Léxico: «sobreembalagem»

O excesso de vazio

      «“A sobreembalagem [espaço vazio entre a embalagem e o produto] e vários tipos de material são falhas comuns na concepção das embalagens”, o que, além de consumir muitas matérias-primas, dificulta a separação doméstica e a reciclagem, conclui um estudo da DECO PROTESTE ao impacto ambiental de 14 produtos embalados» («DECO alerta para abuso na sobreembalagem e diversidade de materiais», Jornal de Notícias, 24.11.2009). Li a notícia em vários meios, no jornal Metro, no sítio da Rádio Renascença, da TVI, e só no JN se ensaiou uma tentativa de definição — e está errada. Vejamos. O elemento de formação de palavras sobre- tem origem latina (super) e exprime a ideia de além de, posição superior, por cima, demasiado, como em «sobreexcelência», «sobreexaltação», «sobreexcitação»... (No sítio da Rádio Renascença, lê-se «sobre-embalagem», o que é incorrecto.) No caso, transmite claramente a ideia de excesso, pelo que a definição «espaço vazio entre a embalagem e o produto» não tem pés nem cabeça.

[Post 2846]

Conceito: «dífono»

Di quê?

      Andava aqui às voltas com os conceitos de digrama (que alguns borra-botas escrevem «diagrama») e de dígrafo para uma crónica que estou a escrever, e eis que encontro o conceito de dífono: o grafema que representa dois sons. Na língua portuguesa só temos um, que é o x quando usado com valor de /cs/, como nos vocábulos «complexo», «reflexo», «sexo», «táxi».
[Post 2845]

Ortografia: «ponto-morto»

Mecânica

      É como diz, caro M. L.: se se escreve marcha-atrás (e agora já penso que devemos grafá-la assim), então também devemos escrever ponto-morto. É como registam vários dicionários e como se vê na imprensa: «As posições são P, R, N, D, S e L. As primeiras quatro são comuns: travado (P), marcha-atrás (R), ponto-morto (N), e condução normal, em frente (D). Quanto ao S, é para uma circulação mais rápida, quando a economia de combustível não é importante, enquanto que o L serve para as subidas íngremes, como as mudanças ‘baixas’ de um jipe ou veículo pesado» («Pela ecologia», Emanuel Costa, Tabu, 3.07.2009, p. 58).

[Post 2844]

Ortografia: «sem-papéis» II

De certeza que não

      «O Presidente Nicolas Sarkozy rejeitou ontem a regularização maciça de imigrantes ilegais — que podem ser 400 mil em França. O debate foi relançado pela greve dos “sem-papéis” que trabalham em empresas francesas, que decorre desde 12 de Outubro, e pelo anúncio do ministro da Imigração, Eric Besson, de que iria preparar uma lei que previa o encerramento das firmas que empregassem imigrantes ilegais» («Governo quer punir patrões que empregam “sem-papéis”», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 17). Será mesmo preciso copiarem-se no pior?

[Post 2843]

Tradução: «francité»


Que é isso?

      Éric Besson, o ministro da Imigração e da Identidade Nacional francês, quer agora saber o que é ser francês. «O ambiente nos media, percebe-se bem, não é favorável a este debate, que é recusado pela esquerda. Mas muitos intelectuais e académicos têm oferecido um contributo que passa mais por arrasar os motivos do debate do que por oferecer ideias para definir a “francidade” (“francité”, como se diz em vários textos publicados, num tom mais ou menos jocoso)» («Definir o que é ser francês servirá apenas para cortar na imigração?», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 16).

[Post 2842]

Aportuguesamento: «paparaço»

Em 2019

      Lá para os lados de Sintra, nasceu uma nova palavra: melhor, foi aportuguesada uma palavra que lemos todos os dias: «Nessas revistas tenho descoberto o ritmo iô-iô. Para aparecer, a pessoa engorda e é apanhada por um paparaço. Depois, aparece e jura que vai emagrecer. Emagrece e aparece, pela 3.ª vez. Emagrece de mais e reaparece, como anorética, pela 4.ª» («Um pânico feliz», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.11.2009, p. 43). De paparazzo, paparaço. Assim, já podemos ter um plural regular — paparaços —, e não a estupidez *paparazzis. Vai pegar? Falamos daqui a dez anos. (Mas é anoréctica ou anoréxica, como já aqui vimos.)

[Post 2841]

Semântica: «fenómeno»

Veja bem

      Uma leitora, professora de Português reformada, diz-se indignada por ter ouvido na Antena 1 que o PSD quer constituir uma comissão parlamentar eventual para acompanhar o fenómeno da corrupção. «Fenómeno, tanto quanto sei», argumenta, «só se aplica à Natureza; a corrupção é um acto voluntário do Homem.» Lamento contrariá-la, mas uma das acepções do vocábulo «fénomeno» aplica-se inteiramente no contexto: «tudo o que a nossa consciência ou os nossos sentidos podem apreender».

[Post 2840]

Léxico: «mobilete»

Mais uma

      «Um homem de 56 anos apresentou na última semana uma queixa relativamente a outro homem (que só conhece pela alcunha) que alegadamente terá caído da sua mobilete» («Agredido por homem que tinha tentado ajudar», Jornal do Fundão, 19.11.2009, p. 9). Mobilete começou por ser uma marca de um ciclomotor que existiu no Brasil. Tinha 49,9 cc, e por isso não exigia habilitação nem placa de matrícula. À semelhança de outras marcas, vimo-lo aqui recentemente a propósito de chiclete, tornou-se nome comum, fenómeno designado derivação imprópria.

[Post 2839]

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