Léxico: «caça-gralhas»

Não percebo


      Então porque é que ouço — e leio — a palavra «caça-gralhas» desde sempre e ela não está nos dicionários? Olha, por exemplo, na correspondência de Luiz Pacheco, que foi também revisor, e muito competente, disse-me uma vez Jaime Salazar Sampaio. Encontramos neles, nos dicionários, até palavras que não deviam estar lá, mas não todas as que existem e se usam.

[Texto 22 811]

Léxico: «ortóstato»

Só pode ser confusão


      «Cualquiera que se sitúe frente al “obelisco” de Avebury, un ortostato de más de 6 metros de altura y 3 de diámetro, se sentirá sobrecogido contemplando aquella piedra alzada hace 5.000 años en el centro de un círculo de piedras de casi 100 metros de diámetro» («Megalitismo: qué sabemos hoy sobre los gigantes de piedra», Diego Suárez Martínez, La Razón, 12.04.2026, p. 50). 

      A Porto Editora regista o termo, com duas acepções. Vamos esquecer a segunda, relativa à medicina, e concentremo-nos na primeira: «ARQUEOLOGIA, ARQUITECTURA laje ou bloco de pedra vertical que forma a parte inferior de um muro, parede ou outra estrutura erigida no solo». Não é assim. Caiu no erro de reunir numa só acepção, sob os domínios Arqueologia e Arquitectura, dois sentidos distintos de «ortóstato»: o da arquitectura antiga, em que o termo designa uma laje vertical usada sobretudo na parte inferior de um muro ou no revestimento de uma parede, e o da arqueologia do megalitismo, em que designa uma grande pedra fincada verticalmente e integrante de uma estrutura monumental. A fusão destes dois valores semânticos gera uma definição híbrida e, no respeitante ao megalitismo, errada. 

      Assim, proponho ➜ ortóstato ARQUEOLOGIA (megalitismo) grande pedra alongada disposta verticalmente e fincada no solo, que constitui elemento estrutural de construções megalíticas, servindo de suporte ou de delimitação, nomeadamente em dólmenes, antas ou outros monumentos afins; 2. ARQUITECTURA (antiga) laje ou bloco de pedra disposto verticalmente, utilizado sobretudo na fiada inferior de muros (basamento) ou no revestimento de paredes em construções da Antiguidade, especialmente na arquitectura grega. 

      E vamos lá deixar a etimologia mais compostinha, porque, na verdade, vem ➜ do lat. orthostāta, e este do gr. ὀρθοστάτης (orthostátēs), comp. de ὀρθός, «direito, vertical», e στάτης (de ἵστημι, «pôr de pé, fazer estar»), «o que está de pé», «pedra erguida».

[Texto 22 810]

Léxico: «sete mares»

País de navegadores...


      Bem sabemos que os mares são mais de cinquenta, mas a expressão que nos acompanha há séculos é outra: sete mares. Nunca designou um conjunto fixo, variou conforme as épocas e as geografias: para os Gregos antigos, incluía, entre outros, o Mediterrâneo, o Adriático, o mar Negro e o mar Vermelho; noutras tradições, podia abranger sequências de águas do golfo Pérsico ao mar da China Meridional. Hoje, porém, a expressão vale sobretudo como forma de dizer «todos os mares» ou mesmo «o mundo inteiro», como em «navegar pelos sete mares». Ora, esta expressão tem de constar de todos os dicionários, pelo que proponho ➜ sete mares conjunto dos mares do mundo; totalidade dos oceanos, sem referência a um número real ou fixo de mares; por extensão, o mundo inteiro, especialmente em expressões como «navegar pelos sete mares».

[Texto 22 809]

Léxico: «tecido técnico»

Na Decathlon, por exemplo


      Aqui a bracelete do meu Citizen Eco-Drive é de tecido técnico, caqui. Ora, de vez em quando encontro isto, e nos dicionários, nada, pelo que proponho ➜ tecido técnico tecido concebido para desempenhar funções específicas, além do uso estético ou de vestuário corrente; caracteriza-se por propriedades como resistência, respirabilidade, impermeabilidade, elasticidade ou secagem rápida, obtidas por tratamento, estrutura ou combinação de fibras, geralmente sintéticas ou mistas.

[Texto 22 808]

Definição: «bistrô»

Isso é poucochinho, pá


      «O bistrot está a desaparecer em França. Dos 200 mil que existiam em 1968, restam uns 30 mil, dizia o Figaro no ano passado. Hoje, quase dois terços das 35 mil comunas do país já não têm esse café-restaurante para servir habitantes e viajantes. E isso está a afectar a tradicional forma de vida das comunidades rurais. Como referia o diário, uma cidade, vila ou aldeia sem bistrot é um lugarejo sem coração. Ou sem alma» («Alma de bistrot», António Rodrigues, Público, 10.04.2026, p. 23). 

      Em boa hora António Rodrigues se lembrou de publicar um texto sobre o assunto. Como deves imaginar, Porto Editora, pode dizer-se muito mais do que «pequeno restaurante» para definir este tipo de estabelecimento, e é o que faço propondo ➜ bistrô pequeno estabelecimento de restauração, de origem francesa, geralmente de carácter informal e ambiente familiar, onde se servem refeições simples e bebidas, frequentemente a preços acessíveis; por extensão, espaço de convívio quotidiano e de sociabilidade local, associado à vida comunitária, sobretudo em meios urbanos ou rurais de pequena escala. 

      Quanto à etimologia, vem do francês bistrot, de origem obscura; segundo hipótese tradicional, não comprovada, poderá relacionar-se com o russo bystro (быстро), advérbio que significa «depressa».

[Texto 22 807]

Definição: «húngaro/magiar»

É o mínimo


      A nossa melhor homenagem ao povo húngaro e a Péter Magyar, que escorraçou Orbán do poder, é definirmos decentemente «húngaro/magiar» na acepção da língua. Assim, proponho ➜ húngaro/magiar LINGUÍSTICA língua urálica do grupo fino-úgrico, de tipo aglutinante, caracterizada por harmonia vocálica, uso extensivo de sufixos e por um sistema desenvolvido de casos, sem género gramatical e com ordem de palavras relativamente livre, falada sobretudo na Hungria e por comunidades húngaras na Europa Central (Roménia, Eslováquia, Sérvia e Ucrânia), com cerca de 13 a 15 milhões de falantes.

[Texto 22 806]

Definição: «olho do furacão»

Com olhos de ver


      Na SIC Notícias, no sábado, o comentador Duarte Costa, especialista em alterações climáticas, explicou, até com recursos a gráficos, quadros, mapas, a diferença de cuidados entre o Governo português perante o comboio de tempestades, e sobretudo a Kristin, e o Governo neozelandês. Bem, mas foi aqui que nascemos e temos de aguentar. Num dos mapas, aparecia um olho do furacão, que a Porto Editora acolhe, mas que pode estar melhor, já que 1. omite um traço definidor essencial: a relativa acalmia dos ventos no interior do olho, que o distingue claramente das regiões circundantes; 2. não menciona o contraste estrutural com a parede do olho, zona onde se concentram os ventos mais intensos e a maior actividade convectiva; 3. inclui um elemento acessório como se fosse definidor, o diâmetro (30 a 70 km), quando este é altamente variável e não integra a essência do conceito; 4. não refere uma característica típica, ainda que não absoluta: a presença frequente de céu limpo ou pouco nublado no interior do olho; 5. formulação pouco precisa em «tendencialmente circular», que acrescenta pouco valor descritivo e não compensa a ausência de traços mais relevantes; 6. limita-se a uma descrição geométrica e barométrica, sem captar a dinâmica atmosférica fundamental do fenómeno (subsistência do ar e consequente estabilidade relativa).

      Assim, proponho ➜ olho do furacão METEOROLOGIA região central de um ciclone tropical, aproximadamente circular, caracterizada por pressão atmosférica muito baixa e por condições de relativa calma (ventos fracos e, frequentemente, céu pouco nublado), rodeada pela parede do olho, onde se registam os ventos mais intensos e a maior actividade convectiva.

[Texto 22 805]

Definição: «ralo»

Nem isto...


      Aproveitemos um autor ter recorrido a uma senhora perífrase («uma ponta daquelas que simulam o efeito da chuva») para designar exactamente o que toda a gente, de norte a sul, chama «ralo» para propor, Porto Editora, uma nova definição, já que falas em «tampa», um termo infeliz, porque ali nada se tapa, tampa ou tampona. Assim, proponho ➜ ralo peça perfurada, geralmente metálica ou plástica, que se adapta ao bico do regador e distribui a água em chuveiro, permitindo uma rega uniforme e suave.

[Texto 22 804]

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