Sobre o trema


Das letras ramistas a Citroën

      No dia 1 de Outubro de 1885, André Gustave Citroen, filho do joalheiro holandês Levie Citroen e da polaca Mazra Kleinmann, entra para o 9.ºC no Liceu Condorcet em Paris. Quando se matricula, acrescenta um trema ao patronímico: Citroën. Passados 123 anos, alguns jornalistas portugueses ainda não sabem exactamente onde deixar cair os pingos, como dizem os Brasileiros. Em francês, o trema (tréma, nesta língua, cujo étimo é o grego τρημα, «orifício, buraco») é o sinal ortográfico formado por dois pontos justapostos que se escrevem sobre as vogais e, i e u para indicar que não formam um digrama com a letra anterior nem é a associação de uma semivogal com uma vogal, mas que se trata de uma disjunção entre duas vogais, que por isso devem ser pronunciadas separadamente: aiguë, Israël, maïs, capharnaüm...
      O trema foi introduzido em 1532 na língua francesa pelo médico Jacobus Sylvius para distinguir o i e o u vocálicos do i e do u consonânticos, que se confundiam graficamente. Só mais tarde foram introduzidas as chamadas letras ramistas (assim designadas em homenagem ao humanista francês Pierre de la Ramée, conhecido por Petrus Ramus, nascido em 1515, que na página 26 da sua Grammaire Française, publicada em 1572, propôs estas letras), o j e o v, desconhecidas do Latinos.

Citar a Bíblia

A Luz brilhou nas trevas

O Evangelho segundo S. João, que se lê na terça-feira da Semana Santa, contém o episódio do anúncio da traição de Judas. «Fazia-se noite» quando Judas saiu, lemos (Jo 13, 30b). (Na Vulgata, lê-se: «erat autem nox».) O que me fez lembrar a frase «felizmente há luar», que se repete na obra homónima de Sttau Monteiro. No drama, a frase tem significados diferentes, e mesmo opostos, consoante é proferida por uma ou por outra personagem. A frase bíblica, por seu lado, alude à luta final entre os poderes das trevas (e ao domínio das trevas, que é o triunfo passageiro de Satanás) e a Luz verdadeira.
E já que pergunta, leitor, dir-lhe-ei: a letra b depois do número do versículo indica que se cita apenas uma parte do versículo e não todo o versículo. «Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite.» Naturalmente que só depois de localizar o versículo todo, o 30, neste caso, é que se poderá perceber a que parte se refere a letra.

«Mal-encarado» e «malvisto»

Fale por si

      «Depois do Prós e Contras sobre o casamento homossexual, só tenho ouvido piadas e agravos contra juristas. Duas que já li foram: a melhor maneira de matar um debate interessante é convidar um jurista e; qual é a doença que leva os juristas a falar à jurista? Não sou corporativo e por mim estejam à vontade. Mas, como membro da tribo, há aqui um problema que claramente me interessa: porque é que os juristas são mal-encarados em Portugal?» («Os juristas, pobres coisas», Pedro Lomba, Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 7). Claro que o autor queria escrever outra coisa — mas não escreveu. Como jurista, vai ser exemplarmente escarmentado: o adjectivo «mal-encarado» significa o que tem má cara, carrancudo; o que revela maus instintos. Pedro Lomba havia de querer escrever «malvisto»: «que tem má fama; desacreditado; odiado; antipático».

Léxico: «suburbicário»

Em volta de Roma

«O Papa Bento XVI promoveu o cardeal português D. José Saraiva Martins à Ordem dos Bispos do Colégio dos Cardeais, atribuindo-lhe o título da igreja suburbicária de Palestrina» («Saraiva Martins promovido», Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 12). Igreja ou sé suburbicária é cada uma das sete dioceses cardinalícias localizadas em volta de Roma reservadas aos cardeais-bispos: Albano, Frascati, Óstia, Palestrina, Porto-Santa Rufina, Sabina-Poggio Mireto e Velletri-Segni.

Eufemismos e disfemismos

Oito ou oitenta

«Nascido a 19 de Outubro de 1936, numa família de 17 filhos, na América de Franklin D. Roosevelt, o afro-americano serviu duas vezes na Marinha antes de terminar o curso no Seminário Teológico Baptista de Nashville» («O conselheiro rebelde de Martin Luther King», Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 37). Eu já aqui disse que conheço mais africanos brancos do que negros? Não? Mas disse isto. A moda do politicamente correcto está para durar. Claro que, em paralelo, também vão sendo largados alguns disfemismos, como este: «Um minuto. Foi o tempo que demoraram os agentes da PSP a chegar ao local do crime e a apanhar o bandido em flagrante» («Homem-aranha apanhado na ‘teia’ da PSP», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 6.02.2009, p. 18).

Ortografia: «rulote»

Ficamos a meio?

«Incêndio consome armazém de roulotes e caravanas» (26.12.2008, Diário de Notícias, p. 21). Justamente como ocorre com os vocábulos «icebergue» e «basebol», que aqui vimos recentemente, o vocábulo «roulote» foi apenas parcialmente aportuguesado. Ter perdido apenas um troulotte — na passagem do francês para o português não é suficiente e revela como os lexicógrafos ficam muitas vezes nas meias-medidas. Não nos esqueçamos que quase todos os dicionários são, em alguma medida, tão descritivos como prescritivos.

Léxico: «esteiro»

Soeiro Pereira Gomes (1909–1949)

Que a efeméride sirva também para lembrar o que são esteiros — título do seu romance com ilustrações de Álvaro Cunhal publicado em 1941 —, pois é a palavra que logo ocorre quando se fala deste escritor neo-realista. Esteiros são braços estreitos de rio ou mar que se estendem pela terra dentro. No caso, são canais abertos pelo Tejo na margem do concelho de Alhandra e de onde se retirava barro para fazer tijolos e telhas. O étimo é o latino aestuariu-, «lugar onde a água ferve». É palavra divergente de «estuário», parte de um rio, próxima da sua foz no mar, onde a água doce se confunde com a salgada.

Abuso de estrangeirismos


Mostras de cosmopolitismo

Cake Parade, em Portalegre? Deve ser para competir com as Gay Parades por esse mundo fora. Só pergunto se não arranjavam um nome português para esta iniciativa, uma mostra de arte pública, integrada na IX Feira da Doçaria Conventual de Portalegre, a decorrer no Mosteiro de S. Bernardo, em Portalegre, de 24 a 26 de Abril. Calma, não se abespinhem! É verdade: já me esquecia de algo mais parecido e igualmente digno: a Cow Parade. Os organizadores, próvidos e cosmopolitas, devem ter pensado que seria menos artístico ter um nome português e, sobretudo, que nem toda a gente perceberia se estivesse escrito nesta língua assaz obscura.

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