Léxico: docudrama

Outros dramas

Uma leitora pergunta-me se existe em português e, existindo, o que significa a palavra «docudrama». Existe: até já está registada, por exemplo, na MorDebe. Os jornais também a usam, como se pode ver na citação seguinte, em se dá a própria definição: «Sá Carneiro A Força de Viver é o título do docudrama (documentário em que algumas cenas são reconstituídas por actores) que a RTP1 exibe às 21.45 de hoje, data que assinala os 25 anos sobre o desastre de avião que matou Francisco Sá Carneiro» («O último dia de Sá Carneiro», João Pedro Pereira, Diário de Notícias, 4.12.2005). Vem do inglês docudrama, uma amálgama de docu(mentary) com drama.

Léxico

Palavras malditas

Se algum dia fizesse — e até pode ser que faça, pois sou, já viram, um espírito sistemático — uma lista das palavras que detesto, e nunca me fizeram mal, coitadas, à frente estaria, sem dúvida, a palavra (deixem-me fazer figas) «atempadamente». Bem me podem torturar: nunca a usarei. A tempo o digo: só a título demonstrativo, como agora, pois claro.

Apostila ao Ciberdúvidas: galderice

O verbete pe(r)dido

Um consulente do Ciberdúvidas queria saber se as palavras «galdeirice» e «galdenice» existem. O consultor Carlos Rocha argumenta, e muito bem, que a forma mais correcta é «galderice», «seguindo o modelo de vigarice, palavra que tem por base vigário». Acrescenta ainda, e acha «curioso», que no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa se empregue «galderice no verbete de galdério, adje(c)tivo, numa das respectivas acepções: “que anda sempre na pândega, na galderice.” No entanto, o substantivo em causa não tem entrada própria nesse dicionário». E não há outros dicionários de língua portuguesa, pergunto eu? Porque é que vamos logo citar um que tem estas «curiosidades» (vulgo incongruências)? O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, por exemplo, regista: «Galderice (è), s. f. Qualidade de galdério.»

Idêntico

Desconversas de botica

      Numa farmácia em Benfica, asseguraram-me, e agora já se arrependeram, que «a glicerina é muito idêntica à vaselina». «De química», respondo fleumaticamente, «não percebo nada, mas uma coisa lhe digo: a identidade não comporta graus, ao contrário da competência linguística. E mais: questiono-me se será mesmo assim. Isto é, se a glicerina é muito semelhante à vaselina.» «Desculpe: podia repetir?» «Perguntava onde é a farmácia mais próxima.» Pois, a língua evolui...

Semântica: «ladrão»

Língua pérfida

Antigamente, só havia ladrões no exército. Agora, há-os em todo o lado. É uma injúria, esta afirmação, diz? E o leitor acha que eu sou ingénuo? Explico (e quebro o protocolo de leitura): os mercenários que faziam parte da escolta dos imperadores romanos chamavam-se latro (latronis), e servir no exército dizia-se latrocinare. Como é que de soldados, latrones, é certo, passaram a ladrões propriamente ditos? Com a dissolução do Império Romano, o salário (salário porque eram pagos em sal, tal como os cartéis da droga pagam em cocaína aos seus mercenários) destes mercenários começou por ser irregular, até que deixou de ser pago. Nesta altura, e porque tinham o direito de usar armas e necessidade de se alimentarem como todos os mortais, passaram a salteadores, ficando assim fixado o significado actual da palavra «ladrão». Percebem agora a afirmação inicial? Já muito diferente é a frase, que joga com a ambiguidade, que me enviaram recentemente: «Os autarcas portugueses são os mais católicos do mundo: não assinam nada sem levar um terço.»

Caixa automático (ATM)

Imagem: http://download.humor.orange.es/

O caixa da caixa


      Recentemente, alguém me deixou aqui nos comentários a estranheza por se dizer «o caixa automático» (a ATM, Automatic Teller Machine) e não «a caixa automática». Como acabei de ver o mesmo erro numa tradução do espanhol, aproveito e dou a minha opinião. «Los cajeros automáticos han cambiado notablemente la forma de trabajar del sector bancario.» O tradutor verteu, autorizado pelo Dicionário Houaiss e pelo Dicionário da Academia: «As caixas automáticas mudaram notavelmente a forma de trabalhar do sector bancário.» A explicação para se usar o masculino estará, como sugere o consultor do Ciberdúvidas Carlos Rocha, no facto de durante muito tempo ser uma profissão desempenhada maioritariamente por homens, pelo que seriam os caixas. Logo, quando se automatizou o serviço, bastou acrescentar o adjectivo: o caixa automático. Já não concordo é com o argumento de que deve mudar-se para «caixa automática» porque «máquina» é do género feminino. Curiosamente, também os Espanhóis têm cajeros (do latim capsarĭus) e cajeras, e quase de certeza mais cajeras que cajeros, e a expressão deles é cajero automático. Mas claro que há caixas automáticas: um vizinho meu tem um Citröen C5 com caixa (de velocidades) automática.

Apostila ao Ciberdúvidas: derivação

Leiam-se

      Um estudante de Luanda, Celso Corte Real Correia, quis saber a diferença entre derivação regressiva e derivação progressiva, e acrescentou: «Parece-me que a essência de ambas é a mesma, ou seja, de verbos derivam os nomes.» No dia 10 de Abril, teve resposta da consultora do Ciberdúvidas Carla Viana, que, em relação concretamente à derivação progressiva, afirmava: «Na derivação progressiva incluem-se a derivação sufixal (por exemplo, os substantivos formados a partir de verbos pelo acréscimo de um afixo, como conhecimento = conhecer + -mento, com alteração da vogal temática -e > -i), a derivação prefixal e a derivação parassintética.» O mesmo estudante voltou a consultar o Ciberdúvidas sobre o mesmo assunto e a resposta do consultor Carlos Rocha foi surpreendente: «A expressão “derivação progressiva” não está consagrada nos estudos gramaticais, embora se consiga compreender que será o contrário de derivação regressiva: esta consiste em fazer derivar uma palavra de outra através da perda de elementos (por exemplo, desinências), enquanto aquela será o processo que acrescenta elementos a uma palavra para formar uma nova.»
      Não está consagrada? Com a resposta da consultora Carla Viana ficáramos com a convicção de que estava. Leio no Dicionário Prático para o Estudo do Português, da autoria de Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo (Edições Asa, Porto, 2003): «A derivação própria pode ser progressiva ou regressiva:
— ao processo de adição de um prefixo ou sufixo dá-se o nome de derivação progressiva: trabalhotrabalhador; cultoinculto; nacionalizardesnacionalização.» (p. 161).

Léxico: «Macaronésia»

Ilha do Macarrão


      Cara Luísa Pinto, a Macaronésia existe mesmo, ainda que num mapa vulgar não a veja indicada. A região biogeográfica conhecida pela região da Macaronésia, designação atribuída no século XIX pelo geógrafo e botânico inglês Philip Baker Webb, inclui as ilhas Selvagens e os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e a costa de Cabo Verde, o chamado «enclave macaronésio africano». É um termo usado sobretudo pelos estudiosos da natureza (mas ultimamente também por políticos no sentido de região com interesses económicos comuns) para expressar um conceito fundamentalmente biogeográfico e botânico, pois, ao que parece, toda esta região partilha muitas características biológicas e contém comunidades de plantas e animais únicas. Há mesmo um Centro de Estudos da Macaronésia — Ciências da Vida e da Terra (CEM), o que demonstra bem a importância do conceito. O étimo do vocábulo «Macaronésia», esse encontramo-lo no grego makáron, «feliz, afortunado» e nesoi, «ilhas», isto é, «ilhas Afortunadas», o termo usado por antigos geógrafos para as ilhas a oeste do estreito de Gibraltar. O historiador Plínio, o Velho (23-79), identificou, na obra História Natural, as ilhas Afortunadas com as Canárias.

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