Como se escreve nos jornais

Uma maneira de dizer

      Mais um obituário não assinado no Diário de Notícias. Morreu o chefe (o DN continua a preferir-lhe o galicismo chef, mas no título usou o despretensioso termo «cozinheiro») catalão Santi Santamaría. «O cozinheiro foi ainda autor de algumas polémicas, muito devido à rivalidade com outro chef catalão, Ferran Adrià» («O cozinheiro catalão das sete estrelas Michelin», Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 47).
      «Autor de polémicas» é uma maneira de dizer, talvez inadequada. Se tivesse gostado de contar anedotas, chamá-lo-íamos porventura «autor de anedotas»? Fazia afirmações polémicas (ou só provocadoras: «A boa cozinha defeca-se.»), gostava de travar polémicas, de polemicar.

[Post 4447]

Cores

Mais luz

      «É real o risco de os vibrantes girassóis de Van Gogh, e de os seus lírios intensos na paisagem de Arles, perderem o brilho de amarelo eléctrico que ele lhes imprimiu. Isso é uma preocupação para os curadores dos museus que albergam as obras do pintor oitocentista, o que levou um grupo deles a promover uma investigação sobre o problema. O resultado mostra que os ultravioletas na luz do sol, ao alterarem o crómio que entra na composição do pigmento amarelo usado por aquele pintor, são os culpados do que está a acontecer» («Amarelos de Van Gogh estão a perder o brilho», Filomena Naves, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 35).
      Há ali uma figura de estilo, naqueles «vibrantes girassóis». Vibrante será a cor. E, de feito, mais à frente, lê-se «amarelo vibrante». E é amarelo-eléctrico, claro. E luz do Sol.

[Post 4446]

«Flash-mob»

Está mal

      «A data será passada em festa, com música, bancas de batatas fritas e flash-mob. A ideia é protestar contra o excesso de nacionalismo e contra os oito meses de mediações falhadas» («Revolta das batatas fritas contesta políticos belgas», Luís Naves, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 28).
      Como já uma vez explicaram, neste mesmo jornal, o anglicismo, os jornalistas sentem-se desobrigados de repetir. «São», escreveram, «aglomerações instantâneas de pessoas que combinaram previamente (geralmente por e-mail ou SMS) uma acção inesperada num local público.»

[Post 4445]

Sobre «epistolário»

É impressão

      Outra vez o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo. Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), disse no seu depoimento: «Posso dizer que Leite de Vasconcelos é o maior epistolário português conhecido. […] São milhares de correspondentes e mais de duas dezenas de milhares de cartas e cartões, etc.» Há-de parecer lapso, mas não é. Além de compilação, colecção de epístolas, epistolário também significa epistológrafo. Se quisermos apoucar o feito, dizemos epistoleiro.

[Post 4444]

Ortografia: «softebol»

Então não

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «softball» ⇒ e remete para «softbol». Ora, se football deu futebol, softball dará softebol, ou não? Se há um e epentético num vocábulo, terá de haver no outro.

[Post 4443]

Como se escreve nos jornais

Mexerufada

      «A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
      No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.

[Post 4442]

Léxico: «quebrança»

Compare-se

      Continua o mesmo Paulo Fernando a falar: «Era meio-dia. Tinham acabado de mudar o turno. Uma tripulação foi substituída por outra ali no cais da praia da Laje. Depois seguiram no bote para a zona da Pedra. Eu tinha ido tomar um café quando de repente vi a embarcação na quebrança das ondas e a ser levado. O barco tinha-se virado» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Quebrança, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ruído das ondas ao quebrarem-se nos rochedos». Hum... Para o Dicionário Houaiss, é o «choque de ondas contra rochedos».

[Post 4441]

Léxico: «banzeiro»

Ainda na Madeira

      «“Entrar neste mar é um suicídio. É traiçoeiro. Não há qualquer hipótese de encontrar com vida as duas raparigas que foram arrastadas na segunda-feira, este é um mar ‘banzeiro’, parece que ao longe está calmo mas, de repente, rebentam as ondas enormes junto à costa”, diz ao DN, [sic] Paulo Fernando, que viu o desastre dos socorristas e ajudou a trazer para terra o que acabou por falecer» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Cara Lília Bernardes, qual a utilidade das aspas em «banzeiro»? Banzeiro, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «(mar) pouco agitado». Para o Dicionário Houaiss, «forte, agitado vagarosamente (diz-se de mar), com tempo bom e ondas que não encapelam».

[Post 4440]

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