Léxico: «pan-africanismo»

Não compreendo


      Imperdoável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, talvez mais presente nos lares portugueses do que a Bíblia, não regista «pan-africanismo». Regista pan-americanismo, pan-eslavismo, pan-helenismo, pan-islamismo... Espero que tal não signifique que não acreditam na existência da doutrina ou movimento que busca o desenvolvimento da unidade e da solidariedade entre os países da África. Kwame Nkrumah (1909–1972), presidente do Gana (e antes, no ano da independência, em 1957, primeiro-ministro), teve uma visão totalizadora de África, como grande paladino do pan-africanismo. Pertencia à geração dos políticos africanos com uma preparação intelectual muito acima da média. (A maioria dos chefes de Estado dos 17 países africanos que proclamaram a independência em 1960 eram professores, e os restantes eram médicos, ou economistas, ou advogados. E actualmente?) Outros, como Léopold Sédar Senghor (1906–2001) e Modibo Keita (1915–1977), não foram tão longe, mas fomentaram uma federação, se bem que efémera.

[Post 3581]

Léxico: «nocionista»

Umas noções


      «O sacerdote», lia-se no artigo, «acrescenta que o regime de Pol Pot ocasionou “uma série de tensões sociais” que impedem ainda hoje, a 35 anos de distância, “a unidade” e que o método de ensino de carácter nocionista “não favorece o nascimento de um espírito crítico”.» Nunca vi tal vocábulo em português, e também não está registado em nenhum dicionário geral da língua. Suponho que provém do inglês notionist, muito usado mas também não registado em muitos dicionários. Pergunto-me se o vocábulo nocional (e a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece-me clara: «que expressa um conhecimento superficial ou simples»), registado em todos os dicionários, não significará o mesmo. Aqui, afirma-se que o «enfoque nocionista» é «o das definições já prontas, que não fornecem os instrumentos da experiência».

[Post 3580]

Ilhas Britânicas

Um caso

      Estava aqui a ler (vocês não querem saber onde) que Álbion era a «designação antiga das ilhas Britânicas». E no Guia de Estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors pode ler-se: «Utilizar “Reino Unido” para designar o Estado-Membro e não “Grã-Bretanha” (constituída pela Inglaterra, Escócia e País de Gales). O Reino Unido, para além destas três entidades, inclui também a Irlanda do Norte. O termo puramente geográfico “ilhas Britânicas” compreende também a Irlanda e as dependências da Coroa (ilha de Man e ilhas anglo-normandas que fazem parte do Reino Unido).»
      Habitualmente, entende-se que a locução é um todo; logo, como topónimo que é, com o vocábulo «ilha» a ser grafado com maiúscula inicial. Afinal, não se vai para as *Britânicas como se vai, por exemplo, para as Seicheles ou para as Maurícias. «Concordámos ambos que Scabius era o cabrão mais sortudo da escola, para não dizer das Ilhas Britânicas» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 46). «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (idem, ibidem, p. 401).
[Post 3579]

Sápido/insípido

Acento erótico


      Entre nós, sápido é um termo usado quase exclusivamente pelo crítico gastronómico José Quitério. E quem é que, assim de repente, se lembra logo que o antónimo é insípido? Pois é, o mesmo fenómeno fonético ocorre no par sapiente/insipiente (e este a ser confundido, demasiadas vezes, com incipiente). Umas tinturas de latim, e temos logo os poetas a escreverem in-sápido e in-sapiente. Os poetas, convencionou-se, podem escrever como quiserem. Ainda recentemente, o revisor (e também poeta!) Levi Condinho, na tal conversa na Católica, lembrava que Herberto Helder escrevera «cona» com acento circunflexo. Da fama não se livram eles.

[Post 3578]

Concordância verbal

Gostos e desgostos


      «O homem que nunca muda de opinião é como água estagnada e gera répteis da mente», William Blake. Mas ainda é cedo para mudar de opinião. Só quero dizer isto (e, estranhamente, os leitores estranham sempre que me pronuncio sobre os meus gostos): detesto a palavra «pedaço» para me referir ao tempo. «Durante um bom pedaço cada um disse e repetiu as loucuras que lhe vinha à mente sem que nada lhe parecesse asneira» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 122). «Valia mais que dissesse alguma coisa de substancial sobre a frase», estarão a murmurar alguns leitores mais exigentes. É para já: o verbo tem de estar no plural: «as loucuras que lhe vinham à mente».

[Post 3577]

Léxico: «puxada»

Outra


      «A eléctrica Escom, que dispensou os seus quadros brancos e deixou de investir na renovação tecnológica, tem agora uma gigantesca campanha contra as “puxadas” de electricidade, que se tornaram praga nacional» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 94).
      Mais uma acepção ignorada pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Temos de consultar o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa para a encontrar: «Desvio ou prolongamento de um ponto de fornecimento de água, electricidade, telefone, etc.»
      E nenhum dicionário ainda regista, é um neologismo, o substantivo eléctrica para designar a empresa produtora de energia eléctrica. Ultimamente, a EDP é apresentada como a «eléctrica nacional».

[Post 3576]

Léxico: «tijolo»

E porquê?


      «Lá de fora, chegam-me os acordes da banda de King Jury a tocar o clássico de jazz da township, Emsengeni, através de um “tijolo” rouco com duas colunas incorporadas» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 87).
      O vocábulo tijolo, nesta acepção — radiogravador com duas colunas incorporadas, a pilhas, do tamanho de um tijolo — continua ausente dos dicionários gerais da língua. E não sei porquê. Consultemos o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista um sentido figurado: «livro muito volumoso». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa julga resolver tudo de outra forma: «Infrm. Objecto quadrangular pesado.»

[Post 3575]

Léxico: «badana da tenda»

Acampados


      «A gritaria acordou toda a gente, ressoaram vozes estremunhadas, acenderam-se lanternas aqui e além. A badana da tenda que pertencia à Ísis abriu-se de repelão e perante o grupo atónito surgiu Rosalita» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 56).
      Nunca tinha lido ou ouvido, mas parece-me bem. No plural, badanas são as partes compridas e estreitas que pendem de uma roupa. Logo, por extensão de sentido também pode designar as abas das entradas das tendas de campismo.

[Post 3574]

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