Sobre «freguês»

Diga, não tenha receio


      «Diamantino Amaral dos Santos (PSD), presidente daquela junta [freguesia de Coração de Jesus, concelho de Viseu], diz que o equipamento se enquadra na “modernização administrativa” que tem sido promovida “pelo actual Governo”. Porém, o PS de Viseu criticou este investimento, classificando-o de “absurdo, desnecessário e desrespeitoso pelos fregueses”» («Freguesia gasta 5000 euros para controlar dois funcionários», Nuno P. Chorão, Público, 17.10.2010, p. 27).
      Muito bem: freguês. Apesar de o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registar que freguês é o «habitante de uma freguesia (em relação ao pároco)». Não é, ou não apenas: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acerta: «habitante de uma freguesia; paroquiano».

[Post 3993]

Selecção vocabular

Inapto


      «CIA admite falhas na recruta de um informante», é um título da página 17 da edição de hoje do Público. A primeira frase, porém, desmente logo a propriedade no uso do vocábulo «recruta»: «A CIA reconheceu ter dado passos em falso e simplificado a entrada de um informante que em Dezembro se fez explodir numa base no Afeganistão, matando sete agentes.» Recruta é a instrução militar básica dada a quem foi convocado para serviço militar ou para instituições semelhantes. O jornalista deveria ter escrito recrutamento, que é a escolha, a selecção de candidatos.

[Post 3992]

Léxico: «editoria»

Cresce e aparece


      «Em segundo lugar, a coordenação interna entre o trabalho para o sítio na Internet e para a edição em papel. Não faz sentido, neste caso, que a editoria do Público Online não soubesse que iria contar com uma peça própria da redacção sobre a reunião no Funchal. Ou que o jornalista no terreno não fosse confrontado com a escolha de um título que se adivinharia controverso» («Que esteve a dizer-nos Passos Coelho?», José Queirós, Público, 17.10.2010, p. 43).
      Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registam o vocábulo. Só recorrendo ao Dicionário Houaiss é que o leitor que o desconheça ficará a saber que editoria é o «conjunto das secções de uma publicação que estão a cargo de um editor». O Flip 7 acha que quero escrever «editorai», e corrige-me. Cresce.

[Post 3991]

Revisão

Conhecer os conhecimentos


      «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão conhecer melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Mostrei a frase ao revisor antibrasileiro, dada a propensão quase patológica que revela para não deixar passar repetições. Saiu, com muitas desculpas e que podia ser pior a emenda, etc., isto: «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão adquirir melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Hã?! Nem sempre é possível fazer a poda que ele imagina. E agora?

[Post 3990]

Léxico: «hemangioma»

Desta vez não resvalaram


      «Apesar de nunca ter sido consultado por José Mestre, segundo explica, este tipo de problema  um angioma vascular  é detectado à nascença e raramente se desenvolve até este grau» («Cirurgiões nos EUA removeram tumor de mais de cinco quilos a “homem sem rosto”», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.10.2010, p. 8).
      Em certa altura, há cerca de doze anos, quando passava diariamente pelo Rossio, evitava sempre olhar para onde ele estava, e uma vez tive mesmo um pesadelo em que o Homem sem Rosto me apareceu. Já então me perguntava se a ciência médica não podia fazer nada. O facto de ser testemunha de Jeová, soube-o agora, será uma explicação. No sítio da TVI 24 li agora que se trata de um «hemangioma cavernoso», o que parece ser o mesmo, embora, à partida, tivesse ficado de pé atrás, pois ainda ontem ouvi neste canal uma voz off, a propósito de tráfico humano, falar em «escravataria». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «hemangioma». Resolvam lá isso.

[Post 3989]

Léxico: «lofoscopista»

Imagem tirada daqui

Todos iguais


      «Sempre que saía em serviço, levava um lofoscopista e um fotógrafo» («Dos homicídios para o voluntariado», Sónia Simões, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 4).
       Têm sindicato que os defenda, o ASFIC, mas não estão nos dicionários. Nem a actividade que exercem, a lofoscopia, é conhecida dos dicionários. Agora vejamos outro exemplo na mesma edição deste jornal. Cá está: «A nossa tão lendária Passarola Voadora não deve ser conhecida em Albuquerque, a cidade americana que é uma espécie de paraíso para os balonistas, nem em Debrecen, a localidade húngara onde se disputou a 19.ª edição do Campeonato do Mundo de Balões de Ar Quente» («Balões do mundo permitem evocar a Passarola», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 19). Estes já estão em todos os dicionários, mesmo sem sindicato.

[Post 3988]

«Mestra» e «superiora»

Ignorância atrevida


      «Alexandra Paula Monteiro Pessanha, assistente e Mestra em Direito Público, foi o elemento do CJ [Conselho de Justiça] que não renunciou ao cargo» («Relatora do Sporting-Benfica não se demitiu», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 47). Mais uma delatora da «violência de género», decerto. Mestra não é menos que risível, como, fora dos conventos, superiora: «O cenário de rota de colisão entre os investigadores do caso Freeport e a sua superiora, Cândida Almeida, está afastado mas os dois magistrados ponderam pedir a cessação imediata da comissão de serviço no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP)» («Procuradores de saída do DCIAP», Eduardo Dâmaso/Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 12.08.2010, p. 28). Não me surpreendia nada que em ambos os casos tivesse havido mão de revisor — ou revisora. Uma desta espécie me aspou há dias o c de «héctico». Antes tivesse levado também o h, e teríamos ficado sãos. Saint-Esprit, sain d’esprit.

[Post 3987]

Latim

Pedra angular


      O pai do protagonista de uma obra que não posso, por ora, identificar (sem deixar de dizer, contudo, que é o melhor romance que li nos últimos anos, brevemente em tradução portuguesa), «insisted that without Latin nobody could write clear English». O que diria se, em vez de escocês emigrado no Canadá, fosse português. De importância fundamental, sem dúvida, o deveria reputar. Já uma personagem de Cervantes (e um cão, nada mais) dizia que «no tempo dos Romanos, todos falavam latim como sua língua materna, algum parvo deveria haver entre eles a quem o facto de falar latim não desculparia o de deixar de ser néscio».

[Post 3986]

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