Regências e expressões

Com olhos de ver

      «O problema é outro. É que durante todo este tempo Passos Coelho tratou sempre a actual liderança do PSD abaixo do analfabetismo. Valeu de tudo: acusações de ignorância, falta, de ideias, inépcia» («A questão do carácter», Pedro Lomba, Público, 8.12.2009, p. 40). «Abaixo do analfabetismo»? E isso significa alguma coisa? «Abaixo de analfabeto» deveria o cronista ter escrito. Mais: «Agora, nesta entrevista, Passos Coelho já não tem cerimónias». A expressão, porém, é «fazer cerimónia». E esta: «Pelos vistos, Ferreira Leite até tinha razão sobre o TGV. E é irónico e desleal que Passos Coelho a tivesse combatido aí com força, para agora a vir plagiar.» «É irónico e desleal»? A frase não saiu lá muito bem. E a última: «Passos Coelho prefere antes “construir ideias”.» Errado: preferir antes é redundante e resulta do cruzamento com uma expressão sinónima, antes querer. Se eu fosse bruto, diria que a crónica é uma lástima.
[Post 2885]

Chatices e parvoíces

Como uma nódoa

      A propósito da ortografia do vocábulo saloiice, com que um crítico da revista Ípsilon/Público não atinou (espero que não se interrogue, à semelhança de outro crítico, se «estará a acção de uma pessoa que escreve recensões […] sujeita a réplicas e tréplicas»), um anónimo perguntou-me se «então, não devia ser “chatoíce”». Mas talvez pergunte mal. O que fiz nesse texto («Saloi(o)+ice») foi mostrar, em duas linhas, que não se pode tomar a formação de um («saloiice») nem de outro («parvoíce») como única ou paradigmática. Afinal, porque é que é parvoíce e não parvice, é essa a pergunta? Também está errada: por exemplo o VOLP regista «parvice». Contudo, a tradição da língua na formação de derivados de «parvo» foi pela manutenção da forma /parvo/. Compare-se: parvoalho, parvoeira, parvoidade, parvoejar, parvoíce. O parvo fica lá sempre, indelével como uma nódoa.

[Post 2884]

Ortografia: «Ispaão»

Respeitadores, por uma vez


      «Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia). E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica» («Os novos anti-semitas», Rui Tavares, Público, 7.12.2009, p. 40). Bem merece a designação portuguesa, pois até ao fim da primeira metade do século XVIII houve uma comunidade portuguesa, com uma igreja católica, nesta cidade. Felizmente, em relação a este topónimo, que tem surgido muito ultimamente (a propósito, por exemplo, da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem), os jornalistas têm sabido resistir à forma inglesa do topónimo, Isfahan.

[Post 2883]

Léxico: «ropálico»


Em forma de clava


      Caro M. L.: não são todos os dicionários que registam o adjectivo ropálico. O Dicionário Houaiss regista-o: «diz-se de ou verso grego ou latino que começa por monossílabo, tendo cada um dos versos seguintes uma sílaba a mais que o precedente». Dicionário que também regista o étimo, que diz ser do latim tardio rhopalĭcus (versus), «verso que começa por um monossílabo e vai sempre crescendo», derivado do grego rhopalikós,ê,ón, «em forma de clava». Atente na imagem acima: nela vê-se uma clava, que é a arma que consiste num pedaço de pau grosso, mais volumoso numa das extremidades, e que se usava para ataque e defesa. O que me faz lembrar os caligramas, que são os textos, geralmente poemas, cujas linhas ou caracteres gráficos formam uma figura sugestiva do conteúdo ou da mensagem do texto.


[Post 2882]

Ascendência/descendência

Elementar

      A propósito do jantar que Barack Obama ofereceu ao primeiro-ministro indiano, Manmohah Singh, na Casa Branca, Conan O’Brien, numa das emissões de ontem do Tonight Show, na SIC Radical, fez humor e disse que estiveram presentes muitas estrelas com ascendência indiana. Ascendência disse O’Brien e digo eu, porque para a tradutora, Patrícia Amaral Gama, da Dialectus, era com «descendência indiana». É lamentável como se confundem os vocábulos e os conceitos. Há-de haver alguns artistas americanos que descendem de indianos — mas eles próprios não têm descendência indiana, têm ascendência indiana. Alguém confunde ascender (subir, se quisermos) com descender (descer, se quisermos)? Ascendência é a linha de gerações anteriores a um indivíduo ou a uma família; descendência é a série de indivíduos que procedem de um tronco comum.

[Post 2881]

Etimologia: «consoada»

Alentejo, anos 30

      «[Maria de Lourdes Modesto] Percebeu que o verdadeiro Natal tradicionalista era — já o dizia Ramalho Ortigão — o do Norte, o Natal minhoto. “Não há dúvida de que o grande Natal é do Porto para cima. Aí o bacalhau é rei, aparece cozido, aparece em bolinhos. E também o polvo guisado.” Descobriu a palavra “consoada”, que no seu Natal alentejano não se usava» («A consoada tornou-se mais “nacional”», Alexandra Prado Coelho, Pública, 6.12.2009, p. 28). A palavra parece — parece, apenas, pois boa parte das palavras que nos chegaram tem uma origem incerta — que provém do latim consōlāta, substantivação da forma feminina do particípio passado do verbo consolārī, «consolar, confortar, animar, mitigar».

[Post 2880]

Neologismo: «sedevacantista»

Talvez nunca


      Cara Luísa Pinto: não, não conheço nenhum dicionário que registe o neologismo «sedevacantista» (de «sede vacante», diocese onde falta o prelado, por morte, renúncia, deposição ou transferência), designação que se dá aos cismáticos que não aceitaram a eleição dos papas que se seguiram a Pio XII, falecido em 1958: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI). Não conheço nem me parece que alguma vez isso aconteça. Mas, como ex-professora, decerto que sabe que tal não é condição imprescindível para usarmos o vocábulo.

[Post 2879]

Aquisição da linguagem: inatismo

O artisto e a artista

      A minha filha tem dois anos e meio e gosta, decerto que como todas as crianças, que lhe contem histórias. (Agora, prefere que lhas conte, não que as leia.) Há dias, contava-lhe a história dos ursinhos Plum e Plumete no circo, uma obra da autoria da escritora e ilustradora francesa (mas nascida na Roménia) Lise Marin e adaptada para português por Leonor Garcia e que se pode considerar, leio na recensão que António Couto Viana fez da obra em 1989, «uma iniciação à leitura». Quando digo à minha filha que Plum e Plumete (um ursinho e uma ursinha) são artistas, ela corrige-me de imediato: «“Artistas” não: artisto e artista.» É nestes momentos que a teoria do inatismo, defendida por Noam Chomsky, que diz que o ser humano é provido de uma gramática inata, ou seja, que esta já nasce com a pessoa e vai tomando forma conforme o seu desenvolvimento, se nos impõe mais. Para a minha filha, ainda não há substantivos comuns de dois: o/a artista. E porquê? Porque a «gramática interna» lhe diz que para a generalidade dos substantivos a marcação de género é feita morfologicamente.

[Post 2878]

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