«Tratar-se» e «mandato»

Só duas coisinhas

      De vez em quando, é bom repetir alertas, pois estão sempre novos jornalistas a começar a exercer (com a crise, despedem-se os mais velhos ou os mais incómodos e contratam-se dóceis estagiários). «Ontem, foram identificados mais seis doentes em Portugal, fazendo disparar para 33 o total de casos no País. Tratam-se de cinco homens, com idades entre os 21 e os 84 anos, vindo do Canadá e de Espanha, e uma mulher de 29 anos que esteve também no Canadá» («OMS confirma risco para grávidas mas vacina está por decidir», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 17). Apesar de já aqui ter referido este erro vezes sem conta, continua, e continuará, não tenho ilusões, a ver-se diariamente.
      «Segundo a agência Associated Press [sic], o apartamento foi posto sob custódia ao abrigo de um mandato judicial» («Polícia expulsa Ruth Madoff da casa do casal», Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 43). É lamentável que os jornalistas continuem a confundir «mandato» com «mandado».

Ortografia: «sem-papéis»

Falta pouco

     «Desde ontem, um “sem-papéis” é oficialmente um delinquente, que vê a sua vida familiar transformar-se num inferno — não pode registar os filhos e quem lhe alugar casa pode ser condenado — e se for apanhado será imediatamente expulso é [sic] poderá ser obrigado a pagar uma multa de cinco a dez mil euros» («Crime, multa e expulsão: destino dos ilegais em Itália», Susana Salvador, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 29). Estamos quase lá, só falta desembaraçarmo-nos das aspas. Já vimos pior.

Léxico: «comoriano»

É natural

      Já repararam que a imprensa, de uma maneira geral, evita usar o gentílico relativo às Comores? Qual é o receio? Quase todos os jornais dizem «naturais das Comores». No entanto, comorense ou comoriano são formas correctas: «Em Paris, o Presidente francês Nicolas Sarkozy assistiu a uma cerimónia inter-religiosa na Mesquita Central, de homenagem às 153 pessoas que seguiam a bordo do Airbus A310 — a maioria franceses e comorianos» («Sobrevivente do acidente no Índico reencontra o pai», Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 27).

«Vontade de»

Ganas

      Tal como o jornalista Licínio Lima errou na regência verbal («coibir de»), também a jornalista Patrícia Jesus erra na regência nominal destacada: «Os sindicatos dos professores estão satisfeitos com a vontade demonstrada por Manuela Ferreira Leite para mudar os estatutos do Aluno e da Carreira Docente, o sistema de avaliação e aliviar a carga burocrática dos professores» («Promessa sobre nova avaliação agrada a professores», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 17). A regência daquele substantivo faz-se com a preposição de: vontade de (como intenção de).

«Aniversário» adjectivo?

O inventor

      E a propósito de transgressão: vejam esta frase do artigo citado no texto anterior: «De resto, realizou-se ontem mais uma cerimónia aniversária da PSP com os habituais discursos, condecorações (ver caixa) e desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Em latim é que anniversarius, «aquilo que regressa todos os anos», era um adjectivo. Em português é meramente substantivo: dia em que se completa um ou mais anos a partir daquele em que uma pessoa nasceu ou um acontecimento ocorreu. Não é preciso, garanto-lhe, inventar tanto para exprimirmos o que pretendemos.

«Coibir de»

Não te coíbas de escrever

      «Mais pragmático e directo, na cerimónia, foi o director nacional da PSP, superintendente chefe Oliveira Pereira, que nem se coibiu em sair do palanque para ajudar na organização do desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Licínio Lima queria escrever superintendente-chefe. À semelhança, já aqui o vimos recentemente, de comandante-chefe, economista-chefe, enfermeiro-chefe, escuteiro-chefe, inspector-chefe, patologista-chefe… O que me levou a escrever, contudo, foi aquele «coibiu em». Na verdade, a regência do verbo não é essa, mas coibir de. Não é preciso reinventar, transgredindo, a língua todos os dias, basta estudar e ler.

Léxico: «sniper»

Atirador especial

      Não chega dizerem que são atiradores especiais: têm de usar o anglicismo «sniper». Sniper, spotter No Diário de Notícias pelo menos não se esqueceram de explicar o termo: «Os três atiradores especiais (snipers) chamados a intervir no assalto ao BES de Campolide, a 7 de Agosto de 2008, em que um dos assaltantes foi abatido e outro ficou ferido, foram ontem condecorados pelo Ministério da Administração Interna no decorrer do 142.º aniversário da PSP» («‘Snipers’ presentes no BES foram condecorados», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). No Correio da Manhã, pelo contrário, acham (mas perguntem mesmo só na redacção, se querem uma prova de quão errados estão) que não é preciso explicar nada: «O Prémio de Segurança Pública foi entregue aos três snipers da Unidade Especial de Polícia que dispararam contra Wellington Nazaré e Nilson Souza, não causando qualquer ferimento nos reféns» («Snipers do BES condecorados», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14).

Léxico: «paramotor»

Agora sim

      «Ao mesmo tempo, sobre o Centro Cultural de Belém, mostravam-se os seis paramotores pilotados por elementos da PSP» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Ainda pensei que fosse criação vocabular do jornalista, mas, como vêem, o texto não foi escrito por Daniel Lam. Confirmei no Correio da Manhã: «Agora, a PSP também vai andar pelos ares, com a criação de uma equipa de paramotores» («Polícias no ar a combater o crime», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14). O paramotor, apesar da sua ligeireza, é uma aeronave pessoal que usa uma asa de parapente e um motor montado numa estrutura leve. Ao contrário do parapente, o paramotor não precisa de desnível para descolar.

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