Selecção vocabular

Buracos


      «Tenho visto», escreve-me o leitor Fernando Ferreira, «cada vez com maior frequência, a palavra “cratera” ser usada em vez de “buraco”. Um exemplo recente é este: “Uma cratera gigante está a chamar as atenções para a cidade da Guatemala. O buraco gigante surgiu após a passagem da tempestade tropical Agatha, a primeira da estação ciclónica.” Gostaria de saber se o Helder considera apropriado o uso desta palavra no contexto citado.»
      No texto integral, é usado mais o termo «buraco» do que «cratera», mas este é usado no título, julgo que para denotar mais dramatismo. A imprensa anglo-saxónica limita-se a descrevê-lo como um hole, no máximo huge hole ou sinkhole. Quanto à propriedade do uso do vocábulo, porque é essa a pergunta do leitor. Bem, tirando o sentido do próprio étimo, cratera começou por ser somente a abertura por onde saem as matérias expelidas pelos vulcões em actividade. Por extensão de sentido, é também a «abertura no solo produzida pelo rebentamento de um projéctil, bomba ou carga explosiva» (como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Nenhum destes dois dicionários regista, porém, a acepção «grande buraco», usada no artigo do Expresso, que apenas vejo no Dicionário Houaiss. No contexto, eu evitaria usá-la.
      De resto, a capital da Guatemala é Cidade da Guatemala e não cidade da Guatemala.

[Post 3557]

Selecção vocabular

Juge de paix et greffier


      «Aconteceu em plena audiência de um Julgado de Paz em Bruxelas. Um homem entrou na sala e sentou-se, aparentemente calmo. Quando a audiência estava a terminar, aproximou-se do oficial de justiça e agrediu-o com um objecto contundente, matando-o. Depois, sacou de uma arma e disparou mortalmente contra a juíza, Isabelle Brandon, pondo-se em fuga» («Matou juíza a tiro durante audiência», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 4.06.2010, p. 39).
      Para quê as maiúsculas se o tribunal está indeterminado? E se fosse outro tribunal? O Jornal de Notícias titulou: «Assassino assistiu à audiência antes de matar juíza num tribunal belga». Este jornal também não usa a locução «oficial de justiça», mas «funcionário judicial». Se consultarmos um dicionário francês, greffier, a palavra usada na imprensa de língua francesa, é traduzido por «escrivão». (Contudo, só na carreira judicial é que vamos encontrar as categorias de escrivão auxiliar, escrivão-adjunto e escrivão de direito, e os julgados de paz são tribunais extrajudiciais.) Ora, a correspondência com os julgados de paz portugueses não é perfeita, pois os nossos não têm quadro de pessoal. Assim, não há nem oficiais nem funcionários judiciais.

[Post 3556]

Sobre «flotilha»

No mar


      «Bulent Yildrim, um dos organizadores da flotilha, admitiu que alguns militares foram desarmados, mas diz que as armas foram lançadas ao mar» («“Comemos uma vez em três dias”», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 4.6.2010, p. 38).
      A acepção do vocábulo flotilha aqui usada — pequena frota — é, de longe, a menos frequente em português, o que me leva a crer na influência do vocábulo espanhol flotilla, até porque a bordo havia espanhóis e um jornalista venezuelano. É curioso ver como a imprensa internacional de língua inglesa também usou o termo flotilla, embora muito menos do que fleet (aid fleet, escrevem muitos jornais). Em espanhol, flotilla tem somente uma acepção: frota composta de pequenas embarcações.

[Post 3555]

Léxico: «mesoscala»

Verbete não encontrado


      «— Mas — disse Harvey — não pretendo ampliar o meu trabalho pessoal. Eu sou apenas uma pequena peça. Lido apenas com eventos de mesoscala; estou sobretudo especializado em casos de ventos locais» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 24).
      Nenhum dos dicionários gerais da língua regista «mesoscala». Segundo o Dicionário de Meteorologia do Centro Estadual de Meteorologia da Bahia (CEMBA), é a escala de fenómenos meteorológicos que variam em tamanho de alguns quilómetros até 100 km, aproximadamente, o que inclui as rajadas de vento, especialidade do psicótico Harvey. Este dicionário grafa *meso-escala, mas só vejo duas variantes correctas: mesoscala e mesoescala. O antepositivo mes(o)- nunca se liga por hífen ao elemento seguinte. Em inglês é mesoscale.

[Post 3554]

Léxico: «enfermeiro nocturno»

Fazer vela


      «Quando cheguei às Urgências de Psiquiatria, estava tudo em silêncio e o enfermeiro nocturno estava a jogar ao solitário no computador com o rosto apoiado flacidamente sobre a mão» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 17).
      Sobrinho de enfermeiros, toda a vida ouvi que de noite se estava no «serviço de vela», nunca que se era «enfermeiro nocturno». (Vela é, aqui, um regressivo do verbo velar.) Lembram-se da «enfermeira circulante»? Neste caso, há-de ser tradução do inglês nocturnal (male) nurse. A única abonação para a expressão encontro-a neste número do Boletim do Trabalho e Emprego.

[Post 3553]

«Arame metálico»?

Puxado à fieira


      «As mesmas madeixas curvas cortadas a direito, como nessas bonecas vestidas de indígenas que vivem toda a vida em caixas de plástico, seguras por um arame metálico à cintura» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 13).
      Eu sei que por vezes se diz «arame metálico», mas será mesmo necessário acrescentar o adjectivo? Arame não é o fio de qualquer metal puxado à fieira? Ainda se fosse «fio metálico».

[Post 3552]

Recursos

O cão encadernado


      O leitor Paulo Araujo mandou-me o artigo acima sobre a reedição do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira Azevedo, pela Lexikon Editora Digital. A segunda boa notícia é a de que até final do ano a obra poderá ser consultada gratuitamente na Internet.
      É escusado enaltecer a importância dos dicionários analógicos. Sobre o dicionário do padre jesuíta Carlos Spitzer (1883–1922), ler este texto.

[Post 3551]

Léxico: «cronovelema»

Agora é tarde


      «Assim começa A Arte de Morrer Longe, o novo livro de Mário de Carvalho. Não é um romance, uma novela ou um conto. É um cronovelema» («A culpa é do Facebook», Rita Silva Freire, Sol, 14.05.2010, p. 46).
      O escritor, que lê Os Maias uma vez por ano, inventou a palavra cronovelema — e mandou-a estampar na capa — para designar a última obra. O que me parece, porém, é que estas classificações tipológicas já não interessam a ninguém, e sobretudo se inventadas.

[Post 3550]

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