Tradução

Em 1969

      «‘Yes,’ said Mrs Cunnigham. ‘I’m getting it ready in a minute or two. Go and join others in the garden. You can pick a few daffodils, if you like — we want some in the hall’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 9). «— É — respondeu a Sr.ª Cunningham. — Vou prepará-lo dentro de momentos. Vai ter com os outros ao jardim. Se quiseres podes colher alguns narcisos... faz falta um ramo no vestíbulo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 15).
      Há quarenta anos, os tradutores ainda sabiam que não precisavam do vocábulo «hall» para nada, nem da abreviatura «Mrs».

[Post 4582]

Interjeições

Uh, uf

      «— Bom, pelo menos andarás distraído — comentou Dina. — Suponho que o significado disso consiste em que, quando menos esperarmos, tu terás metido em casa um casal de texugos como mascote. Uf!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 9).
      Bem... As interjeições constituem a classe gramatical mais descurada, desprezada mesmo pelos dicionários. Talvez nenhum dicionário divirja: a interjeição uf (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista...) é de alívio ou de cansaço. No original, a interjeição é ugh, que exprime aversão, repulsa, nojo. Para exprimir estas emoções, temos em português a interjeição uh. (A despropósito, quem é este Vítor Alves?)

[Post 4581]


Locução adverbial

Outra vez

      «‘I don’t really think there’s anything peculiar about it,’ said his mother. ‘Bill gets sudden ideas, you know’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 3). «— Não considero o caso extraordinário — disse a mãe. — Já sabes que Jaime pensa sempre nas coisas à última hora» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 8).
      Talvez seja a terceira vez que, de uma forma ou outra, refiro aqui a expressão adverbial «à última (da) hora». Lembro-me de, num comento, Fernando Venâncio ter discordado de «à última hora» ser a forma recomendável. De vez em quando, é bom refrescarmos assuntos já debatidos. Hoje, a novidade (?) é confirmar que já em 1969 havia quem optasse pela forma sem preposição. Não me lembro se alguma vez Vasco Botelho de Amaral se referiu a esta questão linguística.

[Post 4580]


Léxico: «megalópole»

Esses grandes inventores

      «Disse um taxista de Tóquio: “Parece que é domingo”. Parece que um feitiço prendeu a megapólis de mais de 35 milhões de habitantes num domingo permanente. As ruas estão vazias, circulam poucos carros. Tóquio mudou e poderá não voltar a ser a mesma durante muito tempo. O sismo de 11 de Março não derrubou prédios nem abriu fendas nas estradas, mas criou o medo da radioactividade no único país onde caíram duas bombas atómicas, durante a II Guerra Mundial» («Em Tóquio, agora é domingo todos os dias», Ana Gomes Ferreira, Público, 18.03.2011, p. 16).
      Podia ser, pois temos o vocábulo «pólis» (embora, para alguns dicionários, seja somente «cidade-estado»), a que juntaríamos o antepositivo mega- (conexo com megal(o)-). Mas não precisamos de inventar o que já foi inventado: temos o vocábulo megalópole («grande aglomeração populacional constituída pelo conjunto de várias áreas metropolitanas, cujas fronteiras se interpenetram», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Em língua inglesa escreve-se megalopolis, que tem a variante (cá está!) megapolis. E mais: não devia ser «megápolis», à semelhança de acrópole, cosmópole, helépole, metrópole, necrópole, pentápole, etc.? Para terminar: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — oh vergonha — não regista o vocábulo «megalópole». Não, agora é que é para terminar: cara Ana Gomes Ferreira: não se envergonhe de usar o dicionário. Envergonhe-se, como jornalista, do contrário.


[Post 4579]

Tradução

Vem do Brasil

      «They enjoyed a chartered boat trip around the Balearic rave island and even treated themselves to a mud bath at a spa.» O tradutor brasileiro, porque é disto que se anda também a falar nas caixas de comentários, verteu desta forma expedita: «Eles fizeram um passeio de barco por todo o balneário e tomaram um banho de lama.» Juro que este não é o pior passo da tradução. E o texto vai ter muitos milhares de exemplares a correr por aí. E quem lê, naturalmente, engole tudo, ou quase.
      Agora digam-me se toda a gente, seja onde for, não apenas no Brasil, está habilitada a traduzir. Mais, digam-me se toda a gente está habilitada a escrever.


[Post 4578]


Hífen

Muito complexo...

      «Na segunda e terça-feira a capitania de Lampedusa registou a chegada de 21 navios, que obrigaram a uma “constante assistência da guarda-costeira e da polícia e a diversas operações de socorro”, segundo o comandante, citado pela AFP. Uma patrulha da Marinha italiana recolheu na madrugada de terça-feira 129 imigrantes que seguiam numa embarcação em que tinha já começado a entrar água, e que se encontrava à deriva» («Fluxo de tunisinos para a ilha italiana de Lampedusa não pára», João Manuel Rocha, Público, 17.03.2011, p. 23).
      Já aqui vimos que a forma hifenizada deve ser reservada para os elementos, para os funcionários. No caso, a assistência foi da Guarda Costeira.

[Post 4577]

Como se escreve nos jornais

Alpondras, pondras, poldras

      «Segundo a Lusa, o jovem integrava um grupo de militares que tinha estado em bares da cidade. Já de madrugada, o grupo deslocou-se até à margem do Tâmega, onde a vítima terá apostado em como conseguia atravessar o rio utilizando as pedras submersas ali existentes» («Militar do Pinhal Novo desapareceu nas águas do rio Tâmega em Chaves», Marta Pais de Oliveira, Público, 17.03.2011, p. 29).
      É o que se lê e ouve em todos os meios de comunicação social — porque desconhecem o vocábulo alpondras. Na ignorância, são meramente «pedras submersas». Quase submersas.


[Post 4576]

Sentido figurado

«Carapaça» estava bem

      «“Isso não é bom”, comenta, em relação à piscina sem água, José Marques, do Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém, e da Faculdade de Ciências de Lisboa. “Se a piscina perdeu a água por causa de brechas, não vão conseguir reparar a fuga. A confirmar-se, a única solução é largar betão por cima desse combustível, por helicóptero ou outros meios, embora vá criar um problema para resolver no futuro”, explica. “Podem fazer um sarcófago para absorver e diminuir os níveis de radiação. É preciso pôr-lhe um material por cima que possa absorver as radiações. O betão é bom para isso, pode ser posto a certa distância e, quando secar, faz uma carapaça”» («Radiação aumenta na central e pode obrigar ao uso de sarcófago de betão», Teresa Firmino, Público, 17.03.2011, p. 2).
      Ainda pensei que este novo uso figurado do vocábulo «sarcófago» se devesse a algum cérebro português (embora, na verdade, «carapaça», que também foi usado, me pareça mais imediatamente perceptível), mas não: na imprensa anglo-saxónica, lê-se que vai ser construído «a concrete sarcophagus». Mas a jornalista, como seria de esperar, não resistiu e usou três vezes a palavra.

[Post 4575]

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