Infinitivo: qual deles?

Podes crer

      «Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na faculdade de Direito» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 132). Se for regido de preposição (neste caso, «para»), o infinitivo pode ser flexionado ou não. Logo, o tradutor poderia ter optado por escrever: «Markie, tu estás aqui para seres um estudante e para estudares o Supremo Tribunal e para estudares o Thomas Jefferson e para te preparares para entrar na faculdade de Direito.» E seria mesmo desta forma que eu poria a falar a mulher de um talhante, kosher ou não.

[Post 2838]

Léxico: «grafitar»

Picha-me aí essa parede

      «As latas de spray no chão, junto à mochila, despertam olhares curiosos em alguns clientes do supermercado. Nomen vai preenchendo com tinta os espaços entre as linhas desenhadas na parede de betão que separa o parque de estacionamento da zona comercial do IC19. Desta vez não tem que se preocupar com a polícia, uma vez que está a graffitar muros do itinerário que liga Lisboa a Sintra por conta da Estradas de Portugal» («IC19 vai ter muros decorados com graffiti», Luís Filipe Sebastião, Público, 24.11.2009, p. 25). «Graffitar»? Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafitar é somente «revestir de grafite (a superfície de um objecto) para o tornar condutor eléctrico» ou «lubrificar com pasta de grafite», para o Dicionário Houaiss também é «executar grafites em; riscar, rabiscar, pichar». Mais um erro do Departamento de Dicionários da Porto Editora, tanto mais que regista, por exemplo, «grafiteiro», o «autor de grafitos». Erro, sim. Leiam o que escrevem Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006) sobre os dicionários: «A ausência de uma palavra num determinado dicionário não deve, pois, ser interpretada ligeiramente como indiciadora da sua inexistência: pode tratar-se de uma palavra que cai fora do escopo do dicionário; que, por erro, não foi incluída; ou, ainda, que não precisa de estar dicionarizada por ser um produto previsível dos recursos morfológicos disponíveis (como sucede com a maioria dos advérbios em –mente, como necessariamente, ou com diminutivos em –inho, como livrinho)» (pp. 85-86).

[Post 2837]


Actualização em 28.11.2009

      «Convidaram alguns bons grafitters (eu cá preferia grafitistas ou grafitógrafos) para pintar (e não decorar) alguns muros. Acho bem. Acho que a única maneira de impedir os taggings mais feios (a que chamaria rubricas murais) é apelar ao gosto dos rubricadores e assinantes» («Em algo bonito», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.11.2009, p. 51).

Ortografia: «lipoaspiração»

Mas não é

      «Isto para pseudo-embelezar idiotas de ambos os sexos que provavelmente gastam fortunas para que lhes seja extraída a gordura, por lipo-aspiração, sem ter sequer o cuidado de pedir que a ponham num garrafãozinho, para levar para casa» («Da gordura humana», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.11.2009, p. 39). Talvez tenha sido culpa do revisor, mas está errado: é lipoaspiração. Nunca o antepositivo lipo- é separado por hífen do segundo elemento. A propósito: já viram a diferença entre lipoaspiração e lipoescultura? Esta é uma espécie de transfusão autóloga.

[Post 2836]

«Da cabeça aos pés»

Comparemos

      No exame nacional de Francês de 1997, pedia-se aos alunos que traduzissem para português um pequeno texto de Jean Guéhenno (1890−1978), extraído da obra Journal des années noires. Esta era uma das frases: «Je te vois de pied en cap, dans ton uniforme un peu fripé désormais et pas mal élimé aux genoux et aux coudes […].» Reparem na expressão «de pied en cap». Da cabeça aos pés ou de alto a baixo, traduziríamos nós. Em latim, por exemplo, também havia pelo menos duas maneiras de dizer o mesmo: a vertice ad talos e a calce ad caput. O que é interessante é isto: a língua inglesa foi buscar a expressão ao francês médio e hoje regista o advérbio cap-a-pie, derivado de de cap a pé. Actualmente, porém, como pudemos ver, os termos inverteram-se na língua de origem: em vez de ser da cabeça aos pés, é dos pés à cabeça. A língua inglesa tem, tem sempre, várias formas de dizer o mesmo: from head to toe, from head to heels...

[Post 2835]

Abreviaturas e plurais


Nunca visto

      De vez em quando, leio o semanário Jornal do Fundão. Quanto à correcção com que a língua é usada, é tão bom ou tão mau como outros — com a diferença de que tem revisor. Entre muitos, muitos erros, a minha atenção foi atraída para o que a imagem ilustra: a abreviatura da palavra «telefones» e o plural da palavra «fax». Valha-me Deus, caro Jerónimo Rondão Clemente, senhor revisor, então acha mesmo que a abreviatura de «telefones» é *telf.’s e o plural de «fax» é fax’s? E onde é que aprendeu isso?


[Post 2834]

Nome de doenças II

Hão-de aprender

      «Vítima de um Acidente Vascular Cerebral, o idoso vivia debilitado» («Taxista mata idoso», Henrique Machado, Correio da Manhã, 21.11.2009, p. 11). É a terceira vez que abordo aqui esta questão. O nome das doenças, repito, não é grafado com inicial maiúscula. No caso, admito que a confusão se deva ao facto de a doença ser mais conhecida pela sua sigla, AVC. O mesmo se passa com o desdobramento do acrónimo (ou sigla, para alguns) ONG, o que leva alguns falantes, jornalistas, a escreverem *Organizações Não Governamentais.

[Post 2833]

Sobre «overbooking»

Estou que não posso

      Ainda não me recompus completamente das opiniões abstrusas do provedor do ouvinte da RDP (pobre ouvinte!) sobre o uso de estrangeirismos na rádio. A linguista Regina Rocha disse que «overbooking em português significa “sobrelotação”... Mas soa pesada, horrorosa…». Réplica do provedor: «O avião está sobrelotado e as pessoas pensam assim: mas porquê? Leva bagagem a mais? E quando a gente ouve “overbooking”, sabemos logo: “Olha, estão lá outras pessoas que não cabem lá”.» Pois eu, e garantidamente a maioria dos falantes, penso algo diferente: que quem usa estrangeirismos desnecessários é pedante e desconhece a língua portuguesa. Se se tratar de um jornalista, lamento também o azar dos destinatários, leitores, ouvintes ou telespectadores.

[Post 2832]

«Dupla ocultação»

Mais inglesias

      Um tradutor, Gonçalo Sousa Pinto, pergunta ao Ciberdúvidas se não deveria traduzir a expressão inglesa «double blind trial» por «ensaio clínico com dupla ocultação», em vez de traduzir como é habitual: «duplo cego» «duplamente cego», «de duplo-cego», «com duplo cego», etc. O consultor, Carlos Marinheiro, responde que o «Dicionário Eletrônico Houaiss regista o termo duplo-cego (da medicina), considerando-o redução de “método duplo-cego”; a comunidade científica desta área também o usa generalizadamente, de modo que não me parece que haja vantagem em chamar-lhe “ensaio clínico com dupla ocultação”. O termo está praticamente consagrado pelo uso.» Bem, o que vejo é que a comunidade científica também usa generalizadamente «dupla ocultação» — que o consulente afirma, e bem, que está menos colado ao original inglês. Assim, à locução ensaio clínico aleatorizado com dupla ocultação (que é utilizada aqui, por exemplo), aposto que o consultor prefere ensaio clínico randomizado de duplo-cego. O que posso afirmar é que é muito frequente ver nas traduções «dupla ocultação» para «double-blind». Apesar de tanta certeza, o consultor ignorou o último pedido do consulente: «Agradeço o vosso esclarecimento e também que me possam indicar alguma publicação ou site de referência em português para o léxico próprio dos ensaios clínicos e publicações científicas da área da saúde.» Talvez não tenhamos tal, mas temos textos de consultores científicos em que se usa a locução «dupla ocultação».

[Post 2831]

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