Etimologia: «região»

Para dizer um pouco mais


      «Certains élus voudraient que l’Alsace redevienne une région autonome. Le mot vient du verbe latin regere, qui signifie diriger» («Région», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.04.2026, p. 33). 

      O mesmo é dizer que os dicionários, ao indicarem que «região» vem do latim regiōne-, «idem», pouco adiantam. Assim, proponho ➜ do latim regio, -onis, «direcção, linha traçada, território delimitado», e este de regere, «dirigir, governar; traçar em linha recta».

[Texto 22 779]

Léxico: «kernel | núcleo»

O sistema foi-se abaixo


      Na terça-feira, vi na RTP2 o primeiro episódio da série francesa Na Sombra (Dans L’Ombre), de Pierre Schoeller e Guillaume Senez. A primeira cena passa-se no 1.º de Dezembro de 2024 e decorre numa sala de guerra (aparece mesmo uma folha colada na porta: «War room»), onde uma equipa de informáticos e assessores acompanha o escrutínio para as primárias do Partido Conservador. Às tantas, o sistema vai-se abaixo. «On perd le kernel.» «Estamos sem kernel», diz um dos informáticos. E o termo inglês até aparece em itálico nas legendas, extraordinário. Infelizmente, apesar de ser um termo comum no campo da informática, não o vamos encontrar nos nossos dicionários. Não está na Infopédia, por exemplo. Encontramos lá, isso sim, o termo sinónimo português núcleo, muito menos usado: «INFORMÁTICA componente básico de um sistema operativo, que assegura a interacção desse sistema com outros programas e com o hardware do dispositivo». Só que «componente básico» é vago e pode induzir em erro: parece sugerir uma peça essencial do hardware (como o processador ou a memória), quando na verdade se trata da camada central de gestão do sistema operativo. 

      Assim, sugiro, com a recomendável remissão mútua, ➜ kernel/núcleo INFORMÁTICA parte central do sistema operativo que gere os recursos do sistema (memória, processos, dispositivos) e assegura a comunicação entre o hardware e o software

      Voltando às legendas, o tradutor/legendador, Karim Vieira Mesmoudi, devia ter optado por «núcleo» ou, até melhor: «O sistema foi-se abaixo.» Fidelidade como princípio absoluto, só nas relações conjugais e outras que tais, não na tradução.

[Texto 22 778]

Léxico: «glicirrízico | desglicirrizado»

Raiz doce


      Sabiam que o alcaçuz é rico em ácido glicirrízico? E sabiam que alguns dicionários não registam o termo? Vai daí, proponho ➜ glicirrízico QUÍMICA que diz respeito ou é relativo ao ácido glicirrízico ou aos seus derivados; que contém ou é constituído por glicirrizina, saponina triterpénica extraída sobretudo da raiz do alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), com propriedades edulcorantes e actividade biológica diversa, nomeadamente anti-inflamatória e expectorante. 

      Para quem sofre de hipertensão arterial, o melhor é passar pelo Celeiro e comprar uma embalagem de alcaçuz desglicirrizado. Por menos de 20 euros, vai sair de lá satisfeito. Ora, de nada, por quem sois. A propósito, quem sois mesmo? Há-de haver de tudo, como em todos os lados: bons, maus e simplesmente desprezíveis, e estes sempre louvaminheiros e sevandijas, para assim alcançarem os seus baixos objectivos. Bem, mas que se lixe, desde que eu não lhes ponha os olhos em cima...

[Texto 22 777]

Definição: «jovem»

Olhemos para isto como deve ser


      «“El uso tan restringido de ‘joven’ (para una franja que ahora se define mejor como adolescente) supone una limitación importante a la hora de aportar información”, afirma Javier Salas, redactor jefe de Sociedad. “Se produce un cortocircuito entre lo que expresa esa palabra según el Libro de estilo y lo que entiende ahora el lector, que con seguridad amplía hasta los 30 la horquilla de años que engloba el término”» («“Joven” se expande y “anciano” ofende», Soledad Alcaide, El País, 5.04.2026, p. 16). 

      No caso, é tão-só o cumprimento do livro de estilo do jornal que está em causa, que estabelece que jovem é a pessoa que tem entre 13 e 18 anos. Ora, muito mudou nos últimos quarenta anos, e agora já não é assim. Nas sociedades modernas ocidentais, a alguém que tem entre 13 e 18 anos mais comummente chamaremos adolescente, e jovem será da maioridade até à plena maturidade, o que agora, consensualmente, estará próximo dos 30 anos. Quando não mais. Ainda anteontem de manhã, na Rádio Observador, a propósito das negociações dos Estados Unidos com o Irão, que vai contar com a participação do vice-presidente dos EUA, Francisco Proença Garcia augurava um bom futuro para J. D. Vance, porque é «um jovem». Tem 41 anos. É este conceito actualizado, mais sociológico do que linguístico, que está arredado dos nossos dicionários, e ninguém ganha nada com esse imobilismo. Acrescente-se também que a União Europeia, por exemplo, define frequentemente «jovens» como as pessoas entre os 15 e os 29 anos, sendo comum, em programas e políticas de juventude, o prolongamento até aos 30 anos. Esta delimitação confirma que o uso de «jovem» não se restringe à adolescência e abrange, de forma estável, o início da idade adulta. 

      Ora, quando um termo ganha densidade sociológica («juventude» como categoria de políticas públicas, de mercado de trabalho, de cultura), a língua não fica à margem: incorpora esse uso e estabiliza-o. Os dicionários não criam a realidade, registam-na. Assim, proponho ➜ jovem pessoa de idade pouco avançada, situada entre o fim da adolescência e a plena maturidade; em uso corrente, abrange geralmente indivíduos até cerca dos 30 anos, podendo este limite variar conforme o contexto; por extensão, pessoa considerada nova numa actividade, grupo ou função, independentemente da idade cronológica.

[Texto 22 776]

Extras! Extras! Extras!

Porque andam muito folgados


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 775]

Definição: «oximel»

Isso era dantes


      Aproveito um autor ter usado a palavra «oximel» para propor uma nova, mais rica e actualizada, definição, já que hoje em dia só conhecemos o termo graças ao seu uso fitoterápico. Assim, proponho ➜ oximel 1. bebida composta de vinagre e mel (por vezes com adição de água), usada desde a Antiguidade como preparado medicinal e tónico, frequentemente associada a propriedades digestivas e expectorantes; 2. preparação líquida à base de vinagre e mel, utilizada como veículo para a maceração ou infusão de plantas medicinais, com fins terapêuticos. 

      Quanto à etimologia, não tem muito que saber, vem do grego oxýmeli, de oxýs, «ácido», + meli, «mel», pelo latim oxymeli.

[Texto 22 774]

Definição: «aparte»

Ainda bem que errou


      «Nas galerias, há quem não tenha conseguido ficar calado, como foi o caso de António Mota Prego, ex-deputado do PS e um dos 95 constituintes convidados pelo presidente da Assembleia da República para participarem na sessão solene dos 50 anos da Constituição. “Além de sermos ex-constituintes, somos também deputados honorários”, afirma, argumentando que, “como deputado, tinha direito a fazer algum à parte que, de alguma forma, rebatesse aquilo que André Ventura estava a dizer”» («“Não se sabem comportar, só armam confusão. Não podemos suportar tanta má criação”: o poema após virar costas a Ventura», Francisco Nascimento, TSF, 2.04.2026, 14h40). 

      O melhor que Francisco Nascimento podia ter feito — além de consultar um dicionário e ler mais — era perguntar a António Mota Prego como é que se escreve a palavra, já que um antigo deputado, mormente desta idade, sabe. Quanto aos actuais, talvez 75 % não saibam. Chegou a sua vez, Francisco Nascimento: à parte é uma locução adverbial e significa «em separado»; espero que compreenda agora que não se adequava ao contexto. Já aparte é um nome e significa, entre outras coisas, «comentário que interrompe um discurso», «esclarecimento». E agora nós, Porto Editora: a tua definição desta acepção está a precisar de obras: «frase isolada para interromper quem fala». Frase? Bem, depende, mas muitas vezes não passa de uma palavra, e seria então, no máximo, holófrase. Não é essa, contudo, a maior fragilidade da definição. Assim, proponho ➜ aparte comentário breve, proferido à margem de um discurso (geralmente de outrem), podendo interrompê-lo ou surgir paralelamente, sem fazer parte da intervenção principal.

[Texto 22 773]

Definição: «mala diplomática»

Sempre diplomática, nem sempre mala


      «La règle de la valise accompagnée est intangible : selon la Convention de Vienne, cette valise-là ne peut être ni scannée, ni ouverte, ni retenue. Et le rituel est immuable. Le “courrier de cabinet” en assure le remplissage et la fermeture sous scellé, sous le regard d’un agent de la valise accompagnée» («Plongée dans les secrets du service de la valise diplomatique française», Jean-Marc Leclerc, Le Figaro, 31.03.2026, p. 10). 

      Excelente artigo este sobre a mala diplomática francesa, que é em quase tudo, salvo pormenores, igual à nossa, já que as regras que se lhes aplicam seguem o quadro geral do direito internacional, em particular a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. Só para os leitores não se sentirem perdidos, a «valise accompagnée» do artigo designa a mala diplomática que viaja acompanhada por um correio diplomático, isto é, por um agente oficialmente designado que a transporta (em mão ou sob sua responsabilidade directa) e que goza das imunidades necessárias para garantir a inviolabilidade durante o transporte. E depois há a «valise non accompagnée», que segue desacompanhada, normalmente como carga (por via aérea, por exemplo), embora continue a beneficiar do mesmo estatuto de inviolabilidade, desde que devidamente selada e identificada. Mas, que fique claro, tudo junto ou separado é sempre mala diplomática. 

      A definição da Porto Editora apresenta um erro e um aspecto que precisa de ser esclarecido. O erro é a limitação às «autoridades alfandegárias», que é redutora, uma vez que a regra se aplica a quaisquer autoridades do Estado de trânsito ou de destino. O aspecto a melhorar diz respeito à abrangência dessa inviolabilidade, que abrange qualquer forma de controlo, incluindo meios técnicos como a digitalização por scanner. Assim, proponho ➜ mala diplomática DIREITO INTERNACIONAL conjunto de volumes ou expedições utilizados nas comunicações oficiais entre um Estado e as suas representações no estrangeiro, que não podem ser abertos, retidos ou sujeitos a qualquer forma de controlo pelas autoridades do Estado de trânsito ou de destino, por força da inviolabilidade diplomática.

[Texto 22 772]

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