português também: «Foi tambor no exército do general Hoche, durante a campanha do Palatinado» (Razões de Coração, Álvaro Guerra. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p. 18). Haverá outros casos assim?
[Texto 281]

«(In)legitimidade»?

Outra querela — se quiserem

      Na secção «Cartas à Directora» do Público, José Mário Costa responde hoje ao jornalista Luís Miguel Queirós. Logo no início, escreve: «Não me insurgia aí [na carta «Sobre o “presidento” e a “presidenta”»], obviamente, contra a sua opinião pessoal sobre a (in)legitimidade do uso da palavra “presidenta”, mas contra a forma como, nesse primeiro texto, enquanto jornalista, lhe cabia tratar, de forma distanciada, uma questão linguística que divide especialistas, em Portugal como no Brasil.» Desde quando é que, para indicar o antónimo de «legitimidade», se pode escrever o prefixo in-, que nem sequer fez parte, na língua portuguesa, da formação do vocábulo, que recebemos já do latim? Que grande equívoco.
[Texto 280]

Sobre o Indostão

Que algum repúblico

      «Os irmãos paquistaneses Achiq (o cabecilha do grupo), Kashif e Atif são acusados de recrutar portuguesas para casar com homens indostânicos (paquistaneses e indianos)» («Juiz adia decisão», C. N., Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 23).
      É impressão minha ou a definição de Indostão (ou Hindustão) anda por aí mal redigida? Quase a propósito: como se grafa o nome da república de Coimbra: Prà-Ki-stão, Prakistão, Pra-ki-estão, Pra-ki-stão?... Que algum repúblico (Quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista a acepção?!) me esclareça.
[Texto 279]

«Presidenta», de novo

Já se esperava

      José Mário Costa, na edição de ontem do Público, quis rebater o texto do jornalista Luís Miguel Queirós que aqui transcrevemos: «Ao contrário do que escreveu Luís Miguel Queirós na edição do passado dia 24/06 (“Assunção Esteves é presidente ou presidenta?”), “presidenta” é um registo abonado no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Tal como, de resto, nos demais dicionários e vocabulários, portugueses como brasileiros, de referência. No primeiro caso, desde os mais antigos, como o dicionário de Moraes (“mulher que preside”, “mulher de presidente”) até aos mais recentes, como o Houaiss (“mulher que se elege para a presidência de um país”), o Aurélio (“mulher que preside”,”mulher de um presidente”) ou o da Porto Editora (“mulher que preside” e, na linguagem popular, “mulher de presidente”). No segundo caso, o registo vai dos mais recentes – como o vocabulário oficializado entre nós, o disponível no Portal da Língua Portuguesa, assim como o da Academia Brasileira de Letras – até aos mais antigos também, como o ainda reputadíssimo Vocabulário de Rebelo Gonçalves. Ou ainda na incontornável Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (pág. 195, 1.ª edição).
      Uma generalizada atestação, pois, que confere à variante feminina de “presidente” legitimidade ao seu uso. Pode não ser o recomendado ainda pela norma culta. Ou ser de “curso restrito no idioma”, como referem Celso Cunha e Lindley Cintra, que ilustram outros femininos com similar formação, como “governanta”, “infanta” ou “parenta”. Bem diferente, e inaceitável, é a vituperação de “presidenta” não ser português.
      Pior, bem pior, são os “solarengos”, em vez de “soalheiros”, os “é suposto” e “os abusados” ou os sistemáticos “um dos que faz…”, tão repetidamente escritos e ditos nos media portugueses, a começar no PÚBLICO.

P. S. – Se Luís Miguel Queirós não tivesse preferido a “opinionite” pura e dogmática, teria prestado uma melhor informação aos leitores. Bastar-lhe-ia colher os inúmeros esclarecimentos que se encontram disponíveis, por exemplo, no Ciberdúvidas. Ou respigar o que, no próprio meio linguístico do Brasil, se escreveu, muito e com sustentação séria e diversificada, depois da eleição de Dilma Rousseff, que faz questão de ser tratada por “presidenta”. Se o tivesse feito, com a ponderação devida, não escreveria que, “em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como ‘presidenta’ é exactamente tão arbitrário como chamar ‘presidento’ a Cavaco Silva”. Por uma simples razão: em português, a formação dos femininos faz-se a partir do masculino, e nunca o inverso.» («Sobre o “presidento” e a “presidenta”», José Mário Costa, Público, 30.06.2011, p. 38).

      O jornalista respondeu: «Consultei o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, vulgo Dicionário da Academia, e, inexplicavelmente, não vi o registo “presidenta”, que efectivamente está lá (como, de resto, seria de esperar). Diz o referido dicionário que “presidenta” se usa depreciativamente na acepção de esposa do presidente, significando ainda, no uso familiar ou popular, mulher que desempenha as funções de presidente. Agradeço, pois, esta correcção ao leitor José Mário Costa, e peço desculpa aos restantes leitores e aos autores do dicionário em causa.
      Já não estou de acordo com nenhuma das outras objecções de José Mário Costa ao texto que assinei, mas não me seria possível rebatê-las (com argumentos) no exíguo espaço de que aqui disponho.»

[Texto 239]

Sobre «enfermo»

Com rabo de fora

      «Os arguidos, todos idosos (têm agora entre 79 e 85 anos) e enfermos, faziam parte do núcleo duro do regime ultramaoísta liderado por Pol Pot, criador dos campos de morte no Camboja, morto em 1998, após ter sido feito prisioneiro pelos seus correligionários» («Julgamento histórico do Khmer Vermelho testa credibilidade do tribunal da ONU», Público, 28.06.2011, p. 13).
      É claro que o vocábulo «enfermo» é português, e nem terá vindo (não é assim, Fernando Venâncio?) do castelhano, mas cheira-me logo que a fonte foi espanhola: «Los acusados, todos ancianos y enfermos, etc.» Felizmente não embatucaram em Jemeres Rojos, cuja tentativa de tradução podia dar qualquer coisa como Gemeres Roxos. (Ah, sim: se «maoísta» é incorrecto, incorrecto será «ultramaoísta».)

[Texto 230]

Ortografia: «bejeca»

Com os copos

      No Verão, escreve o nosso autor, a venda de «bujecas» dispara. Mas não: é bejeca que se diz e escreve. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista que é alteração de «[cer]vejeca, diminutivo de “cerveja”», e que é vocábulo «informal». É calão, lê-se no «Temanet», no sítio do Instituto Camões. O seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se mete nestas coisas.
[Texto 200]

Léxico: «sinobloco»


Assim percebemos


 


 

      Vou comprar um BMW ActiveHybrid X6. (Branco, é mais barato.) Não tenham inveja, não é para já. Primeiro tenho de gastar o Škoda. Na oficina disseram-me que tenho de mudar os sinoblocos. «Repita lá, por favor.» Repetiu. «Essa não está no dicionário.» «Desculpe?» Não está mesmo registado em nenhum dicionário que eu tenha. (E amanhã não vai para o Priberam, porque é feriado, Corpus Christi.) Os sinoblocos são peças de borracha que servem para absorver as vibrações da suspensão. Em inglês, silent block, «bloco silenciador». Ora, era demasiado complicado para a maioria dos mecânicos portugueses. Ficou «sinobloco».

[Texto 199]

«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]

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